Ficha do Proponente
Proponente
- Irene de Araújo Machado (USP)
Minicurrículo
- Professora Titular do Departamento de Comunicações e Artes (ECA-USP). Atua nos PPGs USP: Meios e Processos Audiovisuais e Estética e História da Arte. Desenvolve pesquisas, publica artigos e orienta trabalhos no campo da Semiótica da Cultura Audiovisual e das Experiências Estéticas das Culturas Negras. Seu projeto atual como Bolsista Produtividade em Pesquisa (CNPq-PQ-1A) é dedicado ao exame das Astúcias semióticas das experiências estésicas nos cinemas negros.
Ficha do Trabalho
Título
- Contra-história e contra-memória nos palimpsestos das existências negras hifenadas
Seminário
- Teoria de Cineastas: dos processos de criação à dimensão política do cinema
Resumo
- Ao problematizar a relação entre cinema-história-memória o estudo discorre sobre as perturbações introduzidas pelos filmes pretos no cinema. Parte da hipótese de que tal relação fomenta a emergência de processos de contra-história e contra-memória cujo objetivo é investigar o papel das existências negras hifenadas como novo modo de ser no mundo. Enuncia-se, assim, um regime discursivo no qual a diáspora negra toma as ruínas tanto como traço quanto como configuração de uma civilização hemisférica
Resumo expandido
- Como uma série de filmes-ensaio, as História(s) do cinema são ambiciosas, fantásticas e muito potentes, mas, mesmo assim, é possível assistir a elas sem se dar conta de que pessoas negras fizeram parte do cinema. São estas profundas elipses, omissões e supressões que agora a meu ver fazem parte de um tipo de acervo analógico no qual as histórias são privilegiadas baseando-se no que está disponível. (John Akomfrah)
Ao problematizar a tríade cinema-história-memória o presente ensaio desvia-se do eixo interpretativo segundo o qual filmes são documentos e, enquanto tais, constroem a memória dos tempos revelando identidades de povos e de pessoas. O desvio ficaria justificado apenas pela premissa de que, ao serem ignoradas pela história oficial, as gentes pretas escravizadas pelo projeto colonizador eurocêntrico não têm história. Contudo, há que se dimensionar o fundamento de tal desvio sustentado pela ideia de que a inserção da memória na relação entre cinema e história coloca em questão o discurso oficial sobre a marginalidade das pessoas pretas como patológica e socialmente criminosas. Por um lado, Fred Moten discute tal criminalização como uma demanda de um princípio jurisgenerativo de mudança das regras, das leis, em nome de reposicionamento dos direitos civis – sonho utópico do movimento negro estadunidense. Por outro, John Akomfrah se volta para examinar a natureza, as implicações e a legitimidade da presença das subjetividades negras na história, para, assim, questionar percepções que atravessam diferentes discursos de governamentalidade para alcançar o novo. O cinema de Arthur Jafa e os escritos de bell hooks discutem contribuem e ampliam tal debate.
Considerando que tanto Moten, Jafa e hooks quanto de Akomfrah tomam a presença das gentes pretas como fonte de questionamento, o presente estudo problematiza a relação tripartite entre cinema-história-memória como possibilidade de discorrer sobre as perturbações introduzidas pelos filmes pretos no universo do cinema. Em sua hipótese de fundo, entende a formação de uma outra frente tripartite: a contra-análise da sociedade direcionada para a construção da contra-história, segundo Marc Ferro, ancorada pela contra-memória, observada por Michel Foucault. Procura-se entender qual é o papel das existências negras hifenadas na construção de um novo modo de ser, estar, agir e sentir o mundo. Pressupõe-se, assim, a constituição de um regime discursivo em que a diáspora negra emerge tanto da ruína como traço civilizacional, segundo Akomfrah, quanto da formação de uma civilização hemisférica, segundo Beatriz Nascimento.
Do ponto de vista analítico, o estudo se orienta pelas formulações de Akomfrah, particularmente na centralidade da construção da imagem audiovisual que tanto recorre aos arquivos quando ao processamento digital como forma de reposicionar as existências diaspóricas e suas identidades fragmentadas. Para isso, concentra-se na análise do filme The Last Angel of History [O último anjo da história] (1995). Trata-se de situar uma resposta crítica às imagens audiovisuais que subtraíram as pessoas negras de sua tela. Condena-se, assim, a escandalosa tirania da padronização sensométrica da luz balanceada para retratar a pele branca, ignorando as tonalidades da pele preta. Aquilo que poderia ser apenas discussão de recursos técnicos acaba revelando o quanto a opção pelo apagamento contribuiu para a exclusão da subjetividade negra, sua sensorialidade e afetividade. Akomfrah converte tal ausência em elemento estruturante, compondo os palimpsestos da racialidade a evocar as presenças espectrais. Tal como o anjo da história de Benjamin que olha o passado e só vê ruínas, o filme recompõe uma possível arqueologia do futuro na qual os fragmentos de memória emergentes surge das ruínas e apagamentos. Não seria esse o fim de um mundo cujos escombros evidenciam a corrosão do projeto geopolítico que se alimentou do sangue das gentes pretas?
Bibliografia
- BENJAMIN, W. Sobre o conceito de história. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985.
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