Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro Henrique Alves Silva (UFF)

Minicurrículo

    Doutorando e Mestre em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e Licenciado em Cinema e Audiovisual pela mesma instituição. Cocoordenador do AnimaMídia: Grupo de Pesquisa em Desenho Animado (PPGCOM/UFF). Investiga os filmes infantis brasileiros, e a relação entre o gênero do horror e a infância nas diversas mídias. Além de pesquisador, atua como roteirista, curador e coordenador educativo.

Ficha do Trabalho

Título

    A Hora de… tudo: Espantomania e a descoberta brasileira do horror juvenil na década de 1980

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    Essa pesquisa investiga a Espantomania, a prática de distribuidoras brasileiras nos anos 1980 de rebatizar filmes de horror estrangeiros com o prefixo “A Hora de/do”. A partir da circulação de A Hora do Espanto (1985), analisa-se como essa estratégia mercadológica configurou um regime de recepção do horror entre o público infantojuvenil. O enquadramento teórico articula a teoria pragmática do gênero, o ciclo de obras de horror adolescentes e os estudos de espectatorialidade infantojuvenil.

Resumo expandido

    Essa pesquisa investiga o fenômeno cultural brasileiro denominado Espantomania, a prática sistemática adotada por distribuidoras de cinema e VHS nos anos 1980 de, dentre outras coisas, rebatizar filmes de horror estrangeiros com o prefixo “A Hora de/do”. O marco inaugural foi a distribuição de Fright Night (Tom Holland, 1985) como A Hora do Espanto, lançado nos cinemas brasileiros em março de 1986. O êxito comercial da produção consolidou uma fórmula replicada em dezenas de lançamentos subsequentes, sobretudo após A Nightmare on Elm Street (Wes Craven, 1984) chegar ao circuito nacional em 1987 como A Hora do Pesadelo. A padronização se estendeu a títulos como A Hora do Lobisomem (Daniel Attias, 1985), Re-Animator: A Hora dos Mortos-Vivos (Stuart Gordon, 1985), A Hora das Criaturas (Stephen Herek, 1986) e o brasileiro A Hora do Medo (Francisco Cavalcanti, 1987), evidenciando a articulação do gênero horror com o filme juvenil e o alusionismo durante a década (Carreiro; Cánepa, 2025). O objetivo é analisar como essa estratégia mercadológica configurou um regime de circulação e recepção do horror entre o público infantojuvenil brasileiro examinando duas dimensões articuladas: as lógicas de distribuição e as infraestruturas materiais de acesso (cinema, videolocadoras e TV aberta).
    O enquadramento teórico articula três eixos. O primeiro mobiliza a abordagem semântica/sintática/pragmática de Rick Altman (2006 [1999]), que permite compreender a Espantomania como operação pragmática. Ao intervir no nível semântico do gênero por meio da adaptação sistemática de títulos, as distribuidoras brasileiras criaram reconhecimento imediato em cartazes e prateleiras, formando o que Altman denomina “comunidades consteladas” de jovens espectadores. O segundo eixo aproxima esse processo do ciclo dos filmes de horror adolescentes da década de 1950 (Doherty, 2002), cuja lógica encontra paralelo direto nas estratégias das distribuidoras brasileiras dos anos 1980, década igualmente marcante para a consolidação do cinema juvenil no país (Bueno, 2016). O terceiro recorre aos estudos de espectatorialidade infantojuvenil de Sarah J. Smith (2005) e Sarah Cleary (2022) que problematizam os pânicos morais recorrentes sobre jovens e cinema de horror e desmantelam o que Cleary denomina o “mito do dano”.
    O trabalho argumenta, ainda, que a recepção entusiasmada de A Hora do Espanto pelo público brasileiro não foi fortuita. Com sua mescla de horror e comédia, sua autoconsciência de características do gênero e suas referências paródicas ao repertório vampiresco clássico, o filme encontrou aderência com a tradição do horror paródico que Laura Cánepa (2008) identifica como uma das vertentes centrais do cinema de horror nacional. O declínio da Boca do Lixo e o esgotamento das pornochanchadas (Abreu, 2006) deixavam um vácuo na oferta de produções de horror ao público jovem, vácuo que a boa aceitação do terrir de Ivan Cardoso por público e crítica (Lyra, 2006) já sinalizava. As distribuidoras brasileiras, ao recodificar filmes estrangeiros pelo viés da Espantomania, ocuparam esse espaço.
    O corpus empírico centra-se na circulação de A Hora do Espanto pelos três veículos do consumo audiovisual do período: salas de cinema (1986), videolocadoras (1988) e o programa Tela Quente da Rede Globo (1989). A investigação adota como fontes primárias periódicos da época — reportagens, programação televisiva, anúncios de distribuidoras, resenhas críticas e matérias sobre o mercado de vídeo doméstico —, reconstituindo as estratégias promocionais e a fortuna crítica do fenômeno.

Bibliografia

    ABREU, Nuno Cesar Pereira de. Boca do lixo: cinema e classes populares. Editora da UNICAMP, 2006.
    ALTMAN, Rick. Film/Genre. British Film Institute, 2006.
    BUENO, Zuleika de Paula. Leia o livro, veja o filme, compre o disco: a formação do cinema juvenil brasileiro. Eduem, 2016.
    CÁNEPA, Laura Loguercio. Medo de quê?: Uma história do horror nos filmes brasileiros. Tese (Doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, 2008.
    CARREIRO, Rodrigo; CÁNEPA, Laura. Cinema de horror: uma introdução. Gênio Editorial, 2025.
    CLEARY, Sarah. The Myth of Harm: Horror, Censorship and the Child. Bloomsbury Academic, 2022.
    DOHERTY, Thomas. Teenagers and teenpics: the juvenilization of American movies in the 1950s, Revised and expanded edition. Temple University Press, 2002.
    LYRA, Bernadette. Horror, humor e sexo no cinema de bordas. Ilha do Desterro, n. 51, p. 131-146, 2006.
    SMITH, Sarah J. Children, Cinema and Censorship: From Dracula to the Dead End Kids. I.B. Tauris, 2005.