Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Igor Nolasco Rocha Marçal (UFF)

Minicurrículo

    Natural de Niterói-RJ, Igor Nolasco é mestre pelo PPGCine-UFF e bacharel em Cinema e Audiovisual pela ESPM Rio. Atua como crítico de cinema para veículos digitais e desenvolve pesquisas voltadas ao cinema brasileiro e às relações entre crítica, memória e cultura popular. Em 2026, defendeu a dissertação de mestrado “Rapsódia afrocarioca: reflexões sobre as formas de conhecimento negras, a formação cultural do Rio de Janeiro e o cinema de Zózimo Bulbul”.

Ficha do Trabalho

Título

    Novas perspectivas para as cinematografias negras brasileiras: o caso Filmes de Plástico

Resumo

    Este trabalho almeja propor, à filmografia coletiva da produtora mineira Filmes de Plástico, uma revisão sob a categoria de leitura das cinematografias negras brasileiras. A comunicação objetiva apontar como os filmes de André Novais Oliveira, Gabriel Martins e Maurílio Martins, bem como a recepção geral destes pela crítica, por festivais e pelo circuito exibidor, podem ser lidos como um estudo de caso no tocante às perspectivas presentes e futuras para os cinemas negros realizados no país

Resumo expandido

    No dia 17 de setembro de 2024, uma sessão de “O dia que te conheci”, de André Novais Oliveira, foi sediada no Cine Arte UFF, na cidade fluminense de Niterói, com direito a debate na presença do diretor e dos atores Renato Novais e Grace Passô. Com o exíguo limite de tempo imposto à duração do evento, as colocações do público passaram a ser agrupadas em blocos de duas ou três perguntas direcionadas à equipe do longa e respondidas por ela de forma conjunta. Em uma das últimas rodadas de questionamentos, foi perguntado se André Novais e os atores do filme considerariam o trabalho dos cineastas filiados à produtora Filmes de Plástico, responsável pela obra, como sendo pertencente ao recorte dos cinemas negros brasileiros. Em meio a réplicas que precisavam dar conta de múltiplas dúvidas da plateia, a pergunta não foi respondida.
    Do incômodo causado ao autor da questão pelo silêncio com o qual ela (não) foi respondida, surgiu o desejo de ver, rever, refletir e repensar os filmes de curta, média e longa-metragem lançados ao longo das últimas duas décadas pelo coletivo, que tem suas origens em Contagem, município periférico à grande Belo Horizonte, e é formado por Novais, Gabriel Martins, Maurílio Martins e Thiago Macêdo Corrêa. Que a composição étnica dos quadros societários da Filmes de Plástico não seja integralmente negra não parece tão importante quanto uma avaliação mais criteriosa daquilo que, à guisa de unidade, pode ser verificado nos principais expedientes visuais e temáticos de seus filmes, sobretudo os de Gabriel Martins e André Novais Oliveira. A reflexão encontra tração em perspectivas como a do crítico Juliano Gomes, que apontaria o curta “Fantasmas”, de Novais — “a obra mais significativa da década [de 2010]” no cinema brasileiro —, por exemplo, como sendo “um filme sobre paranoia negra”, mesmo que seus únicos personagens estejam fora de quadro durante toda a minutagem do curta (Gomes, 2020).
    Este trabalho propõe, enfim, alçar filmes como “Rapsódia para um homem negro”, “Temporada”, “No coração do mundo”, “Marte Um” , “O dia que te conheci” e a série “O natal dos Silva” à categoria de leitura das cinematografias negras brasileiras — grafadas no plural, em oposição à ideia engessada e datada de que um “cinema negro brasileiro” seria composto por uma linha evolutiva una e por um diapasão singular, e se filiando a uma visão mais dinâmica e próxima daquela que é defendida por estudiosos do subcampo na contemporaneidade (Nwabasili, 2023).
    Mais importante do que procurar, via análise fílmica, elementos que atestem o alinhamento das obras supracitadas ao trabalho de outros cineastas mais ou menos identificados com rotulações análogas no passado ou na produção contemporânea, nos parece proveitoso tomar a Filmes de Plástico (desde sua história enquanto produtora até aquilo que parece orientar seu projeto fílmico) como um estudo de caso para exemplificar as perspectivas presentes e futuras no que se refere às cinematografias negras brasileiras. Nesse aspecto, é importante situar a Filmes de Plástico ao lado de outras produtoras ou cineastas que atendem a algumas das categorias de análise empreendidas pelo trabalho, como a Rosza Filmes (companhia fundada por Ary Rosa e Glenda Nicácio) ou o roteirista-diretor-montador Lincoln Péricles (que é inclusive um interlocutor direto de Novais, com quem co-dirigiu o curta “Roubar um plano”).
    Tal linha de raciocínio será costurada com o auxílio de uma bibliografia oriunda da academia e da crítica. Ela será basilar para o entendimento do contexto histórico, social, político e fílmico no qual surge e se desenvolve a Filmes de Plástico, para nos auxiliar a apontar as principais preocupações atuais do subcampo dos cinemas negros no Brasil, e para posicionar Novais, Gabriel e Maurílio Martins enquanto expoentes de uma cinematografia negra no tocante às disputas correntes no microcosmo das mostras e festivais e no circuito exibidor do país.

Bibliografia

    Carvalho, Noel dos Santos et al (orgs). Cinema negro brasileiro. Campinas: Papirus, 2022.
    Gomes, Juliano. Carta a Bruno Galindo (ou o bagulho é a prática). Cinética, 17 de novembro de 2020. Disponível em: .
    Ikeda, Marcelo. Das garagens para o mundo: Como uma jovem geração de artistas independentes transformou o cinema brasileiro dos anos 2000. Porto Alegre: Sulina, 2024.
    Nwabasili, Mariana Queen. Debates sobre a legitimidade de autoria e representação social e racial no cinema brasileiro: disputas e historicidade do subcampo Estudos (Críticos) de Cinema(s) Negro(s) Brasileiro(s). In: Borges, Cristian et al (orgs). Anais de textos completos do XXVI Encontro SOCINE: Volverse Otras: políticas, imagens, sons e fronteiras. São Paulo: SOCINE, 2023.
    Pistache, Viviane. Filmes de Plástico: De Mar, Amar. Geledés – Instituto da Mulher Negra, 24 de janeiro de 2024. Disponível em: .