Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Beatriz Ferraro Barcella (Unicamp)

Minicurrículo

    Mestranda em Multimeios pelo Instituto de Artes da Unicamp e graduada em Comunicação Social – Midialogia também pela Unicamp. Tem experiência de pesquisa e produção nas áreas de cinema e comunicação; com ênfase em gêneros cinematográficos e, principalmente, ficção científica.

Ficha do Trabalho

Título

    FRONTEIRAS SOCIAIS E TECNOLÓGICAS DE UM BRASIL FUTURO: EXPRESSÕES DA FICÇÃO-CIENTÍFICA “TUPINIPUNK”

Seminário

    Cinema e audiovisual na América Latina: novas perspectivas epistêmicas, estéticas e geopolíticas

Resumo

    O projeto tem como proposta a utilização do conceito “Tupinipunk”, um cyberpunk antropofágico, cunhado por Roberto Causo para classificar um movimento de literatura de ficção científica brasileira emergido nos anos 1980/1990, para análise de duas expressões nacionais cinematográficas contemporâneas: Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi, e Bacurau (2019), de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho.

Resumo expandido

    Ivan Carlos Regina diria, através do Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira, de sua autoria: “A ficção científica brasileira não existe”. Produzido em 1988, um ano após o desastre radioativo em Goiânia, tal manifesto expõe principalmente o estado de submissão de nossa ficção científica nacional do período a costumes e padrões estrangeiros. Denunciando a falta de consistência de representantes do gênero na literatura brasileira até então, o manifesto de Regina acaba se tornando peça chave para impulsionar a ficção científica brasileira – junto ao próprio imaginário brasileiro da época, marcado pelas terríveis consequências do descaso ao tratar material radioativo -, processo que se torna significativo a partir dos anos 1980 e é alavancado durante os anos 1990. Durante este processo de maior produção e popularização da ficção científica nacional, observa-se entre escritores do período a ascensão de uma onda fortemente ligada ao movimento cyberpunk – muitas vezes como paródia -, a qual seria posteriormente estudada por Roberto Causo e nomeada “tupinipunk”, sendo assim nomeada por seu alinhamento às perspectivas de avanços tecnológicos através de uma ótica de “periferia mundial”, intrinsecamente brasileira. Por sua vez, sendo diretamente ligado ao cyberpunk, não se dissocia de sua essência crítica, mas cumpre papel de expor também outro mecanismo capitalista que não se faz presente no no gênero anglo-americano: a perspectiva de um país colonizado.
    Considerando-se a história do país, bem como da própria América Latina, marcada por genocídios, escravidão, ditaduras e imperialismo, é inevitável que seus vestígios sejam refletidos na construção das narrativas tupinipunk, especialmente ao se considerar o período de consolidação do gênero como inserido historicamente no momento de queda da ditadura militar e transição negociada para um regime democrático. As marcas deixadas pelos eventos da época transparecem em seus enredos, através de conspirações e tramas políticas ligadas a grandes corporações e poderes estrangeiros em confluência com governos locais, que estabelecem seu domínio se utilizando de tecnologia mais avançada do que a acessada pela população geral – demonstrando mais uma diferença para com o cyberpunk, no qual a tecnologia passa a cumprir papel de dissipadora de fronteiras, através de ambientes em que indivíduos existam independente de seus corpos físicos, enquanto no tupinipunk ela reforça tais fronteiras, de corpos, classe, raça e gênero. Deste modo, escancara-se e contesta-se a submissão do povo brasileiro em favor de interesses imperialistas, por meio de políticas entreguistas e favorecedoras apenas da restrita elite nacional. O tupinipunk de certa maneira reinscreve o corpo periférico, o corpo colonizado, o corpo dos povos originários na ficção especulativa, um traço essencialmente brasileiro e ausente do cyberpunk estadunidense dos anos 1980. Além disso, no lugar de um mundo ultracapitalista tardio em que as corporações angariam mais poder do que os estados-nacionais, o tupinipunk mantém a “cicatriz” da ditadura militar em suas narrativas. No tupinipunk, o estado autoritário em sua aliança com o capital e as forças armadas subsiste como o poder opressor sobre corpos de brasileiros originários, afro-brasileiros ou brasileiros periféricos em geral.
    Neste contexto, portanto, se encontra o alvo desta pesquisa, explorar as marcas de autoria da ficção científica brasileira com base não no tupinipunk literário, mas no tupinipunk cinematográfico ou audiovisual. Tendo como objetivo identificar os modos do subgênero presentes nos filmes selecionados, Uma História de Amor e Fúria (2013), de Luiz Bolognesi, e Bacurau (2019), de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, e, desta forma, debater a possibilidade de enquadrá-los sob a nomenclatura cunhada por Roberto Causo (1995).

Bibliografia

    BOULD, Mark; MIEVILLE, China. Red Planets: Marxism and Science Fiction. 2009.
    CAUSO, Roberto. Ondas nas Praias de um Mundo Sombrio: New Wave e Cyberpunk no Brasil. São Paulo, 2013.
    DUNBAR, David Lincoln. Unique Motifs in Brazilian Science Fiction. Arizona: The University of Arizona, 1976.
    GINWAY, Mary Elizabeth. Metáforas Biológicas e Cibernéticas de Resistência na Ficção Científica Tupinipunk. In: Papéis […]. Campo Grande, vol. 19, n. 38, 2015.
    GINWAY, M. Elizabeth. Cyberpunk from Latin America. In […]. Nova York/Londres: Routledge, 2020. p. 294-385.
    HARAWAY, Donna J.. The cyborg manifesto. In: Manifestly Haraway. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2016.
    REGINA, Ivan Carlos. Manifesto Antropofágico da Ficção Científica Brasileira. 1988.
    ROBERTS, Adam. Science Fiction. Nova York: Routledge, 2000.
    RUCKER, Rudy. A Transrealist Manifesto. 1983.
    STAM, Robert. A literatura através do cinema, realismo, magia e arte da adaptação. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2008.