Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Guilherme Augusto Bonini (UNIARA)

Minicurrículo

    Doutor em Estudos Literários (UNESP – FCLAr) e mestre em Imagem e Som (UFSCar). Diretor, roteirista e montador na produtora independente Bonini Filmes. Atua no cruzamento entre cinema, videoarte, teatro e fotografia, com obras premiadas e exibidas no Brasil, Europa, Ásia e Estados Unidos.

Ficha do Trabalho

Título

    Fins de narrativa, mundos em processo: a crise e a reinvenção do curta O meu limite é o seu sorriso.

Resumo

    Este trabalho investiga o processo de criação do curta-metragem de ficção O meu limite é o seu sorriso (2025), realizado em Araraquara, sob a ótica da pesquisa-criação. Analisa-se como uma crise severa no set colapsou a estrutura narrativa original, demandando uma reinvenção ética e estética. O estudo propõe que o erro e a interrupção não constituem falhas, mas forças que inauguram ‘mundos sem fim’, deslocando o filme do domínio autoral para um regime de silêncios, frestas e sensibilidades.

Resumo expandido

    Este trabalho investiga um processo singular de criação cinematográfica no qual uma crise ocorrida durante as filmagens do curta-metragem de ficção O meu limite é o seu sorriso provocou a interrupção do projeto narrativo originalmente concebido, exigindo sua reformulação radical. Em vez de tratar esse acontecimento como um desvio ou problema de produção, a pesquisa o compreende como um evento estético, ético e epistemológico, no qual o colapso de um mundo narrativo inaugura a possibilidade de outro.
    A análise parte da compreensão do cinema como processo aberto, instável e relacional, conforme propõe Consuelo Lins, para quem o filme não se define apenas pelo resultado final, mas pelo conjunto de forças que o atravessam ao longo de sua feitura (LINS, 2019). Nesse sentido, a crise vivida no set é tomada como um momento de suspensão que expõe os limites do controle autoral e desloca a criação para um regime de escuta, negociação e reinvenção.
    O estudo dialoga também com a noção de tradução enquanto gesto de sobrevivência da obra, formulada por Walter Benjamin. Para o autor, a tradução não preserva o original, mas assegura sua continuidade em outra forma, permitindo que ele se transforme e se prolongue no tempo (BENJAMIN, 2018). Transposta para o campo cinematográfico, essa perspectiva possibilita pensar a mudança narrativa não como perda, mas como sobrevida do filme em um novo regime de sentido, engendrado a partir da impossibilidade de seguir o projeto inicial.
    A reflexão ética do trabalho se ancora em Ariella Azoulay, especialmente em sua crítica à separação moderna entre sujeito e objeto e à lógica imperial que sustenta essa divisão (AZOULAY, 2024). Ao reconhecer que crises, memórias e apagamentos fazem parte de uma herança compartilhada, o processo criativo passa a ser compreendido como espaço de corresponsabilidade entre cineasta, elenco, equipe e material fílmico. Nesse contexto, a decisão de reformular a narrativa emerge não como solução técnica, mas como gesto ético diante da fragilidade dos corpos e das relações em cena.
    Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa e autoetnográfica, articulando a análise de versões do roteiro, anotações de produção e reflexões críticas sobre o processo de filmagem interrompido e posteriormente reconfigurado. A comparação entre o projeto abortado e o filme reelaborado permite mapear os deslocamentos narrativos, formais e afetivos que emergem quando o cinema se vê forçado a abandonar a lógica da finalidade e do domínio.
    A análise proposta sustenta que o filme resultante não se afirma apesar da crise, mas através dela, ao incorporar formalmente as marcas de sua própria impossibilidade. A comparação entre trechos do roteiro original, as cenas construídas em regime de improviso e as escolhas da montagem final revela um deslocamento significativo: do drama sustentado pelo diálogo para uma atmosfera de suspensão, silêncio e rarefação narrativa. Esse movimento não representa abandono do projeto inicial, mas sua transformação, na medida em que o processo criativo se reconfigura diante do imprevisto. À luz da noção de criação como “rede de tensões” (SALLES, 2006), compreende-se que erro, interrupção e fragilidade não constituem falhas a serem eliminadas, mas forças estruturantes do fazer artístico. A obra que emerge desse processo preserva as camadas do que não pôde se realizar plenamente, convertendo a interrupção em princípio estético e recusando a imaginação apocalíptica da paralisação definitiva. O filme passa, assim, a existir como objeto vivo e pulsante, cuja potência reside precisamente na abertura às contingências e na metamorfose de seus próprios limites.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. Trad. Célia Euvaldo. São Paulo: Ubu, 2024.
    BENJAMIN, W. Linguagem, tradução, literatura (filosofia, teoria e crítica). Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2018.
    BONINI, Guilherme. O meu limite é o seu sorriso: Roteiro oficial. Araraquara, São Paulo: Guilherme Bonini, 2025.
    LINS, Consuelo. Cao Guimarães: arte documentário ficção. Rio de Janeiro: 7Letras, 2019.
    O MEU LIMITE É O SEU SORRISO. Direção: Guilherme Bonini. Brasil, 2025. 1 filme (15 min), DCP, cor, Dolby digital 5.1.
    SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 2004.
    SALLES, Cecília Almeida. Redes da criação: construção da obra de arte. Vinhedo-SP: Editora Horizonte, 2006.