Ficha do Proponente
Proponente
- Cyro Augusto Gomes de Almeida (UFMG)
Minicurrículo
- Artista, produtor cultural e doutorando em comunicação social pela UFMG. Contemplado com o XV Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia (2015) e o Premio Nuestra Mirada, promovido pelo Pictures of the Year Latin America (POY Latam, 2023). Atua na produção de exposições e edição de livros para artistas e instituições. Professor do curso de pós-graduação lato sensu Escrita Criativa, na PUC Minas, dedicando-se ao ensino de projetos autorais, produção editorial e implementação de ideias.
Ficha do Trabalho
Título
- Evocações de Exu: oralidade e materialidade fílmica em documentários brasileiros
Resumo
- A pesquisa parte da premissa de que a oralidade afrodiaspórica sobre Exu presente no Brasil sobrevive não só em práticas religiosas, mas recai, de forma não consciente, na produção da imagem. A fim de investigar o reconhecimento de fórmulas do pathos exusíacas que operem na materialidade fílmica, foram analisados três documentários brasileiros que abordam esta divindade. A conclusão é de que as narrativas e atributos de Exu incidem nestas obras em paralelo às decisões próprias dos realizadores.
Resumo expandido
- A pesquisa parte da premissa de que a oralidade afrodiaspórica sobre Exu presente no Brasil, sobrevive não só em práticas religiosas, mas recai, de forma não consciente, na produção da imagem. Algumas questões preliminares são: Como o imaginário de Exu se manifesta nas imagens fílmicas em território nacional? Como a presença de Exu sobrevém ao ato criativo e de que maneira aparece na materialidade fílmica?
Para isso, analisei três documentários brasileiros que abordam esta divindade e os aspectos de seu culto e imaginário. São eles: Exu, a boca que come tudo (2003, direção Liana Cunha e Samanta Pamponet, 5 min.); A boca do mundo – Exu no Candomblé (2009, Eliane Coster, 25 min.); Exu não é o diabo (2023, direção Renan Matos, 23 min.).
Adotei a hipótese de trabalho que os aspectos fílmicos nessas obras – cenografia e objetos, iluminação, enquadramento e montagem – são afetados por um imaginário latente que subjaz aos seus conteúdos declarados e aos interesses comunicacionais e poéticos dos realizadores.
Alinhavo a hipótese de trabalho à sugestão de que um conjunto de pathos exusíacos encontra-se na cosmovisão dos terreiros das religiões de matriz africana no Brasil pelo ponto de vista das variações de Exu. Chamo de variações as incontáveis formas e nomes pelas quais Exu é designado em solo africano e brasileiro, enfatizando determinados traços distintivos de sua divindade. Tais variações de Exu revelam certos pathos, ou cargas afetivas fundamentais propulsoras da direção humana. Como hipótese de pesquisa, propus que as variações de Exu se convertem em determinadas formas corporais, as fórmulas do pathos, e que estas formas se manifestam inconscientemente na filmografia em questão.
Admitindo, de forma heurística, as hipóteses apresentadas, o problema de pesquisa se colocou com a seguinte indagação: Para além das decisões fílmicas expressas pelos realizadores, é possível reconhecer fórmulas do pathos exusíacas que operem na constituição destas obras?
A adoção das hipóteses e a formulação do problema de pesquisa, da maneira como expostos, são informados pelas ideias de Aby Warburg (1866-1929), via os estudos contemporâneos de Georges Didi-Huberman (2013, 2018). Aspirando desenvolver uma história da arte não apenas descritiva, mas também antropológica e metapsicológica, Warburg forjou, em sua empreitada intelectual, dois conceitos fundamentais: fórmulas do pathos e sobrevivência.
A operação metodológica central da pesquisa se fundamentou na construção de um Atlas formado por frames selecionados dos filmes, amparado pela hipótese da sobrevivência de traços latentes de Exu no imaginário brasileiro. Investiguei, por meio do conhecimento gerado pela montagem do Atlas, de que modo essa carga afetiva retorna, de modo inconsciente, na produção fílmica, e como se converte em formas corporais do tempo sobrevivente ou fórmulas do pathos.
A construção de um Atlas foi amparada por um corpus empírico de apoio formado por fotografias do livro Laróyè, publicado em 2000, por Mário Cravo Neto. Este livro-manifestação de Exu, tematizando a cidade de Salvador-BA, não contém nenhuma fotografia que tenha sido planejada, de forma consciente, para evocar a divindade. Por outro lado, no processo de edição, Cravo Neto recuperou fotografias do seu arquivo reconhecendo atributos, elementos, funções e domínios de Exu, que atravessaram, de modo inconsciente, a produção de suas imagens.
A análise fílmica seguida da montagem do Atlas revelou os seguintes tropos exuzíacos presentes nas constituições fílmicas: Abertura de caminho, encruzilhada, voragem, dualidade, governança do lado de fora, mercados e trocas. A conclusão é de que estes demarcadores de Exu se organizam em fórmulas do pathos, desvelando como as narrativas sobre Exu podem incidir na materialidade fílmica de forma intrusiva, pelos meandros, inconscientemente, a despeito do tema, local, discurso aparente ou intenções.
Bibliografia
- Referências bibliográficas:
CRAVO NETO, Mario. Laróyè. Salvador: Áries Editora, 2000.
DIDI-HUBERMAN, Georges. A imagem sobrevivente: história da arte e tempo dos fantasmas segundo Aby Warburg. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Atlas ou o Gaio Saber Inquieto: o Olho da História III. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
Filmografia:
A BOCA do mundo: Exu no Candomblé. Direção: Eliane Coster. São Paulo: Olhar Digital, 2009. 1 vídeo (25 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=tcO7fN_19kY. Acesso em: 27 ago. 2025.
EXU, a boca que come tudo. Direção: Liana Cunha e Samanta Pamponet. Salvador: UFBA, 2003. 1 vídeo (5 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=PcKhHUvQ8y4. Acesso em: 13 nov. 2025.
EXU não é o diabo. Direção: Renan Matos. Bragança: Sapucaia Filmes, 2023. 1 vídeo (23 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2-uJ7aNy7w8. Acesso em: 4 set. 2025.