Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maurício de Bragança (UFF)

Minicurrículo

    Graduado em História e Cinema, com Mestrado em Comunicação e Doutorado em Letras pela UFF. Atualmente é Professor Associado do Departamento de Cinema e Video e do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da UFF. Publicou A traição de Manuel Puig: melodrama, cinema e política em uma literatura à margem (EDUFF, 2010). Em 2025 defendeu a tese para o cargo de professor titular com a pesquisa “O horror no cinema mexicano dos anos 1930 e 1940: elementos para uma discussão histórico-cultural”.

Ficha do Trabalho

Título

    O indígena em disputa fílmica: entre o indigenismo e o horror no México dos anos 1930

Resumo

    O período pós-revolucionário, no México, reacendeu o debate sobre o “problema indígena”, influenciando políticas em torno à identidade nacional. O cinema indigenista exaltava as culturas originárias como base da nação. Já o cinema de horror dos anos 1930 retratou o indígena como ameaça, reforçando visões coloniais. Esta comunicação tratará deste contraste, que revela diferentes formas de representar o indígena na cultura mexicana naquele momento.

Resumo expandido

    A Revolução Mexicana de 1910 trouxe consigo novos paradigmas sobre a Nação, recolocando num amplo debate social o “problema indígena”, que remonta a uma tradição filosófica desde a época da Conquista. O indigenismo configurou-se num amplo escopo de perspectivas em torno ao “problema indígena” que orientou o desenvolvimento de políticas públicas no México pós-revolucionário e construiu uma complexa reflexão sobre as matrizes da identidade nacional. Este debate não ficava restrito aos círculos políticos oficiais ou aos textos e tratados científicos produzidos pela Antropologia institucional, chegando à imprensa, à literatura, à música, ao teatro, às charges, ao cinema. Na indústria cultural mexicana o indígena ganhava feições nacionais e se tornava reconhecível pelas massas. O cinema indigenista teve um papel importante na circulação de imagens de indígenas pela nação través de uma numerosa produção de filmes, como Tepeyac (1917), Tabaré (1918), Raza de Bronce (1927), Zítari (1931), ¡Qué viva México! (rodado em 1931), Janitzio (1935), La noche de los mayas (1939), dentre tantos outros. Nas telas, uma oportunidade de recorrer ao passado indígena como forma de buscar uma identidade para o cinema nacional, que o distinguisse do europeu e estadunidense. Uma série de filmes trazia personagens indígenas como protagonistas de enredos que celebravam a força das culturas originárias. Em comum a todos, alguns princípios: a intenção de representar o passado glorioso que o México insistia em forjar como matriz de uma identidade nacional; o mito de origem de uma história destinada ao projeto de colonização que, apesar de gerar violência e desigualdades, levou o país a se constituir como Nação; a ideia de homogeneização étnica que, por meio da mestiçagem, buscava um reconhecimento coletivo através do “indígena” que o cinema apresentava; a representação de um indígena identificado por sua retidão moral, honestidade, pureza e coragem que imprimia um caráter ao povo mexicano. Acompanhando estes objetivos, havia uma forma de enquadrar o indígena e seu ambiente natural e arquitetônico que ressaltava tais características. No entanto, havia outros filmes que também apresentavam a cultura indígena mas não se encaixavam nesses princípios formuladores do nacionalismo indigenista revolucionário. Estamos tratando de parte da filmografia do cinema de horror mexicano dos anos 1930. Estes não compartilhavam dos princípios apologéticos que marcavam os modelos de representação dos indígenas nos filmes indigenistas. Ao contrário, o elemento indígena era justamente aquilo que colocava em risco um modelo “civilizado” de nação, responsável pelos aspectos horroríficos da narrativa. A trama identificava nas culturas nativas aspectos aterradores que ameaçavam o equilíbrio da historia. O passado pré-hispânico converteu-se num manancial de figuras do horror, afirmando um olhar colonial sobre estas tradições. Além da inaugural La Llorona, de Ramón Peón (1933), com a vingança de Malinche e os sacrifícios a deusa Coatlicue, temos a maldição de um colar que pertenceu à amante de um rei azteca em Profanación, de Chano Urueta (1933), doenças desconhecidas presentes em regiões nativas nas quais seus habitantes promovem estranhos rituais de transe em El misterio del rostro pálido, de Juan Bustillo Oro (1935), ou o sacrifício de mulheres brancas ao deus Quetzalcóatl em El signo de la muerte, de Chano Urueta (1939), todas da década de 1930. Como podemos observar, uma boa parte dessa produção atribui às culturas originárias a fonte daquilo que causa o horror nas narrativas. Esta comunicação pretende apresentar parte deste repertório do cinema de horror dos anos 1930 em diálogo com os filmes indigenistas, a fim de tensionar os modelos de apresentação das culturas originárias em ambos os repertórios e indicar como os textos que se produziam sobre os indígenas na cultura midiática apontavam estratégias diferentes de se lidar com o “problema indígena”.

Bibliografia

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