Ficha do Proponente
Proponente
- Luíza Beatriz Amorim Melo Alvim (USP)
Minicurrículo
- Doutora em Comunicação pela UFRJ e em Música pela UNIRIO, graduada em Cinema (UFF), pós-doutora em Música (UFRJ), professora substituta da ECO-UFRJ em 2014-2015 e 2021-2023 e do Departamento de Cinema e Vídeo da UFF em 2018. É pós-doutoranda da ECA-USP, com pesquisa sobre o uso de música preexistente no cinema contemporâneo e bolsa CNPq. Autora do livro “A música no cinema de Robert Bresson” e “A música no cinema: aspectos históricos, teóricos e estéticos” e várias outras publicações.
Ficha do Trabalho
Título
- Godard e as músicas da gravadora ECM em seus três últimos longas-metragens
Seminário
- Histórias e tecnologias do som no audiovisual
Resumo
- Analisamos a relação dos 3 últimos longas-metragens de Jean-Luc Godard – Filme Socialismo (2010), Adeus à linguagem 2014) e Imagem e palavra (2018) – com sua obra anterior por meio do repertório musical escolhido, com foco nas músicas oriundas da gravadora ECM, além de seu uso estético. Nos 3 últimos longas, há uma retomada de compositores (Pärt, Kanceli e Otte) e adição de novos. Motivos ou frases musicais curtas funcionam como elementos estruturantes, sendo alguns recorrentes e reconhecíveis.
Resumo expandido
- Desde o final dos anos 1980, Jean-Luc Godard usa músicas da gravadora Edition of Contemporary Music (ECM) em suas obras audiovisuais. Jullier (2004) conta que, quando Godard estava realizando Histoire(s) du cinema (1988 – 1998), recebeu CDs da gravadora pelo correio e passou a utilizá-los. Por sua vez, as “bandas sonoras” de Histoire(s) du cinema e do filme Nouvelle Vague (Jean-Luc Godard, 1990) foram lançadas pela gravadora como CDs (sem as imagens), contrariando, de certa forma, a conhecida afirmação de Chion de que “não há banda sonora”.
Um dos compositores do catálogo da ECM é o estoniano Arvo Pärt, que, de tão presente no cinema contemporâneo, fez Chion (2019) cunhar um “efeito Arvo Pärt”. Obras bem conhecidas de Pärt, como Fratres e Cantus em memoriam de Benjamin Britten, apareciam já em Grandeur de décadence d´un commerce (Jean-Luc Godard, 1985). Várias outras obras do compositor foram utilizadas por Godard ao longo dos anos 1990 e 2000, além de músicas de outros compositores da ECM, como o georgiano Giya Kanceli e o alemão Hans Otte. Partes dessas músicas se tornaram quase que marcas sonoras de Godard, como o cluster de piano no início de Vom Winde beweint, de Kanceli, presente diversas vezes em Hélas pour moi (1993), Histoire(s) du cinéma 2a (1993) e JLG/JLG. Autoportrait de décembre (1994).
Outros cineastas, como o estadunidense Terrence Malick e o italiano Paolo Sorrentino, utilizaram obras da ECM e músicas de estilos semelhantes em seus filmes. Tais estilos estão presentes na atual música para cinema e são consumidos para além dele, o que indica a importância de considerarmos tal repertório.
Stenzl (2010) fez um estudo da música na filmografia de Godard até Nossa música (2006). Já os três últimos longas-metragens de Godard, Filme Socialismo (2010), Adeus à linguagem (Adieu au langage, 2014) e Imagem e palavra (Le livre d´image, 2018) têm sido objeto de pesquisas, porém chama a atenção que, ainda quando elas tratem do som (como em Stefanou, 2016), não têm como foco o uso da música ou não há muita precisão de análise (como em Silva, 2012). Assim, o objetivo desse trabalho é considerar o repertório musical utilizado e seus modos estéticos de emprego nos três últimos filmes de Godard, relacionando-os com a obra anterior do diretor e focando o uso de obras da ECM.
Há recorrências importantes de músicas utilizadas em filmes anteriores, como o cluster de Vom Winde beweint, de Kanceli, presente várias vezes na última parte de Filme Socialismo (além de estar uma vez em Imagem e palavra); Abii ne viderem, também de Kanceli, em Adeus à linguagem; Fratres, de Arvo Pärt, e O livro dos sons, de Hans Otte em Imagem e palavra. Por outro lado, há obras da ECM que figuram neles pela primeira vez, como Neharo’t Neharo’t da israelense Betty Olivero em Filme Socialismo; três obras da búlgara Dobrinka Tabakova nos dois últimos filmes; e, em Imagem e palavra, dois movimentos do Quinteto para piano de Mieczyslaw Weinberg.
Quanto ao modo de utilização, por um lado, como de hábito, Godard fragmenta as músicas, dando origem a vários trechos seguidos (com interrupções) ou repetidos de uma mesma obra. No entanto, tal como notou Williams (2004) em relação às músicas nos filmes de Godard dos anos 1990, observamos que essa fragmentação não impede que alguns motivos ou frases musicais sejam facilmente reconhecidos. Por exemplo, as frases musicais ascendentes de Abii ne viderem ou o cluster de Vom Winde beweint de Kanceli.
Alguns dos fragmentos musicais apresentam um caráter estrutural de pontuação (e não de leitmotiv), retornando em diferentes momentos dos filmes. É o caso, em Adeus à linguagem, de Abii ne viderem, além de obras mais tradicionais (de Tchaikovski, Sibelius, e Beethoven). Em Imagem e palavra, a pontuação é feita principalmente pelo Quinteto para piano de Weinberg, e, em menor proporção, por O livro dos sons, de Hans Otte. Também pode ser considerada uma pontuação “Neharo’t Neharo’t” nas duas primeiras partes de Film Socialisme.
Bibliografia
- CHION, M. La musique au cinéma: Les chemins de la musique. 2. ed. Paris: Fayard, 2019.
FOX, A. Godard and sound: acoustic innovation in the late films of Jean-Luc Godard. London: I.B.Tauris, 2018.
JULLIER, L. JLG/ECM. In: TEMPLE, M.; WILLIAMS, J.; WITT, M. (org.). For ever Godard. London: Black Dog Publishing, 2004.
LAU, Matthew. Sounds Like Helicopters: Classical Music in Modernist Cinema. State University of New York Press, 2019.
SILVA, J. E. C. A forma da música em Film Socialisme de Jean-Luc Godard. Música em perspectiva, v. 5, n. 2, 2012, p.65-88.
STENZL, J. Jean-Luc Godard – musicien: Die Musik in den Filmen von Jean-Luc Godard. München: ET + K, 2010.
STEFANOU, D. Music, noise and silence in the late cinema of Jean-Luc Godard. In: COOKE, M.; FORD, F. (org.). The Cambridge Companion to Film Music. Cambridge University Press, 2016.
WILLIAMS, J. Music, love and the cinematic event. In: TEMPLE, M.; WILLIAMS, J.; WITT, M.(org.). For ever Godard. London: Black Dog Publishing, 2004.