Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Welton Florentino Paranhos da Silva (ECA/USP)

Minicurrículo

    Tom Paranhos é ator e pesquisador paulistano. Doutorando e mestre em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA/USP com pesquisa sobre o trabalho do ator em plataformas online. Formado no curso de Introdução ao Método do Ator do CPT/SESC e de Atuação da SP Escola de Teatro. Pós-graduado em Técnica Klauss Vianna pela PUC/SP e graduado em Letras pela FFLCH/USP. Em sua trajetória como ator privilegia as formas contemporâneas, a experimentação e o diálogo entre pesquisa e prática artística.

Ficha do Trabalho

Título

    O ator do fim do mundo – Práticas de atuação expandida após do fim da arte

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    No contexto contemporâneo o ator sai do centro da representação e passa a atuar em redes articulando dispositivos tecnológicos, documentos e espectadores. A partir das obras Situation Rooms (Rimini Protokoll) e Into the Hinterlands (Julia Yezbick), esta comunicação investiga a expansão e redistribuição da presença do ator entre corpo e tecnologia. Dialogando com Danto e Viveiros de Castro, é proposta a figura do “ator do fim do mundo”, que se reinventa nas ruínas das formas tradicionais da arte.

Resumo expandido

    Esta comunicação propõe uma reflexão sobre atuação no contexto das artes cênicas e audiovisuais contemporâneas, tomando como ponto de partida o deslocamento histórico da centralidade do ator para uma rede mais ampla de mediações que envolve dispositivos tecnológicos, documentos, espectadores e ambientes. A análise parte da constatação de que, na arte contemporânea, as fronteiras entre linguagens como teatro e cinema tornaram-se instáveis, exigindo novas categorias para compreender as práticas de atuação. Nesse cenário, a atuação expandida surge como conceito para descrever modos de presença em que o ator deixa de ocupar o centro da cena e passa a operar como mediador de fluxos entre corpo, tecnologia, espaço e público.

    O texto discute esse deslocamento a partir da análise de duas obras híbridas que transitam entre teatro, performance e documentário expandido: Situation Rooms (2014), do coletivo Rimini Protokoll, e Into the Hinterlands (2015), de Julia Yezbick em colaboração com o The Hinterlands Ensemble. Em Situation Rooms, o público é inserido em um dispositivo imersivo mediado por tablets e fones de ouvido, que orientam sua circulação por diferentes ambientes e narrativas relacionadas ao comércio global de armas. Nessa configuração, o espetáculo substitui atores profissionais por “experts em cena”, indivíduos diretamente implicados nas histórias narradas. A atuação se redistribui entre vozes telepresentes, documentos audiovisuais e a participação física dos espectadores, que passam a executar ações previamente roteirizadas. O dispositivo evidencia um paradoxo característico das experiências interativas contemporâneas: embora o espectador participe ativamente, sua agência permanece limitada pela estrutura programada do sistema.

    Já em Into the Hinterlands, o movimento é inverso: em vez de dissolver o corpo na mediação tecnológica, a obra enfatiza a fusão entre corpo e câmera. O documentário acompanha o processo de treinamento físico do coletivo The Hinterlands, cujas práticas performativas exploram improvisações não verbais, estados corporais intensificados e relações coletivas de equilíbrio e escuta. A cineasta Julia Yezbick participa desse treinamento enquanto filma, utilizando a câmera como extensão do corpo. Desse modo, o gesto de filmar torna-se inseparável do gesto performativo. A imagem cinematográfica emerge, assim, de um corpo em movimento, instaurando uma percepção compartilhada entre performer, câmera e espectador.

    A articulação entre essas duas obras permite pensar na atuação expandida a presença não desaparece, mas se redistribui entre humanos e máquinas. Dialogando com autores como Steve Dixon e Jihoon Kim, o texto argumenta que práticas contemporâneas como performance e documentário expandido deslocam o lugar tradicional da atuação, transformando o corpo do ator em mais um elemento entre outros dentro de um ecossistema de dispositivos.

    Essa transformação é interpretada à luz da tese do “fim da arte”, formulada por Arthur Danto, segundo a qual a arte contemporânea já não se organiza a partir de uma narrativa histórica de progresso formal. Em paralelo, Hans Belting propõe que o que se esgota é a própria história da arte enquanto narrativa linear eurocêntrica. Aproxima-se essas reflexões da noção de “fim do mundo” discutida por Eduardo Viveiros de Castro e Déborah Danowski, que interpretam a crise ecológica e civilizatória contemporânea como colapso de um modelo moderno de mundo. Nesse horizonte, a figura do “ator do fim do mundo” descreve o performer que atua nas ruínas das formas tradicionais de representação, redistribuindo sua presença entre dispositivos, arquivos e relações. Entre presença física e telepresença, documento e performance, o ator contemporâneo emerge como agente de uma prática artística que insiste em reinventar formas de presença mesmo diante do fim de mundos e narrativas.

Bibliografia

    DANOWSKI, Déborah; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Desterro [Florianópolis]: Cultura e Barbárie; Instituto Socioambiental, 2014.
    DANTO, Arthur C. Após o fim da arte: a arte contemporânea e os limites da história. São Paulo: Edusp, 2006.
    DIXON, Steve. Digital Performance: A History of New Media in Theater, Dance, Performance Art, and Installation. Cambridge, MA: The MIT Press, 2007.
    RIMINI PROTOKOLL. Situation Rooms. 2013. Disponível em: https://www.rimini-protokoll.de/website/en/project/situation- rooms. Acesso em: 11 set. 2025.
    SATURNINO, Andrea Caruso. Ligeiro deslocamento do real: experiência, dispositivos e utopia na cena contemporânea. São Paulo: Edições Sesc, 2021.
    YEZBICK, Julia. Into the Hinterlands. 2015. Disponível em: https://www.thehinterlands.org/into-the-hinterlands. Acesso em: 11 set. 2025.