Ficha do Proponente
Proponente
- marina feldhues ramos (UFPE)
Minicurrículo
- Marina Feldhues (1982), natural de Olinda-PE, é educadora, artista visual e crítica de arte e pós-doutoranda em Comunicação pela UFPE. Organizadora do grupo de estudos @encruzilhadasvisuais e autora dos livros “Arquivo, fotografia e a carne negra: um estudo ante-Estética de suas poéticas implicadas” (2025), “Fotolivros: (in)definições, histórias, experiências e processos de produção” (2021); “E Se?” (2023); “Catálogo” (2019) e “Viagem ao Brasil 1865-1866: a desordem da carne” (2025).
Ficha do Trabalho
Título
- Da formação à produção audiovisual: abordagens afrodiaspóricas como heranças ancestrais
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- A partir de caminhos epistemológicos afrodiaspóricos, proponho: (1) uma possibilidade metodológica para conhecer a composição do fazer fílmico e fotográfico. (2) um estudo sobre a aplicação desse método a três iniciativas educacionais “informais” do audiovisual negro e/ou periférico pernambucano: o coletivo Nós Cria, o coletivo CoqueVídeo e a coletiva Revelar.si. Desloco-me, pois, do fazer fílmico para o fazer dos produtores, isto é, para a formação desses últimos.
Resumo expandido
- Entre os muitos caminhos possíveis nas encruzilhadas epistemológicas que Exu mostra, olho no espelho de Oxum e escolho andar por um que me permite conhecer para além/aquém dos desígnios da educação formal, hierárquica e pretensamente universal do capitalismo racial. São os ensinamentos e valores dos orixás – preservados pelas comunidades de terreiro e difundidos por meio de por meio de itans em cantos, gestos, danças, fazeres e escritos – que orientam as reflexões propostas.
Minha atenção se apoia na força vital (axé) da ancestralidade e em sua exemplaridade para uma vida mais florestada. […] “ancestralidade é uma noção atrelada à ética do benefício coletivo – em harmonia com a vida de tudo o que existe, sem primazias entre as(os) viventes – proporcionado por aquela(e) que se foi” (FELDHUES, 2025, p. 278) e, complemento, está presente. Me interesso, portanto, por iniciativas educacionais que me parecem heranças ancestrais.
Considero que filmes e fotos são oferendas deixada na encruzilhada a Exu, “o orixá mensageiro, senhor do movimento, da transformação e da comunicação” (PRANDI, 2025, pág. 16). O que se oferta trás benefícios à vida coletiva? Para qual coletividade? Em detrimento de alguma outra? Ao observar essas ofertas visuais, procuro notar o que propõem de troca para com os demais viventes.
Com Nêgo Bispo (2018) aprendi que as imagens podem funcionar como armas e como remédios, no ataque e na defesa. Isto é, podem contribuir para a desertificação da vida, a redução dos imaginários e a perda da potência da imaginação. Ou, pelo contrário, podem ajudar a florestar a vida como produção de diferença e equilíbrio entre tudo o que existe, ampliando os imaginários, vitalizando nossa capacidade de imaginar e materializar outros mundos (im)possíveis.
A partir do conceito e método da “escrevivência” proposto por Conceição Evaristo (2020), cheguei aos quatro questionamentos que passei a fazer a toda oferta imagética com que me deparo nas encruzilhadas visuais. Esses questionamentos têm me auxiliado a refletir sobre o que entra na composição do fazer das produções fílmicas e fotográficas, sempre em atenção ao que as imagens ofertam de troca a quem com elas se encontra. São eles: O que filmar/fotografar? Como? Para que? E para quem?
Ao abordar sua própria escrevivência, Evaristo faz essas perguntas a respeito de seu trabalho: “O que escrever, como escrever, para que e para quem escrever?” (EVARISTO, 2020, pág. 35). A escritora pergunta a si mesma “o que deve entrar na composição de meu texto?” A resposta inscreve o fazer de Evaristo no mundo material da vida, em relação a si e aos outros viventes e não viventes. Afinal, é nesse mundo encarnado, que as imagens, sejam sonoras, textuais ou visuais, produzem seus efeitos.
Fazer essas perguntas me levam a querer conhecer o processo de feitura das imagens moventes e/ou estáticas, as relações entre os envolvidos, os interesses, negociações e intenções, nem sempre explícitas. Bem como saber mais e mais dos efeitos dessas imagens quando em circulação, isto é, de sua performance social, como representação simbólica e presença generativa (MARTINS, 2021). São questionamentos que possibilitam notar as relações implicadas entre ética, estética e política que entram na composição do fazer fílmico e fotográfico e que podem se manifestar na performance de suas imagens.
Nesse artigo, faço essas perguntas às práticas pedagógicas de iniciativas educacionais, ditas “informais”, do audiovisual negro e/ou periférico pernambucano, em busca do que de herança ancestral epistemológica, em prol do reflorestamento da vida, encontro nessas inciativas. Passo, portanto, a observar as atuações educativas – e seus produtos fílmicos e fotográficos – do coletivo Nós Cria, do coletivo CoqueVídeo e da coletiva Revelar.si., buscando conhecer o que ensinam, como ensinam, para que e para quem.
Bibliografia
- ANJOS, Ana Raylander Martins dos; MARROM, Fiapo; SANTOS, Renata Aparecida Felinto dos. Tratado sobre educação e curadoria em três atos. In: LIMA, Diane (org.). Negros na piscina: arte contemporânea, curadoria e educação. São Paulo: Fósforo, 2023.
EVARISTO, Conceição. A escrevivência e seus subtextos. In: DUARTE, Constância Lima; NUNES, Isabella Rosado (Org.). Escrevivência, a escrita de nós: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo. Rio de Janeiro: Mina Comunicação e Arte, 2020 p. 26-46.
FELDHUES, M. Arquivo, fotografia e a carne negra: um estudo ante-estética de suas (po)éticas implicadas. Curitiba: Appris, 2025.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
PRANDI, R. Orixás: os deuses que habitam em nós. São Paulo: Companhia das Letras, 2025.
SANTOS, Antônio Bispo. Somos da terra. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, n. 12, p. 44-51, 2018.
SHARPE, Christina. No Vestígio: Negridade e existência. São Paulo: UBU Editora, 2023.