Ficha do Proponente
Proponente
- Welton Florentino Paranhos da Silva (ECA/USP)
Minicurrículo
- Tom Paranhos é ator e pesquisador paulistano. Doutorando e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP com pesquisa sobre o trabalho do ator em plataformas online. Formado no curso de Introdução ao Método do Ator do CPT/SESC e de Atuação da SP Escola de Teatro. Pós-graduado em Técnica Klauss Vianna pela PUC/SP e graduado em Letras pela FFLCH/USP. Em sua trajetória como ator privilegia as formas contemporâneas, a experimentação e o diálogo entre pesquisa e prática artística.
Ficha do Trabalho
Título
- O ator do fim do mundo – Práticas de atuação expandida após do fim da arte
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- No contexto contemporâneo o ator sai do centro da representação e passa a atuar em redes articulando dispositivos tecnológicos, documentos e espectadores. A partir das obras Situation Rooms (Rimini Protokoll) e Into the Hinterlands (Julia Yezbick), esta comunicação investiga a expansão e redistribuição da presença do ator entre corpo e tecnologia. Dialogando com Danto e Viveiros de Castro, é proposta a figura do “ator do fim do mundo”, que se reinventa nas ruínas das formas tradicionais da arte.
Resumo expandido
- Esta comunicação propõe uma reflexão sobre atuação no contexto das artes cênicas e audiovisuais contemporâneas, tomando como ponto de partida o deslocamento histórico da centralidade do ator para uma rede mais ampla de mediações que envolve dispositivos tecnológicos, documentos, espectadores e ambientes. A análise parte da constatação de que, na arte contemporânea, as fronteiras entre linguagens como teatro e cinema tornaram-se instáveis, exigindo novas categorias para compreender as práticas de atuação. Nesse cenário, a atuação expandida surge como conceito para descrever modos de presença em que o ator deixa de ocupar o centro da cena e passa a operar como mediador de fluxos entre corpo, tecnologia, espaço e público.
O texto discute esse deslocamento a partir da análise de duas obras híbridas que transitam entre teatro, performance e documentário expandido: Situation Rooms (2014), do coletivo Rimini Protokoll, e Into the Hinterlands (2015), de Julia Yezbick em colaboração com o The Hinterlands Ensemble. Em Situation Rooms, o público é inserido em um dispositivo imersivo mediado por tablets e fones de ouvido, que orientam sua circulação por diferentes ambientes e narrativas relacionadas ao comércio global de armas. Nessa configuração, o espetáculo substitui atores profissionais por “experts em cena”, indivíduos diretamente implicados nas histórias narradas. A atuação se redistribui entre vozes telepresentes, documentos audiovisuais e a participação física dos espectadores, que passam a executar ações previamente roteirizadas. O dispositivo evidencia um paradoxo característico das experiências interativas contemporâneas: embora o espectador participe ativamente, sua agência permanece limitada pela estrutura programada do sistema.
Já em Into the Hinterlands, o movimento é inverso: em vez de dissolver o corpo na mediação tecnológica, a obra enfatiza a fusão entre corpo e câmera. O documentário acompanha o processo de treinamento físico do coletivo The Hinterlands, cujas práticas performativas exploram improvisações não verbais, estados corporais intensificados e relações coletivas de equilíbrio e escuta. A cineasta Julia Yezbick participa desse treinamento enquanto filma, utilizando a câmera como extensão do corpo. Desse modo, o gesto de filmar torna-se inseparável do gesto performativo. A imagem cinematográfica emerge, assim, de um corpo em movimento, instaurando uma percepção compartilhada entre performer, câmera e espectador.
A articulação entre essas duas obras permite pensar na atuação expandida a presença não desaparece, mas se redistribui entre humanos e máquinas. Dialogando com autores como Steve Dixon e Jihoon Kim, o texto argumenta que práticas contemporâneas como performance e documentário expandido deslocam o lugar tradicional da atuação, transformando o corpo do ator em mais um elemento entre outros dentro de um ecossistema de dispositivos.
Essa transformação é interpretada à luz da tese do “fim da arte”, formulada por Arthur Danto, segundo a qual a arte contemporânea já não se organiza a partir de uma narrativa histórica de progresso formal. Em paralelo, Hans Belting propõe que o que se esgota é a própria história da arte enquanto narrativa linear eurocêntrica. Aproxima-se essas reflexões da noção de “fim do mundo” discutida por Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, que interpretam a crise ecológica e civilizatória contemporânea como colapso de um modelo moderno de mundo. Nesse horizonte, a figura do “ator do fim do mundo” descreve o performer que atua nas ruínas das formas tradicionais de representação, redistribuindo sua presença entre dispositivos, arquivos e relações. Entre presença física e telepresença, documento e performance, o ator contemporâneo emerge como agente de uma prática artística que insiste em reinventar formas de presença mesmo diante do fim de mundos e narrativas.
Bibliografia
- DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental, 2014.
DANTO, Arthur C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Edusp, 2006.
DIXON, Steve. Digital Performance: A History of New Media in Theater, Dance, Performance Art, and Installation. Cambridge, MA: The MIT Press, 2007.
RIMINI PROTOKOLL. Situation Rooms. 2013. Disponível em: https://www.rimini-protokoll.de/website/en/project/situation- rooms. Acesso em: 11 set. 2025.
SATURNINO, Andrea Caruso. Ligeiro deslocamento do real: experiência, dispositivos e utopia na cena contemporânea. São Paulo: Edições Sesc, 2021.
YEZBICK, Julia. Into the Hinterlands. 2015. Disponível em: https://www.thehinterlands.org/into-the-hinterlands. Acesso em: 11 set. 2025.