Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Neli Costa Neves (UNICAMP)

Minicurrículo

    Doutora em Multimeios- UNICAMP, mestre em Ciência da Arte -Universidade Federal Fluminense (UFF), bacharel em Comunicação Social (cinema, jornalismo) pela UFF. Curtametragista, editora cinematográfica, continuísta, com diversos trabalhos em cinema e televisão.

Ficha do Trabalho

Título

    Pentecostalismo-evangélico, ritos indígenas e organizações criminosas no cinema: Noites Alienígenas

Resumo

    O objetivo dessa comunicação é pensar sobre as representações do filme “Noites Alienígenas” (2022) de Sérgio de Carvalho, e como elas espelham uma conjuntura corrente na periferia de Rio Branco, Acre, em que se entrecruzam o pentecostalismo-evangélico, rituais indígenas e a ação de facções criminosas. O artigo se apoia em Robert Stam, Robin M. Wright e Aiala Couto.

Resumo expandido

    Essa comunicação procura pensar sobre as representações de “Noites Alienígenas” (2022), filme alicerçado em situações do Brasil atual como a expansão do pentecostalismo-evangélico, sua penetração em grupos indígenas e a ação de organizações criminosas na periferia de Rio Branco, Acre. O longa focaliza um universo onde jovens e adolescentes se encontram, experimentam relações amorosas, realizam competições em torno da poesia (slams), consomem, comercializam drogas e acabam por cometer assassinatos em obediência às determinações da facção criminosa fixada na região.
    A diegese se concentra na trajetória dos jovens Rivelino, Sandra e Paulo, todos com idade por volta dos 17 anos. Rivelino faz música, produz raps, cria pinturas em spray sobre painéis e muros, negocia drogas para o chefe Alê e se conflitua com a mãe. Sandra mora com o filho pequeno, dela e de Paulo, trabalha em um restaurante e é ativa nas competições do slam. Outro personagem da trama é o indígena Paulo, apresentado como um viciado em drogas que pressiona a progenitora por dinheiro com o argumento que está “fodido”. Em uma das cenas do filme, ele arromba a janela da casa materna, invade o lugar, rouba um rádio para, em seguida, tentar trocar o objeto por tóxicos.
    O chefe de Rivelino no tráfico de drogas é um homem de meia idade, que usa pulseiras e colares rústicos, fuma baseados de maconha, toca violão e articula frases como “aldeia sideral”, “energia que emana em tudo”.
    Marta, a mãe de Paulo, é indígena. Na sua primeira aparição fílmica, ela ouve programa religioso evangélico no rádio da casa e, ao se encontrar com o filho, recomenda a ele que frequente a igreja. Em um momento subsequente, Marta pode ser vista dentro de um templo religioso, onde ela e outros fiéis repetem frases do pastor que prega contra os “casamentos destruídos” e “filhos nas drogas”.
    Em estudo sobre o pentecostalismo-evangélico entre os povos indígenas, M. Wright e Kapfhammer dizem que “O campo protestante-pentecostal tenta se posicionar para seus seguidores pauperizados como alternativa a uma vida cheia de sofrimento e aflições” (WRIGHT, KAPFHAMMER, 2004, p. 10), oferecendo a “conversão” como “fuga de cultura” de violência das favelas. Os autores entendem que também há no “discurso indígena”, o destaque da “conversão” como caminho de “superação de sociedades […] antigas determinadas por relações violentas” (WRIGHT, KAPFHAMMER, 2004, p. 12).
    No longa-metragem, as imagens são produzidas mediante planos-sequência, câmera na mão que acompanha os personagens em suas caminhadas pelas ruelas, enquadramentos em close-ups mostrando as expressões faciais dos atores. O que se projeta na tela são cenários de espaços abertos, casebres de madeira, ruas com piso de terra, mato e pobreza, onde não é percebida a presença do Estado. Estão ali apenas jovens e alguns adultos na vivência de situações de confrontos, em um jogo de “vozes e discurso” (STAM, 2014, p.306), que desnuda suas conexões com a facção criminosa assentada no lugar, a de nome “Família”, aquela que agenda adolescentes para o comércio de entorpecentes e os pune com a morte caso eles infrinjam suas regras.
    Conforme A. Couto (2018), as organizações criminosas
    impõem limites e regras às pessoas […] a partir de seus próprios códigos [e] normas […], uma imposição em parte direcionada aos sujeitos que estão sob a zona de dominação do narcotráfico, mas que serve, também, para a população que se encontra no campo de forças das relações de poder do narcotráfico (COUTO, 2018, p.77).

    Nesse filme no qual os personagens surgem como seres precarizados, pode-se dizer, com base em Robert Stam, que não há a utilização de “imagens positivas” para estruturar a história e não são criados “heróis”, mas o que se procura é fazer existir “sujeitos” (STAM, 2014, p. 304) na luta pela sobrevivência dentro de um sistema que os exclui.

Bibliografia

    COUTO, Aiola Colares. Geografia das Redes do narcotráfico na Amazônia. Revista Geoamazônia. 2023.
    Disponível em: https://www.periodicos.ufpa.br/index.php/geoamazonia/article/view/13828
    Acesso em março de 2026.
    ______. Territórios-rede e territórios-zona do narcotráfico na metrópole de Belém. Geotextos. 2018.
    Disponível em: https://periodicos.ufba.br/index.php/geotextos/issue/view/1669
    Acesso em março de 2026.
    STAM, Robert. Introdução à teoria do Cinema. Campinas: Papirus Editora. 2014.
    WRIGHT, Robin M.; KAPFHAMMER, Wolfgang. Apresentação. In: WRIGHT, Robin M. (Org). Transformando os deuses: Igrejas evangélicas, pentecostais e neopentecostais entre os povos indígenas no Brasil.
    Campinas: Editora Unicamp. 2004.