Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Carolayne Piá Domingos da Silva (UFRR)

Minicurrículo

    Mestranda do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal de Roraima.

Ficha do Trabalho

Título

    Interseccionalidades no framing da montagem e de discursos de O Último Azul

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O início do filme O Último Azul (2025) representa a subsistência de uma mulher idosa subalternizada num contexto distópico na floresta amazônica. Os recursos da montagem e os discursos apontam as camadas e os interstícios de interseccionalidades de gênero, geração e socioambiental, a partir das quais as subjetividades da protagonista passam a arregimentar reações pós-coloniais contra estereótipos. O método de pesquisa do framing cena a cena legitima o uso de redes de solidariedade e de coragem.

Resumo expandido

    O filme O Último Azul (2025), dirigido por Gabriel Mascaro, situa a sua trama nas ações da protagonista que luta pela sobrevivência num contexto de invisibilidade de idosos obrigados distopicamente a subsistir na floresta amazônica para não serem encarcerados em asilos. O problema da pesquisa proposta consiste em analisar como a representação da velhice feminina na Amazônia, enquadrada pela montagem e pelos discursos, agencia formas da personagem romper com essa invisibilidade. O objetivo envolve as articulações entre as interseccionalidades de gênero, geração, socioambiental e a reconfiguração de sentidos estereotípicos impostos à protagonista mulher idosa para problematizar sua condição. Pensar nessas interseccionalidades que permeiam as subjetividades dos sujeitos contemporâneos, implica em analisar como as suas camadas e seus interstícios interagem entre si. Epistemologistas e teóricos passaram a enxergá-los “além das narrativas de subjetividades originárias” e focalizaram “processos que são produzidos na articulação de diferenças culturais” (Bhabha, 1998, p. 20). Em O último azul, a opressão delimitada nos estereótipos e nas distopias, nos termos de Claeys (2017), impele o sujeito subalternizado a ocupar espaços e demarcar a substituição e o deslocamento de sentidos hegemônicos (Bhabha, 1998). Guiando-se nessa perspectiva, o feminismo no cinema possui uma ligação direta com o ativismo que trouxe as experiências das mulheres para a dimensão cultural política capaz de tensionar o fetichismo e o voyeurismo dos corpos femininos (Stam, 2002). A análise de enquadramentos fílmicos leva em conta como os recursos cinematográficos interferem nas percepções do mundo natural e social, investigando o quê o ato de representar adiciona ao representado. De acordo com Paula Willoquet-Maricondi (2010), isso se dá por meio do framing, enquadramento cena a cena, construído pelas “ferramentas das molduras” da montagem, da câmera e dos discursos (Willoquet-Maricondi, 2010, p. 19). Desta forma, analisaremos os sentidos das interseccionalidades gênero e geração, gênero e socioambiental, geração e socioambiental, dos três interstícios, pensando a partir de frames de O Último Azul em que as disrupções pós-coloniais da protagonista são anguladas “em um processo de substituição, deslocamento” de poderes hegemônicos “ou projeção” de subjetividades subalternizadas (Bhabha, 1998, p. 228), contra tentativas essencialistas, abundantes e esvaziadas das camadas subjetivas. O filme permite observar como os recursos nos frames permeiam as interseccionalidades de sentidos anti-distópicos e contra-estereotípicos. A trajetória das subjetividades da protagonista Tereza envolvendo o comando de uma embarcação e o uso da substância do caramujo azul nos olhos simboliza uma abertura sensorial para o mundo social e natural. É quando surge Roberta, a vendedora venezuelana, com a qual cria uma rede de solidariedade, visto que sua amiga comprou a liberdade. A partir daqui, Tereza reconstrói sua identidade e passa a agir contra as imposições estatais e a frágil subsistência, a ter uma autonomia equilibrada com a natureza. A análise de O Último Azul sinaliza como a montagem e os discursos constroem sentidos que entrelaçam gênero, velhice e meio ambiente. Os frames analisados demostram a narrativa utilizando elementos visuais e subjetivos emergentes para refletir sobre a situação da mulher idosa em um cenário distópico carregado de relações de poder que marginalizam corpos a serem administrados e isolados. O filme não se limita a denunciar as convenções economicistas dos poderes políticos e da sociedade, pois a paisagem amazônica é parte viva da narrativa, conectando a história às condições sociais e territoriais incapazes de promover a perdição do sujeito na “imensidão” da Amazônia. Ao acompanhar uma mulher que vai além da mera subsistência, das estruturas socioeconômicas, O Último Azul nos convida a repensar noções de autonomia e dignidade na velhice e na natureza.

Bibliografia

    BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998.
    CLAEYS, Gregory. Dystopia: a natural history. Oxford: Oxford University Press, 2017.
    O ÚLTIMO Azul. Direção: Gabriel Mascaro. (86min). Color. Disponível na Netflix.
    STAM, Robert. A Intervenção Feminista e O Cinema e O Pos-colonial In: STAM, Robert. Introdução às teorias do cinema. Campinas, SP: Papirus, 2003. p. 192-320.
    WILLOQUET-MARICONDI, Paula (Org.). Framing the world: explorations in ecocriticism and film. Charlottesville; London: University of Virginia Press, 2010.