Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    BEATRIZ MOREIRA DA GAMA MALCHER (PPGCOM/PUC-Rio)

Minicurrículo

    Pós-doutoranda (INCT/CNPq) do Programa de Pós-Gradauação em Comunicação da PUC-Rio e professora substituta na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. É doutora em Teoria Literária (2020) pela mesma instituição e mestre em Comunicação e Cultura pelo PPGCOM da UFRJ (2016). Integra o GT Literatura e Sociedade da ANPOLL, o Laboratório de práticas do arquivo e contra-arquivo (PUC-Rio / Faperj) e a rede colaborativa de pesquisa INCT Preservação e Restauração Audiovisual (CNPq).

Ficha do Trabalho

Título

    Telescopias da ditadura: um contra-arquivo digital de mulheres cineastas

Resumo

    Este trabalho busca apresentar a criação de uma plataforma digital sobre mulheres cineastas durante a ditadura civil-militar brasileira. O objetivo é mapear, analisar e recuperar uma produção marcada por lacunas e apagamentos históricos. A partir de uma abordagem biográfica das imagens, a plataforma é concebida como uma maneira de reinscrever obras marginalizadas nos circuitos de visibilidade, contribuindo para as contra-narrativas da ditadura, especialmente em um contexto de disputa.

Resumo expandido

    Este trabalho procura apresentar o projeto (em andamento) da construção de uma plataforma virtual de mulheres cineastas da ditadura civil-militar, parte de uma pesquisa levada adiante na rede INCT PreRes – Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Preservação e Restauração do Audiovisual –, junto ao Laboratório Práticas do Contra-Arquivo, do PPGCOM da PUC-Rio. Neste âmbito, buscamos uma investigação ampla que permite mapear, analisar, recuperar e refletir histórica e esteticamente sobre o cinema realizado por mulheres brasileiras durante a ditadura civil-militar (1964-1985).
    A aposta de nosso grupo é a de que, ao retomar e repensar a produção de mulheres cineastas desta época, podemos traçar uma espécie de contra-história; de questionamento ativo de narrativas hegemônicas nos mais distintos graus. Afinal, lançamos um olhar privilegiado para uma produção que nos traz “o desafio da falta de informações e de vestígios” (MACHADO, LAMHA & NEPOMUNCENO, p.35, 2024), haja vista que o apagamento, material e simbólico, da participação de mulheres na criação artística e cinematográfica do período é fato incontestável e notório (HOLANDA & TEDESCO, 2017; GUERRA, 2023). Concomitantemente, abordar estes filmes nos permite, igualmente, questionar processos históricos, acabados e em curso, a partir de olhares múltiplos, olhares estes distantes das narrativas históricas oficiais.
    Para tratar esta espécie de história paralela, procuramos pensar os filmes em várias frentes por meio de um método biográfico, como desenvolvido por Thais Blank e Patrícia Machado (2020) a partir de uma leitura crítica de Sylvie Lindeperg (2013). A ideia, aqui, é interrogar as imagens, lançando luz tanto sobre o que e como algo é filmado, mas também sobre quem filma, quem vê, quem assiste, e sobre a trajetória do filme desde sua concepção até a sua recepção contemporânea, haja vista inclusive os seus suportes – o que, no caso de muitos filmes por nós trabalhados, também diz respeito à história de seu desaparecimento.
    Neste âmbito, a plataforma que estamos desenvolvendo é concebida não apenas como repositório de pesquisa, destinado à sistematização e disponibilização de dados sobre as obras audiovisuais, mas principalmente como um espaço que visa colaborar para este processo de releitura histórica. Abrangendo aspectos múltiplos de cada filme – desde a criação, os agentes envolvidos, a recepção crítica na imprensa, os materiais gráficos, os registros de depoimentos das cineastas (em certos casos, coletados pelo próprio Laboratório), chegando até aos documentos da censura do Serviço Nacional de Informação –, buscamos promover a reinscrição de filmes marginalizados, esquecidos e, muitas vezes, desaparecidos, nos circuitos de visibilidade. A partir disso, seria possível evidenciar experiências e narrativas de mulheres no contexto da ditadura militar, contribuindo tanto para um movimento mais amplo de reconfiguração dos regimes de memória do audiovisual latinoamericano, quanto também para a disputa da narrativa histórica sobre o regime em um contexto como o atual, onde as conquistas progressistas pós-1985, ainda que escassas, parecem estar em constante risco de desvanecimento diante de narrativas que buscam eclipsar vozes dissidentes.
    A proposta é então pensar nesta rede de filmes, criada a partir de um método biográfico, como uma espécie de contra-arquivo do passado que lança um olhar atento para o presente, funcionando, talvez, para usarmos termos caros à tradição benjaminiana (BENJAMIN; 2005; 2012; 2018), como um dispositivo de telescopagem do passado a partir do presente; de rememoração capaz de acionar os avisos de incêndio em um tempo de perigo, como o nosso. E, quem sabe, abrir outros futuros.

Bibliografia

    BENJAMIN, W. “Sobre o conceito de história”. In.: LÖWY, M. Walter Benjamin: aviso de incêndio. São Paulo: Boitempo, 2005.
    ______. O Anjo da história. João Barrento (Org.). Belo Horizonte: Autêntica, 2012.
    ______. Passagens. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2018.
    BLANK, T.; MACHADO, P. “Em busca de um método: entre a estética e a história de imagens domésticas do período da ditadura militar brasileira”. Intercom: Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. 43, n. 2, 2020.
    GUERRA, N. Entre apagamentos e resistências: curtas-metragens feitos por diretoras brasileiras (1966-1985). São Paulo: Alameda, 2023.
    HOLANDA, K. & TEDESCO, M.(Org). Feminismo e plural:Mulheres no cinema brasileiro. Campinas, SP: Papirus, 2017.
    LAMHA, C.; MACHADO, P.; NEPOMUCENO, M.“As mulheres da Corcina: a trajetória de filmes esquecidos produzidos na ditadura militar.”Revista Interações Sociais – REIS. v. 8, n. 2. jul.-dez., 2024.
    LINDEPERG, S. Nuit et Brouillard: un film dan l´histoire. Odile Jacob,2007.