Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Victor Santos Vigneron de La Jousselandière (USP)

Minicurrículo

    Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Departamento de História da USP. Foi professor no Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense. Em sua pesquisa, cujos resultados foram publicados em diferentes revistas, estuda o processo de formação do cinema brasileiro moderno.

Ficha do Trabalho

Título

    Doar os olhos: a escrita de David Neves (1957-1963)

Resumo

    O objetivo deste trabalho é analisar a produção escrita de David Neves entre 1957 e 1963. Até o momento, foram encontrados 104 textos desse autor em diversos periódicos. A partir de uma análise quantitativa e qualitativa dessa série, trata-se de contribuir para a caracterização de sua primeira atuação na imprensa. Considerando esse material, a hipótese de trabalho é a escrita de Neves assume as marcas de uma posição subordinada no interior do Cinema Novo.

Resumo expandido

    Esta comunicação desenvolve um aspecto de uma pesquisa mais ampla, desenvolvida no Departamento de História da Universidade de São Paulo. De um modo geral, a pesquisa dedica-se ao levantamento bibliográfico sistemático de cineastas ligados ao Cinema Novo brasileiro, entre 1955 e 1963. No caso desta comunicação, trata-se de discutir a produção escrita de David Neves. As balizas cronológicas gerais referem-se a dois acontecimentos que marcaram o processo de formação do grupo cinemanovista: o lançamento de “Rio, 40 graus” (1955, dir. Nelson Pereira dos Santos) e a publicação de “Revisão crítica do cinema brasileiro” (1963, Glauber Rocha). Neves, contudo, começou a publicar em 1957, o que explica a ligeira diferença desse caso em relação à pesquisa como um todo.
    Neves dispõe de três publicações em formato de livro – “Cinema novo no Brasil” (1966), “Cartas do meu bar” (1994) e “Telégrafo visual” (2014). A última delas, organizada por Carlos Augusto Calil, foi resultado de um processo de levantamento, que resultou num primeiro panorama de seu processo de escrita entre os anos 1950 e 1990. Embora nos limites de uma antologia, o livro ofereceu alguns materiais críticos, como a indicação das fontes dos textos. Desde então, a disponibilização de amplos materiais jornalísticos e de ferramentas de busca, por meio de iniciativas como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, permite uma sistematização dos conhecimentos sobre o processo de escrita de Neves. Assim, uma verificação completa, página a página, do semanário estudantil “O Metropolitano”, permitiu o levantamento de oitenta textos, com diferentes características temáticas e formais. A investigação proporcionada pela edição de 2014 e dos materiais a ela associados depositados na Cinemateca Brasileira permitiu o levantamento de publicações em outros periódicos, como “Opinião estudantil”, “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “O Estado de S. Paulo”. Ao todo, foram encontrados até o momento 104 textos em publicações de diferentes naturezas, embora o número provavelmente seja maior.
    Embora a trajetória de Neves seja objeto de pesquisas universitárias nas últimas décadas (SILVA, 2022; PINTO, 2023), o trabalho com esse conjunto de publicações permite esmiuçar um aspecto particular de sua primeira trajetória: as diferentes estratégias utilizadas pelo autor no processo de afirmação de uma dicção autoral. A compreensão dessas estratégias é tanto mais significativa, uma vez que Neves passou à produção cinematográfica de forma tardia em relação a seus colegas cinemanovistas. A especificidade desta investigação reside, particularmente, na análise seriada do material publicado, de acordo com parâmetros qualitativos e quantitativos. No que toca ao aspecto qualitativo, trata-se de articular as publicações a seu contexto gráfico original e concatená-las ao processo de escrita de Neves, marcado pela retificação. No que toca ao aspecto quantitativo, trata-se de analisar as possibilidades e limites estruturais de sua escrita, em comparação com outros autores de produção numerosa e situados em coordenadas semelhantes, como Carlos Diegues e Miguel Borges.
    De um modo geral, entende-se que a visada comparativa sugere o desenvolvimento de um dicção autoral que evidencia uma posição subordinada de Neves em relação ao grupo. Essa posição deve ser compreendida à luz de sua inserção social numa determinada fração da classe média, que dispunha de um capital simbólico pequeno na comparação com Diegues ou Joaquim Pedro de Andrade. Entende-se, assim, que o caso de Neves contribui para a recomposição do conceito de Cinema Novo, como espaço de articulação de diferentes frações da classe média, o que não se deu sem tensões no interior do grupo.
    Entende-se, por fim, que a partilha dos limites e possibilidades metodológicas dessa pesquisa pode colaborar com o estudo de outras séries de produções escritas ligadas ao cinema brasileiro.

Bibliografia

    BRUM, Alessandra. “A Nouvelle Vague sob o ponto de vista do jornal ‘O Metropolitano’” In. Estudos Históricos, v. 26, n. 51, p. 193-212, 2013.
    CARDENUTO, Reinaldo. “Cinema Novo em disputa: páginas da imprensa carioca em 1962” In. ArtCultura, v. 24, n. 44, p. 183-203, 2022.
    NEVES, David E. “Cinema novo no Brasil” Petrópolis: Vozes, 1966.
    NEVES, David E. “Cartas do meu bar” Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
    NEVES, David E. “Telégrafo visual: crítica amável de cinema” São Paulo: Editora 34, 2004.
    PINTO, Pedro Plaza. “Paulo Emílio e a emergência do Cinema Novo: diálogos com David Neves e Glauber Rocha” Curitiba: A Quadro, 2023.
    RIBEIRO, Ana Paula G. “Imprensa e História no Rio de Janeiro dos anos 50” Rio de Janeiro: E-papers, 2007.
    SILVA, Gabriel P. F. B. da. “Impressões de formação: relatos dos primeiros anos no cinema de David Neves” In. Revista Movimento, n. 19, p. 142-161, 2022.
    VIGNERON, Victor Santos. “Diegues, de Carlos a Cacá (1955-1963)” In. Rebeca, v. 15, n. 1, p. 1-23, 2026.