Ficha do Proponente
Proponente
- Victor Santos Vigneron de La Jousselandière (USP)
Minicurrículo
- Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo, atualmente desenvolve pesquisa de pós-doutorado no Departamento de História da USP. Foi professor no Departamento de Cinema e Vídeo da Universidade Federal Fluminense. Em sua pesquisa, cujos resultados foram publicados em diferentes revistas, estuda o processo de formação do cinema brasileiro moderno.
Ficha do Trabalho
Título
- Doar os olhos: a escrita de David Neves (1957-1963)
Resumo
- O objetivo deste trabalho é analisar a produção escrita de David Neves entre 1957 e 1963. Até o momento, foram encontrados 104 textos desse autor em diversos periódicos. A partir de uma análise quantitativa e qualitativa dessa série, trata-se de contribuir para a caracterização de sua primeira atuação na imprensa. Considerando esse material, a hipótese de trabalho é a escrita de Neves assume as marcas de uma posição subordinada no interior do Cinema Novo.
Resumo expandido
- Esta comunicação desenvolve um aspecto de uma pesquisa mais ampla, desenvolvida no Departamento de História da Universidade de São Paulo. De um modo geral, a pesquisa dedica-se ao levantamento bibliográfico sistemático de cineastas ligados ao Cinema Novo brasileiro, entre 1955 e 1963. No caso desta comunicação, trata-se de discutir a produção escrita de David Neves. As balizas cronológicas gerais referem-se a dois acontecimentos que marcaram o processo de formação do grupo cinemanovista: o lançamento de “Rio, 40 graus” (1955, dir. Nelson Pereira dos Santos) e a publicação de “Revisão crítica do cinema brasileiro” (1963, Glauber Rocha). Neves, contudo, começou a publicar em 1957, o que explica a ligeira diferença desse caso em relação à pesquisa como um todo.
Neves dispõe de três publicações em formato de livro – “Cinema novo no Brasil” (1966), “Cartas do meu bar” (1994) e “Telégrafo visual” (2014). A última delas, organizada por Carlos Augusto Calil, foi resultado de um processo de levantamento, que resultou num primeiro panorama de seu processo de escrita entre os anos 1950 e 1990. Embora nos limites de uma antologia, o livro ofereceu alguns materiais críticos, como a indicação das fontes dos textos. Desde então, a disponibilização de amplos materiais jornalísticos e de ferramentas de busca, por meio de iniciativas como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, permite uma sistematização dos conhecimentos sobre o processo de escrita de Neves. Assim, uma verificação completa, página a página, do semanário estudantil “O Metropolitano”, permitiu o levantamento de oitenta textos, com diferentes características temáticas e formais. A investigação proporcionada pela edição de 2014 e dos materiais a ela associados depositados na Cinemateca Brasileira permitiu o levantamento de publicações em outros periódicos, como “Opinião estudantil”, “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil” e “O Estado de S. Paulo”. Ao todo, foram encontrados até o momento 104 textos em publicações de diferentes naturezas, embora o número provavelmente seja maior.
Embora a trajetória de Neves seja objeto de pesquisas universitárias nas últimas décadas (SILVA, 2022; PINTO, 2023), o trabalho com esse conjunto de publicações permite esmiuçar um aspecto particular de sua primeira trajetória: as diferentes estratégias utilizadas pelo autor no processo de afirmação de uma dicção autoral. A compreensão dessas estratégias é tanto mais significativa, uma vez que Neves passou à produção cinematográfica de forma tardia em relação a seus colegas cinemanovistas. A especificidade desta investigação reside, particularmente, na análise seriada do material publicado, de acordo com parâmetros qualitativos e quantitativos. No que toca ao aspecto qualitativo, trata-se de articular as publicações a seu contexto gráfico original e concatená-las ao processo de escrita de Neves, marcado pela retificação. No que toca ao aspecto quantitativo, trata-se de analisar as possibilidades e limites estruturais de sua escrita, em comparação com outros autores de produção numerosa e situados em coordenadas semelhantes, como Carlos Diegues e Miguel Borges.
De um modo geral, entende-se que a visada comparativa sugere o desenvolvimento de um dicção autoral que evidencia uma posição subordinada de Neves em relação ao grupo. Essa posição deve ser compreendida à luz de sua inserção social numa determinada fração da classe média, que dispunha de um capital simbólico pequeno na comparação com Diegues ou Joaquim Pedro de Andrade. Entende-se, assim, que o caso de Neves contribui para a recomposição do conceito de Cinema Novo, como espaço de articulação de diferentes frações da classe média, o que não se deu sem tensões no interior do grupo.
Entende-se, por fim, que a partilha dos limites e possibilidades metodológicas dessa pesquisa pode colaborar com o estudo de outras séries de produções escritas ligadas ao cinema brasileiro.
Bibliografia
- BRUM, Alessandra. “A Nouvelle Vague sob o ponto de vista do jornal ‘O Metropolitano’” In. Estudos Históricos, v. 26, n. 51, p. 193-212, 2013.
CARDENUTO, Reinaldo. “Cinema Novo em disputa: páginas da imprensa carioca em 1962” In. ArtCultura, v. 24, n. 44, p. 183-203, 2022.
NEVES, David E. “Cinema novo no Brasil” Petrópolis: Vozes, 1966.
NEVES, David E. “Cartas do meu bar” Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
NEVES, David E. “Telégrafo visual: crítica amável de cinema” São Paulo: Editora 34, 2004.
PINTO, Pedro Plaza. “Paulo Emílio e a emergência do Cinema Novo: diálogos com David Neves e Glauber Rocha” Curitiba: A Quadro, 2023.
RIBEIRO, Ana Paula G. “Imprensa e História no Rio de Janeiro dos anos 50” Rio de Janeiro: E-papers, 2007.
SILVA, Gabriel P. F. B. da. “Impressões de formação: relatos dos primeiros anos no cinema de David Neves” In. Revista Movimento, n. 19, p. 142-161, 2022.
VIGNERON, Victor Santos. “Diegues, de Carlos a Cacá (1955-1963)” In. Rebeca, v. 15, n. 1, p. 1-23, 2026.