Ficha do Proponente
Proponente
- Roberto Ribeiro Miranda Cotta (UFPel)
Minicurrículo
- Professor de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), onde ministra disciplinas nas áreas de direção, roteiro e cinema contemporâneo. Coordenador dos projetos de extensão Cine UFPel – sala universitária de cinema e Zero4 Cineclube. Curador da Mostra de Cinema Latino-americano de Rio Grande. É membro da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (Accirs) e da Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
Ficha do Trabalho
Título
- Três vezes o mesmo filme? O método de realização de Matanga (2026)
Resumo
- A proposta analisa o método de realização do curta-metragem Matanga (2026), de Rebeca Francoff, baseado na repetição como estratégia de criação. O filme foi realizado três vezes, com dispositivos de captação distintos. A repetição, nesse contexto, opera como procedimento investigativo, permitindo explorar formas, revelar variações e aprofundar escolhas estéticas e narrativas, evidenciando o processo como parte constitutiva da obra.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga o processo de criação do curta-metragem Matanga (2026), dirigido por Rebeca Francoff, a partir de um método fundamentado na repetição e na reconfiguração contínua dos materiais filmados. Na cultura bantu-congolesa, matanga designa uma cerimônia fúnebre sem a presença do corpo. Ambientado no Loteamento Dunas, em Pelotas (RS), o filme acompanha o luto de uma mãe, revelando marcas de uma violência que atravessa gerações e evoca a conexão entre mortos e vivos. O curta estreou na 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes (Seção Foco).
O ponto de partida desta comunicação é a experiência prática do pesquisador, que atuou como diretor assistente, produtor, montador, colorista e desenhista de som, configurando uma observação participante. Nesse contexto, a repetição emerge como motor criativo, orientando decisões formais e possibilitando variações significativas a cada realização. Assim, a repetição se estabelece como procedimento que evidencia a diferença e produz novos sentidos, em diálogo com Deleuze (2018), ao mesmo tempo em que permite ao realizador descobrir a imagem por meio da experimentação contínua, conforme Bergala (2008).
Viabilizado pelo Edital 003-2023 da Lei Paulo Gustavo da Secretaria Municipal de Cultura de Pelotas (RS), o filme estruturou um processo que desloca fronteiras entre filmagens oficiais e testes narrativos e estéticos. Realizado integralmente na Coopel – Cooperativa Pelotense de Prestação de Serviços e Ação Social, dedicada ao processo de reciclagem, o filme incorpora a dinâmica cotidiana do espaço à narrativa. O elenco, majoritariamente composto por mulheres e por trabalhadoras da própria cooperativa, aproxima representação e experiência vivida.
Do ponto de vista metodológico, o filme foi realizado três vezes. Nas duas primeiras, concebidas como testes, a equipe esteve reduzida e os equipamentos eram limitados, embora já contassem com a presença dos atores, permitindo experimentar formas de encenação e registro em condições mínimas. Esse processo reiterativo contribuiu para a consolidação de um caráter híbrido, que articula elementos documentais, ficcionais e experimentais.
A primeira filmagem (abril de 2025) utilizou câmeras de celular; a segunda (maio de 2025), uma DSLR Canon 60D; e a terceira (maio de 2025), uma Blackmagic Ursa Mini 12K. Cada etapa foi montada e analisada, orientando reescritas do roteiro e reconfigurações formais. Na montagem final, optou-se por integrar materiais de diferentes etapas, instaurando uma lógica não hierárquica entre registros. A montagem, a finalização sonora e a colorização operaram como instâncias de unificação estética.
Como hipótese, propõe-se que a repetição da realização, aliada à montagem como prática reflexiva, não apenas aprimora o filme, mas constitui sua própria forma, aproximando o fazer cinematográfico de um gesto teórico. Tal perspectiva dialoga com proposições da própria diretora, Rebeca Francoff, em entrevista concedida ao site Culture Injection (2026) e com a teoria dos cineastas (Graça; Baggio; Penafria, 2015), encarando o filme como espaço de desenvolvimento conceitual em seu método de criação. Também se aproxima das reflexões de Almeida Salles (2021), ao compreender o processo criativo como uma rede em constante transformação. Por fim, comunica-se com a ideia de cinema como escrita singular, à maneira da caméra-stylo (Astruc, 2012), mediante a qual a técnica pode ser esboçada, rasurada e reescrita enquanto se filma.
Como objetivo, busca-se compreender de que modo a incorporação de materiais oriundos de testes de câmera, som, arte e atuação redefine hierarquias entre preparação e execução, contribuindo para uma concepção expandida de realização cinematográfica. O estudo, assim, evidencia um método em que o fazer reiterado não apenas antecede o filme, mas constitui sua própria forma, tensionando noções de obra, autoria e processo no cinema contemporâneo.
Bibliografia
- ASTRUC, Alexandre. Nascimento de uma nova vanguarda: a caméra-stylo. Revista Foco, 2012. Disponível em: https://www.focorevistadecinema.com.br/FOCO4/stylo.htm. Acesso em: 06 abr. 2026.
BERGALA, Alain. A hipótese-cinema. Rio de Janeiro: Booklink; UFRJ, 2008.
CULTURE INJECTION. Entrevista com Rebeca Francoff, sobre o curta-metragem “Matanga”. 28 mar. 2026. Disponível em: https://cultureinjection.wordpress.com/2026/03/28/entrevista-com-rebeca-francoff/. Acesso em: 6 abr. 2026.
DELEUZE, Gilles. Diferença e repetição. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018.
GRAÇA, André Rui; BAGGIO, Eduardo; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. Revista Científica/FAP, Curitiba, v.12, p.19-32, jan./jun. 2015. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/revistacientifica/article/view/1408/762. Acesso em: 06 abr. 2026.
SALLES, Cecília Almeida. Redes da criação: aproximações teóricas. Scriptorium, Porto Alegre, v.7, n.2, p.1–15, 2021.