Ficha do Proponente
Proponente
- Fernanda Eda Paz Leite (UFF)
Minicurrículo
- Doutoranda em Cinema e Audiovisual (UFF) e pesquisadora no Laboratório de Pesquisa e Experimentação em Imagem e Som da UFF (Kumã). Mestra em Estudos Contemporâneos das Artes(UFF), fotógrafa, cineasta, professora, poeta e produtora cultural,com prêmios em diversos editais de cultura. Atuou, entre outras funções, como professora de fotografia no IFRJ, produtora executiva no Festival Ecrã de cinema, produtora cultural e arte-educadora no Sesc RJ e assistente de operações audiovisuais na Rede Globo.
Ficha do Trabalho
Título
- Produzir acontecimento:dispositivos e experimentações híbridas em contextos artísticos e pedagógicos
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- Este trabalho apresenta os percursos da disciplina Experimentações híbridas em cinema, fotografia e artes visuais, desenvolvida no estágio docência do doutorado em Cinema na UFF.A partir de dispositivos criativos inspirados nos Cadernos do Inventar e em práticas de artistas contemporâneos, investiga-se a criação coletiva como produção de acontecimento na imagem e no mundo. A pesquisa adota a cartografia como método para acompanhar processos de experimentação e invenção nas artes e no audiovisual
Resumo expandido
- No Laboratório Kumã – Laboratório de Experimentações em Imagem e Som da Universidade Federal Fluminense, desenvolvemos práticas coletivas baseadas no uso de dispositivos criativos como estratégias pedagógicas e artísticas para produzir acontecimento no mundo. O foco dessas experiências não está apenas na produção de imagens, mas na criação de situações que ativem agenciamentos, promovam experimentação e afirmem o processo, com seus erros e desvios, como dimensão central da aprendizagem em diferentes grupos e subjetividades.
No projeto Cadernos do Inventar, temos organizado um catálogo de atividades, jogos e dispositivos audiovisuais adaptáveis a distintas realidades escolares e de grupo, sustentados pela premissa de que todos podem fazer cinema. Essa perspectiva propõe a democratização radical do fazer cinematográfico, priorizando as relações que se estabelecem durante a criação. Os dispositivos operam, assim, como estratégias capazes de “produzir acontecimento na imagem e no mundo” (MIGLIORIN, 2005, s.p.), instaurando experiências que escapam ao controle total. Segundo Migliorin (2005), o dispositivo articula duas forças complementares: uma de restrição, ao estabelecer regras e limites, e outra de abertura, ao permitir expansões imprevisíveis a partir das ações dos participantes. É na tensão entre estrutura e indeterminação que emergem movimentos e acontecimentos não previamente calculados. Em diálogo com Deleuze e Guattari (1995), compreendemos território como um campo relacional dinâmico, produzido por forças e interações. Nesse sentido, os dispositivos funcionam como operadores de desterritorialização, desestabilizando códigos fixos e abrindo espaço para reconfigurações de sentido, prática e subjetividade.
Em 2025, no estágio docência do doutorado, ofereci uma disciplina ao curso de graduação em Cinema e Audiovisual da UFF dedicada à experimentação com dispositivos voltados à imagem expandida e ao hibridismo entre linguagens, técnicas e materiais, intitulada: “Experimentações híbridas em cinema, fotografia e artes visuais”. O borramento de fronteiras foi assumido como estratégia criativa, instaurando zonas de intersecção marcadas por desvios, deslocamentos e liberdade criativa.
Parte dos dispositivos utilizados partiu de adaptações do Cadernos do Inventar; outros dialogaram com práticas de artistas como Cao Guimarães, Helena Almeida e Yoko Ono; e alguns emergiram da própria relação com os estudantes e da minha experiência como arte-educadora em museus e centros culturais ao longo dos anos.
Esta pesquisa orienta-se pelo método da cartografia, conforme desenvolvida por Eduardo Passos, Virgínia Kastrup e Suely Rolnik, em diálogo com Deleuze e Guattari. Cartografar implica acompanhar processos em curso, atentando às forças e fluxos que constituem territórios existenciais em transformação. Trata-se de pesquisar com o processo, e não apenas sobre ele, sustentando uma postura ética e estética fundada na escuta, na presença e na abertura ao inesperado.
Segundo Sandra Rey (2002), referência brasileira no campo da arte contemporânea e da pedagogia da criação, na pesquisa em artes os procedimentos metodológicos devem acompanhar as singularidades de cada processo criativo, respeitando seus ritmos, desvios, contingências e zonas de opacidade. Nessa perspectiva, a imagem é compreendida não apenas como elemento visual, mas como um campo de pensamento e de emergência do sensível, capaz de mobilizar afetos, reflexões e inventividade.
Dessa forma, este trabalho apresenta os processos e experimentações realizados na disciplina do estágio docência e busca compartilhar essas práticas de modo que possam estabelecer diálogos com outros artistas e educadores, sendo apropriadas, adaptadas e transformadas em diferentes contextos. Ao circular entre distintos olhares e campos de investigação, tais experiências permanecem abertas a desvios, deslocamentos e novas articulações, possibilitando a emergência de outras conexões e sentidos.
Bibliografia
- DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. 1995-1997. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. Rio de Janeiro: Editora 34. 715 pp.
Migliorin, Cézar . O dispositivo como estratégia narrativa. In: ANAIS DO 14° ENCONTRO ANUAL DA COMPÓS, Niterói. Anais eletrônicos… Campinas, Galoá, 2005. Disponível em: Acesso em: 19 fev. 2026.
Migliorin, Cézar [et all] Cadernos do Inventar: cinema, educação e diretos humanos. Niterói: EDG, 2018.
PASSOS, Eduardo; KASTRUP, Virgínia; ESCÓSSIA, Liliana (orgs.). Pistas do método da cartografia: pesquisa-intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre: Sulina, 2014.
REY, Sandra. Por uma abordagem metodológica da pesquisa em artes visuais. In: BRITES, Blanca; TESSLER, Elida (orgs.) O meio como ponto zero: metodologia da pesquisa em artes plásticas. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. p. 123–140.