Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Luiz Fernando Wlian (UNESP)

Minicurrículo

    Professor e pesquisador. Doutor em Comunicação pela UNESP, com a pesquisa “Alegres, para além de tudo: estratégias sensíveis dissidentes no cinema e audiovisual queer brasileiro contemporâneo”. Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Investiga Cinema, Audiovisual e Comunicação, com particular interesse em pesquisas sobre cinema, comunicação e teorias queer; poéticas e estéticas queer no audiovisual; cinema de gênero; gênero musical em cinema; corpo, afeto e sensorialidade em cinema.

Ficha do Trabalho

Título

    Desdobrando a joi erótica, ou à propósito de alegrias eróticas dissidentes

Seminário

    Tenda Cuir

Resumo

    Este trabalho propõe uma aproximação entre alegria e erotismo, partindo de imagens do cinema queer. Valendo-se de cotejo entre os conceitos, operado pela noção de joi erótica (Potkay, 2010) e amparado por estudos queer (Ahmed, 2006), observa os filmes Latifúndio; Canção de Amor; Sebastiane e O Menino e o Vento. Por meio do tensionamento entre suas imagens, com ênfase nos corpos em cena, pensa-se como os regimes sensíveis mobilizados pelo erotismo podem ser lidos pela chave de uma alegria queer.

Resumo expandido

    “Não nascemos homens ou mulheres. Nem mesmo nascemos meninos ou meninas. Ao nascer, somos um entrelaçado de líquidos, sólidos e géis, cobertos por um órgão estranho, cuja extensão e peso supera qualquer outro – a pele”. Esses dizeres, que dão início ao curta Latifúndio, de Éri Sarmet, operam como pista poética do objeto desta proposta – o corpo, seus afetos e potências incontidas. Em especial, o corpo que transa, que anima sua pele e carne em atos sexuais. Como nos informam estudos queer, o corpo é fulcro da produção de modos de ser no mundo; é sobre ele que se inscrevem discursos hegemônicos e formas “corretas” de se orientar, como nos diz Sara Ahmed (2006); é também o corpo, no entanto, que pode criar coisas novas, constrangedoras à economia hegemônica, tal qual os corpos que se deleitam em suas brincadeiras sexuais em Latifúndio. São corpos que chamam a atenção por um afeto específico: sua alegria, uma alegria que é, necessariamente, mobilizada por seu erotismo e encontro sexual em cena.
    Em estudo anterior (Wlian, 2025), debruço-me sobre o afeto da alegria para buscar o que de queer poderia nele haver. Nesse ínterim, cunho “alegria queer” como aumento das capacidades do corpo quando de seu encontro com “objetos errados” (Ahmed, 2006), ou seja, aumento das potências do corpo ligado à (des)orientação queer, a modos de ser e trajetórias necessariamente dissidentes. Nesse sentido, levanto questões: o que, no erotismo e no ato sexual, pode ser lido em termos de alegria queer? Quais as possíveis aproximações entre erotismo e alegria? Quais as potencialidades dessas fricções para pensar imagens do cinema queer?
    A partir dessas questões, mobilizo a noção de joi erótica (Potkay, 2010) como operador para aproximar alegria e erotismo, em recorte teórico transversal (Bataille, 1987; Nietzsche, 1992; Rosset, 2000 etc.). Assim, busco um alinhavar de imagens dos filmes Latifúndio (Éri Sarmet, 2017), Canção de Amor (Jean Genet, 1950), Sebastiane (Derek Jarman; Paul Humfress, 1976) e O Menino e o Vento (Carlos Hugo Christensen, 1967). Filmes de contextos e poéticas distintos, mas que em seu toque, seu contato mútuo, podem dar a sentir uma alegria erótica dissidente. A análise se orienta pela dimensão afetiva das imagens, observando como corpos, gestos e encontros articulam regimes sensíveis de erotismo e alegria. O ponto de interesse é a mobilização afetiva que os corpos, eroticamente animados, nos revelam nas imagens, e como essa mobilização pode ser lida pela chave de uma alegria queer.
    Adam Potkay (2010) argumenta que a alegria é, ao mesmo tempo, uma “pulsão pré-parto” e uma “pulsão de morte”, uma orientação do corpo a um “passado pré-linguístico” anterior à consciência, bem como uma orientação ao fim dessa consciência, e do próprio corpo individual. Eis aí seu paradoxo: o ser apenas corpo e se dispersar em outras intensidades. Essa noção encontra forte ressonância com o erotismo, especialmente por Georges Bataille (1987), que nos diz que o fenômeno erótico é movido pelo desejo de “retornar à continuidade perdida”, a um estado não-individual do corpo. Assim, se tanto alegria quanto erotismo são regidos por um impulso intenso rumo à dissolução de um “eu” organizado – cerceado pela linguagem e seus ditames hegemônicos – e à “rasgação” dos limites da pele em prol de uma existência diversa, alegria e erotismo não só evidenciam qualidades dissidentes instigantes, como também podem se tornar um só numa espécie de “vingança queer”, que perversamente converte “morte” em intensificação da vida: uma vida em outros termos, no entanto. Nesse sentido, tenho por hipótese que as imagens e os filmes nos ajudam a aproximar e, por vezes, igualar as categorias alegria e erotismo, e isso é sublinhado por sua especificidade dissidente. Se a existência queer é regida pela pulsão de morte (Edelman, 2004), proponho que seja justamente no aproveitamento jubiloso e transante dessa “morte” que pessoas dissidentes intensificam sua própria vida e existência.

Bibliografia

    AHMED, Sara. Queer phenomenology: orientations, objects, others. Durham: Duke University Press, 2006.

    BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Antonio Carlos Viana. Porto Alegre: L&PM, 1987.

    EDELMAN, Lee. No future: queer theory and the death drive. Dunham and London: Duke University Press, 2004.

    NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. O nascimento da tragédia, ou helenismo e pessimismo. Tradução, notas e posfácio J. Guinsburg. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

    POTKAY, Adam. A história da alegria: da Bíblia ao Romantismo tardio. Tradução de Eduardo Henrik Aubert. São Paulo: Globo, 2010.

    ROSSET, Clément. Alegria: a força maior. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2000.

    WLIAN, Luiz F. Alegria queer: uma chave de leitura estética. In: 34º Encontro Anual da Compós, Universidade Federal do Paraná (UFPR). Curitiba. Anais eletrônicos…: Galoá, 2025.