Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Alex Santana França (UESC)

Minicurrículo

    Graduado em Letras Vernáculas (UFBA), Mestre e Doutor em Letras pelo Programa de Pós-graduação em Literatura e Cultura da Universidade Federal da Bahia, professor do Departamento de Letras e Artes da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), pesquisador, escritor, cineclubista, curador e crítico de cinema. É um dos organizadores do livro Cinema negro baiano (2021), publicado pela editora Emoriô.

Ficha do Trabalho

Título

    Entre testemunhos e arquivos: a violência colonial sob a ótica do cinema moçambicano contemporâneo

Resumo

    O presente trabalho pretende analisar os impactos da violência colonial europeia e a importância da memória coletiva, a partir do filme Uma memória em três atos (2016), do cineasta moçambicano Inaldeso Cossa. A metodologia adotada engloba a pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico e análise fílmica. Acredita-se que o filme não apenas denuncia a violência colonial, mas também se apresenta como gesto de resistência, na medida em que reinsere no espaço público memórias marginalizadas.

Resumo expandido

    O processo da colonização portuguesa em Moçambique deixou grandes feridas na memória coletiva do país. Ainda hoje o cinema moçambicano contemporâneo tem mantido um bom nível de produtividade de documentários que abordam questões importantes para o entendimento da experiência pós-colonial e pós-guerras no país, a exemplo de Lara Sousa, Yara Costa, Wilford Machili e Inadelso Cossa. O presente trabalho pretende discutir a relação entre cinema, história e memória, a partir da análise do filme Uma memória em três atos (2016, 64’), do cineasta Inaldeso Cossa, buscando, em especial, discutir os impactos da violência colonial e endossar a importância da memória coletiva através do cinema. O documentário, de fato, se insere no campo das produções audiovisuais moçambicanas que problematizam o legado colonial e suas repercussões na subjetividade. Além disso, ao propor narrar a história de uma época que não viveu, o jovem diretor moçambicano também evoca um dever de memória coletiva. A obra constrói uma narrativa que, ao mesmo tempo em que resgata episódios silenciados da história, denuncia a complexidade de lidar com as marcas deixadas pela colonização portuguesa em Moçambique. Na trama, antigos prisioneiros políticos regressam ao local onde foram torturados durante o período de luta pela independência, para confrontar o fantasma colonial e enfrentar os traumas pós-tortura. A metodologia adotada engloba a pesquisa qualitativa de cunho bibliográfico e análise fílmica. Para estabelecer uma análise crítica dessa obra serão utilizados como referencial teórico autores, a exemplo de Frantz Fanon (1968) e Grada Kilomba (2019). A crítica ao colonialismo europeu é um dos pontos centrais do pensamento do intelectual martinicano, analisando principalmente a desumanização dos sujeitos colonizados e o papel da violência, tanto física como psíquica, na manutenção do sistema colonial. Grada Kilomba, por sua vez, expande a crítica ao colonialismo europeu, dando ênfase à psicologia do racismo cotidiano e à descolonização do conhecimento. Os métodos de análise fílmica adotados serão o “sócio-histórico” (Penafria, 2015), cuja diretriz é a de que um filme sempre fala do presente, ou sempre diz algo do presente, do aqui e do agora de seu contexto de produção, e “imagem e som” (Penafria, 2015), que entende o filme como um meio de expressão. A narrativa é construída a partir de depoimentos dos três personagens principais do documentário, que narram suas experiências vividas durante o período colonial, aqueles que sofreram a repressão e a crueldade no período da colonização portuguesa de Moçambique, assim como se utiliza de material de arquivo. Ao trazer diferentes camadas de lembranças — individuais, familiares e nacionais —, Cossa evidencia a crise da memória coletiva em Moçambique. O país, após a independência, viveu processos de reconstrução identitária que muitas vezes optaram pelo apagamento de certas memórias incômodas. Essa crise se revela na tensão entre lembrar e esquecer: lembrar significa encarar as marcas coloniais; esquecer, por sua vez, significa correr o risco de repetir os silêncios impostos pela colonização. O filme mostra que o ato de lembrar é sempre atravessado por rupturas, contradições e lacunas, constituindo-se como um espaço de disputa simbólica. Assim, o documentário não apenas denuncia a violência colonial, mas também se apresenta como gesto de resistência, na medida em que reinsere no espaço público memórias marginalizadas.

Bibliografia

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    THIONG’O, Ngugi Wa. A descolonização da mente é um pré-requisito para a prática criativa do cinema africano? In: MELEIRO, Alessandra (org.). Cinema no mundo: indústria, política e mercado: África. São Paulo: Escrituras, 2007. p.