Ficha do Proponente
Proponente
- Afrânio Mendes Catani (USP)
Minicurrículo
- Afrânio Mendes Catani: mestre, doutor e livre-docente em sociologia (USP), sócio Fundador e ex-presidente da SOCINE, é professor titular sênior na FEUSP. Pesquisador do CNPq. Autor, entre outros, de A chanchada no cinema brasileiro (com J. Inácio de Melo Souza); A Sombra da Outra: a Cinematográfica Maristela e o cinema industrial paulista nos anos 50;
História do cinema brasileiro: 4 ensaios; A revista de cultura Anhembi (1950-62): um projeto elitista para elevar o nível cultural do Brasil.
Ficha do Trabalho
Título
- O homem certo no lugar errado: Alberto Cavalcanti no cinema paulista dos anos 1950
Resumo
- O cineasta Alberto Cavalcanti (1897-1982) saiu do país ainda adolescente e fez longa carreira na Europa como diretor, roteirista, produtor, montador e diretor de arte. Veio ao Brasil em 1949 para conferências e foi convidado para ser produtor geral da recém-criada Cinematográfica Vera Cruz. Acompanhar o infortúnio de Cavalcanti nos 5 anos passados aqui implica em estudar sua atividade na Vera Cruz e em outras produtoras brasileiras, em que foi produtor, diretor, roteirista e supervisor.
Resumo expandido
- “Cavalcanti era um homem que se encontrava sempre no lugar certo na hora errada ou no lugar errado na hora certa”. A frase no Catálogo do Festival Internacional do Filme de Locarno (1995), de Lorenzo Pellizzari e Claudio Valentinetti, citada por Roberta Canuto (Homem Cinema: Alberto Cavalcanti, 2025), ilustra a trajetória de Alberto Cavalcanti (1897-1982) no exterior e no Brasil.
Cavalcanti deixou o Brasil adolescente, estudou arquitetura (Genebra), Belas Artes (Paris) e, na França, trabalhou como cenógrafo de Marcel L’Herbier em Résurrection (1927) e L’Inhumaine (1923), La Galerie des monstres (1924) e Feu Mathias Pascal (1925). O contato com os surrealistas e com os estúdios comerciais lhe permitiu trabalhar como cenógrafo e diretor de arte em 7 produções, montar 11, fazer 17 roteiros e dirigir 23 filmes. Dirigiu obras-primas – Rien que les heures (1926), En rade (1927) – e filmes comerciais, como Yvette (1927), La p’tite Lilie (1927) e o já sonorizado Le Capitain Fracasse (1928). Fica na França até 1934. Deixa o país rompido com os surrealistas, premido por dificuldades financeiras e infeliz em razão do exaustivo labor no cinema industrial.
Em 1934, aos 37 anos e uma carreira consolidada, aceitou convite de John Grierson, “agente animador” da General Post Office Film Unit (GPO) e foi para a Inglaterra. Apesar de seu caráter marcadamente institucional, a produção da GPO revolucionou o documentário de cunho social. Produziu mais de 20 filmes, supervisionou o som em 3 (ensinou os colegas a trabalharem nesse quesito) e dirigiu 10 fitas, destacando-se Coal Face (1936) e North Sea (1938). Seu salário, assim como de toda a equipe, era irrisório. Após atritos, deixa o coletivo e vai para a produtora Ealing, onde fica de 1940 a 1947. Lá, produziu 10 fitas, fez cenografias, roteiros e dirigiu, com altos e baixos, mais de 10 filmes, como Went the day well? (1942), Champagne Charlie (1944), Dead of Night (1945), The life and adventures of Nicholas Nickleby (1946). Depois de afastar-se da Ealing dirigiu mais 3 filmes: They made me a fugitive (1947), The first gentleman (1947) e For them that trespass (1948). Ingressou na Rank como produtor independente, mas nada deu certo e, em dificuldades, aceitou vir ao Brasil, iniciando o capítulo mais melancólico de sua carreira.
O Museu de Arte de São Paulo (MASP), constituído em 1947 por Assis Chateaubriand, proprietário dos Diários Associados, organizou em 1948 um Centro de Estudos Cinematográficos. Por iniciativa de artistas vinculados ao Teatro Brasileiro de Comédia (TBC, 1948) – fundado pelo industrial Franco Zampari – e de críticos, promoveu em 1949 um seminário de cinema. Por sugestão do crítico Almeida Salles, Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte Moderna (MASP), convida Cavalcanti para fazer conferências no seminário. Na época, Zampari, Ciccillo Matarazzo e um grupo que participa da fundação do MAM e do TBC criam a Cinematográfica Vera Cruz (novembro/1949). Almeida Salles sugere que Cavalcanti participe do empreendimento, sendo logo contratado como produtor geral.
Recebido com grande expectativa, ele se indispõe com os dirigentes da companhia, com os cineastas locais – traz dezenas de profissionais estrangeiros -, com as autoridades e os grã-finos. O conservadorismo paulista não digere sua homossexualidade. Supervisiona Caiçara (Adolfo Celi, 1950), primeiro longa-metragem da Vera Cruz, os documentários de Lima Barreto Painel (1951) e Santuário (1951). Mal avança com Terra é sempre terra (Abílio P. Almeida) e Ângela (A. P. Almeida e Tom Payne,1951) e o documentário Volta Redonda (John Waterhouse, 1952). Sai da empresa e, na Maristela, dirige Simão, o caolho (1952). Na Kino Filmes realiza O Canto do Mar (1953) e Mulher de Verdade (1954). Escreveu o livro Filme e realidade. Convidado por Getúlio Vargas, elabora o malogrado projeto do Instituto Nacional de Cinema. Cavalcanti deixa o Brasil em 1954 amargurado e com vários projetos frustrados.
Bibliografia
- CALDIERI, S. Alberto Cavalcanti o cinema do mundo. RJ: Editora Teatral, 2005.
CANUTO, R. E. Homem cinema: Alberto Cavalcanti. RJ: Oca Editorial, 2025.
CATANI, A. M. A aventura industrial do cinema paulista (1930-1955). In: RAMOS, F. (Org.) SP: Art Editora, 1987, p. 189-297.
______. A Sombra da Outra – A Cinematográfica Maristela e o cinema industrial paulista nos anos 50. SP: Panorama, 2002.
______. A Vera Cruz e os estúdios paulistas nos anos 1950. In: RAMOS, F. P.; SCHWARZSMAN, S. (Org.). Nova história do cinema brasileiro. SP: Edições Sesc São Paulo, 2018, p. 432-453.
CAVALCANTI, A. Filme e realidade. RJ: Embrafilme, 1977.
________. Um brasileiro cineasta do mundo. Cinemateca/MAM/SESC/MINC, catálogo, 2005.
GALVÃO, M. R. Burguesia e cinema: o caso Vera Cruz. RJ: Civilização Brasileira, 1981.
______. Companhia Cinematográfica Vera Cruz: a fábrica de sonhos. SP, FFLCH/USP, tese de doutorado, 1975.
VIANY, A. Introdução ao cinema brasileiro. RJ: INL, 1959.