Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rafael de Almeida (UEG)

Minicurrículo

    Rafael de Almeida é cineasta e artista visual. Doutor em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com estágio de doutorado na Universidad Complutense de Madrid, e pós-doutorado pelo Programa de Pós-Graduação em Arte e Cultura Visual da Universidade Federal de Goiás (UFG). Atua como professor no curso de Cinema e Audiovisual e no Programa de Pós-Graduação em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado (PPGTECCER) da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Ficha do Trabalho

Título

    A estética do fragmento como método: arquivo em fratura nas imagens Krahô

Seminário

    Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens

Resumo

    O trabalho investiga o arquivo como superfície atravessada por transformações materiais, biológicas e relacionais, a partir de imagens Krahô produzidas em negativo fotográfico (2006-2026). A partir delas, introduz o conceito de estética do fragmento como método para pensar vestígios que coexistem sem síntese. Argumenta que a fratura não é falha, mas condição de aparecimento, e que o rigor consiste na organização crítica da não coincidência em arquivos instáveis.

Resumo expandido

    O trabalho investiga o estatuto do arquivo quando este se apresenta não como repositório estável, mas como superfície atravessada por transformações materiais, biológicas e relacionais. O ponto de partida é um negativo fotográfico realizado entre os Krahô em 2006, mantido sem revelação por dezesseis anos e posteriormente aberto em 2022, quando se constatou a ação de fungos sobre a emulsão, sendo reinscrito, em 2026, pelo artista Sidinei Pôhypej Krahô. Esse percurso evidencia a insuficiência da concepção moderna do arquivo como instância de fixação do traço e conservação do passado, aproximando-se da compreensão de Derrida (2001) de que todo arquivo implica separação e não coincidência.

    O problema central consiste em como pensar vestígios que não remetem a uma totalidade recuperável, mas a camadas heterogêneas que coexistem sem síntese. A proliferação fúngica, desenvolvida no interior do rolo ao longo do tempo, introduz uma temporalidade biológica que reconfigura a inscrição luminosa e torna visível a instabilidade material do suporte. A imagem não restitui o instante capturado, mas apresenta-se como superfície estratificada na qual se cruzam diferentes regimes temporais. Nesse sentido, o que se revelou não foi a conservação do passado, mas sua transformação material.

    A intervenção pictórica de Sidinei Pôhypej Krahô desloca ainda mais essa condição ao reinscrever a imagem a partir de outra posição de enunciação. A imagem deixa de operar como evidência estabilizada e passa a constituir-se como campo relacional no qual coexistem inscrição fotográfica, metabolismo biológico e gesto pictórico. Essa configuração tensiona o regime documental e aproxima-se da noção benjaminiana de constelação, na qual a legibilidade emerge do encontro entre tempos heterogêneos (BENJAMIN, 1994), bem como da formulação adorniana segundo a qual os elementos devem ser coordenados sem serem subordinados a um princípio unificador (ADORNO, 2003).

    Diante desse quadro, o trabalho introduz o conceito de estética do fragmento como método. O fragmento não é compreendido como resto de uma totalidade perdida nem como índice de insuficiência documental, mas como forma de aparecimento que sustenta a convivência entre regimes irredutíveis de inscrição. Em oposição à categoria de ruína, que pressupõe integridade anterior, o fragmento indica que a totalidade nunca foi fundamento estável. A fratura deixa de ser interpretada como falha e passa a ser compreendida como condição do vestígio.

    Nessa perspectiva, o arquivo é pensado como campo de relações em constante reconfiguração, em consonância com a noção de mediação proposta por Latour (2012) e com a ideia de que o arquivo constitui um estatuto atravessado por relações de poder, conforme Mbembe (2002). A inteligibilidade não decorre da integração das partes, mas da tensão entre camadas que permanecem parcialmente não coincidentes. O rigor, portanto, não se define pela busca de completude, mas pela capacidade de organizar criticamente essa não coincidência.

    Ao afirmar o fragmento como princípio metodológico, o trabalho propõe uma forma de pensamento que responde à própria estrutura do vestígio. A incompletude não é tratada como deficiência, mas como condição epistemológica. O arquivo deixa de ser compreendido como garantia de estabilidade e passa a operar como superfície de convivência entre temporalidades, materialidades e posições de enunciação que não se reconciliam, tornando a fratura não um limite do arquivo, mas a condição a partir da qual ele pode ser pensado.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. In: Notas de literatura I. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2003.

    BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

    DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

    LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA; Bauru: EDUSC, 2012.

    MBEMBE, Achille. The power of the archive and its limits. In: HAMILTON, Carolyn et al. (org.). Refiguring the Archive. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2002.