Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Guilherme Henrique Pereira Mariano (UNICAMP)

Minicurrículo

    Doutorando em Multimeios (bolsista CAPES) pela Universidade Estadual de Campinas, Mestre em Cinema e Narrativas Sociais (2023) e graduado em Comunicação Social – Cinema e Audiovisual (2021) pela Universidade Federal de Sergipe, onde foi bolsista PRODAP e CNPq. Participa do grupo de pesquisa AUDIOENSAIO e desenvolve pesquisa acerca das materialidades do cinema de fluxo, com especial atenção para as paisagens e corporalidades em diálogo com teorias pós-humanas e ontologias pós-críticas.

Ficha do Trabalho

Título

    O olhar do abismo: paisagem e subjetividade em Il buco (2021), de Michelangelo Frammartino

Resumo

    O trabalho questiona as fronteiras entre objetividade e subjetividade a partir da obra Il buco (2021), de Frammartino. Trazendo conceitos fundamentais para o realismo sensório (Vieira Jr., 2020), como a cinestesia e o filme como uma “visão corporificada e incorporada” (Sobchack, 1992), dialogamos com a ideia de subjetiva indireta livre (Pasolini, 1982) para refletir sobre formas perceptivas que dissolvem limites entre humano e paisagem, propondo a hipótese de um olhar objetal que permeia a obra.

Resumo expandido

    A questão de quem ocupa o ponto de vista de uma imagem sempre esteve no centro do fazer artístico, antes mesmo da perspectiva artificialis renascentista, era o “olhar divino” que regia as representações. O Renascimento não foi apenas responsável pela afirmação do olhar humano como origem de um ponto de fuga, mas lançou, com isso, um olhar geométrico, racional, enfim, objetivo para o mundo. A medida do olhar não passou a ser a de um homem, mas sim “universal”. Desde então, a variação entre o par objetivo-subjetivo pode ser encontrada no cerne dos debates mais fundamentais do cinema, desde sua afirmação como arte até suas discussões sobre autoria e os rumos de suas expressões documentais, por exemplo. Este trabalho carrega a intenção de caminhar por esses meandros, a fim de refletirmos sobre as subjetividades postas em jogo na obra Il buco (2021), de Michelangelo Frammartino. Nela, acompanhamos um grupo de espeleólogos vindos de Milão, cidade do norte italiano em plena ascensão econômica em 1961, rumo ao sul rural, na região da Calábria, com a finalidade de explorar o abismo Bifurto, até então nunca antes explorado. Enquanto isso, um pastor nativo que cuidava de seu rebanho nas redondezas da caverna, em uma relação simbiótica com a paisagem que o acolhe rotineiramente, começa a sentir em seu corpo os sintomas dessa invasão. As fronteiras imprecisas entre humano e paisagem, corpo e espaço e, portanto, entre percepções e subjetividades humanas e não humanas estão postas de saída.
    Tecendo tal debate, abordaremos conceitos caros ao realismo sensório (Vieira Jr., 2020), tendência estética contemporânea à qual aproximamos a obra, como a cinestesia, um neologismo que engloba a “sinestesia” (quando um dado perceptivo de um determinado órgão sensório remete a qualidades perceptivas relativas a outro órgão sensório), a “hapticidade” (uma certa tatilidade da visão e da audição, em que tocamos e somos tocados visual e sonoramente pela imagem) e a “cinestesia” (desta vez, relativa a kinesthesia, relacionada à nossa propriocepção, ou seja, a capacidade de reconhecermos nossos limites corporais em relação ao mundo). Além da tese, levantada por Sobchack (1992), da experiência fílmica como uma “visão corporificada e incorporada”, em que a própria existência do filme “é baseada no ‘mim’ – o ‘eu mesmo, minha psique’” (p. 135). Para transitar por esses limites permeáveis entre objetividade e subjetividade, resgataremos ainda o debate proposto por Pasolini (1982) acerca da subjetiva indireta livre, ferramenta expressiva moderna que consiste em dissolver as demarcações narrativas clássicas entre os planos objetivos (aqueles pertencentes à narração, o olhar da câmera/autor) e os planos subjetivos (aqueles “encarnados” em personagens diegéticos), de modo que as fronteiras entre as subjetividades do autor e da personagem se tornam imprecisas e, assim, o exercício estético autoral se mostra através das subjetividades em cena (p. 143-149). Para Deleuze (2018), a subjetiva indireta livre é o próprio fundamento da irrupção da modernidade no cinema e de uma imagem “semissubjetiva”, onde a imagem-percepção encontra um novo estatuto, “que seria como uma reflexão da imagem numa consciência de si-câmera” (p. 126).
    Por fim, trazemos o conceito de percepção pura (Bergson, 1999), definida como percepções destituídas das qualificações imputadas pela memória (ou duração) individual, que se aproximam de um modo perceptivo da matéria bruta, para, enfim, levantarmos a hipótese de um olhar objetal que permeia os enquadramentos da obra. Um olhar radicalmente diferente de uma observação “objetiva” ou distanciada, pois é profundamente alicerçado numa hapticidade que coloca as coisas a uma distância de um contato mútuo, expondo-nos a uma corporalidade que se aproxima mais de um “corpo do mundo”, onde a multiplicidade quantitativa de fronteiras espaciais entre os corpos se transforma em uma unicidade da extensão material em que tudo é contíguo.

Bibliografia

    BERGSON, H. Matéria e memória. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

    DELEUZE, G. Cinema 1 – A imagem-movimento. 1. ed. São Paulo: Editora 34, 2018.

    IL BUCO. Direção: Michelangelo Frammartino. Itália: Doppio Nodo Double Bind, 2021. Streaming (93 min), color.

    PASOLINI, P. P. Empirismo herege. Trad. Miguel Serres Pereira. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982.

    TEIXEIRA, F. E. Cinema e poéticas de subjetivação. In: Cinemas “não-narrativos”: experimental e documentário – passagens. São Paulo: Alameda, 2012. p. 57-85.

    VIEIRA JR., E. Realismo sensório no cinema contemporâneo. 241 p. Vitória:
    EDUFES, 2020. Disponível em: http://repositorio.ufes.br/handle/10/774. Acesso em: 2 nov. 2022.

    VIVEIROS DE CASTRO, E. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. 288 p. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

    SOBCHACK, V. The address of the eye: a phenomenology of film experience. New Jersey: Princeton University Press, 1992.