Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    PEDRO ARTUR BAPTISTA LAURIA (UFF)

Minicurrículo

    Pedro Lauria é Doutor em Cinema e Audiovisual (UFF), Mestre em Comunicação Social (UFRJ) e graduado em Geografia (PUC-Rio). É atualmente um dos coordenadores do ST de Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual na Socine. Autor de “O Subúrbio e o Suburbanismo Fantástico Hollywoodiano” lançado em 2025. Foi professor substituto de Narrativas e Laboratório de Roteiro na UFF em 2023 e deu aulas de Roteiro em 2024. É também roteirista e diretor.

Ficha do Trabalho

Título

    O Suburbanismo Fantástico vai ao Espaço! Uma análise de Star Wars: Skeleton Crew

Seminário

    Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual

Resumo

    A presente comunicação tem como objetivo discutir a série Star Wars: Skeleton Crew quanto obra exemplar do ciclo reflexivo do suburbanismo fantástico, e suas repercussões semânticas, sintáticas e extratextuais – principalmente no que se diz a imagem da classe média estadunidense. Ao deslocar a narrativa clássica do subgênero de um subúrbio para um planeta isolado, a série reinscreve imaginários sobre esse local, articulando nostalgia pelos anos 1980 com a atualização do “Sonho Americano”.

Resumo expandido

    A presente comunicação tem como objetivo discutir a série Star Wars: Skeleton Crew como um híbrido de suburbanismo fantástico e space opera, e suas implicações semânticas, sintáticas e extratextuais – principalmente no que se diz a imagem dos subúrbios e da classe média estadunidense. Skeleton Crew é uma série estadunidense de aventura espacial lançada em dezembro de 2024 para o serviço de streaming Disney+. Parte do mundo de Star Wars, a série se destaca por apostar em uma narrativa de menor escala, desvinculada dos grandes acontecimentos usuais da franquia criada pro George Lucas. Nela, quatro crianças moradoras de um isolado planeta se perdem no espaço, após se aventurar, por engano, em uma nave espacial desativada. Por conta de sua narrativa de aventura, protagonizada por crianças e atmosfera lúdica e nostálgica, a série é constantemente comparada com Os Goonies (Richard Donner, 1985) e as obras da Amblin produzidas na década de 1980. Essas proximidades inclusive foram ressaltadas durante sua divulgação, com entrevistas, trailers e posters que fazia referências às essas produções.
    Por conta dessas características, Skeleton Crew se posiciona dentro de um ciclo de produções para cinema e para streaming ao qual Angus McFadzean chama de Suburbanismo Fantástico Reflexivo. Segundo o pesquisador, são uma série de “pastiches autoconscientes” do suburbanismo fantástico da década de 1980, e que fazem referência a sua história, ao mesmo tempo que adaptam o subgênero em resposta para uma nova realidade social, política, tecnológica e demográfica (2019, p.3-4) como Super 8 (J. J. Abrams, 2011) e Stranger Things (Irmãos Duffer, 2016-2025). O suburbanismo fantástico, por sua vez, é um subgênero que começa a aparecer nos anos 1980, “onde crianças e adolescentes que vivem no subúrbio são chamados para confrontar uma força fantástico e disruptiva” (p.1).
    Skeleton Crew se configura como um interessante objeto de análise por trazer inovações e tensionamentos para o subgênero, ao mesclar sua estrutura genérica com outro subgênero extremamente popular da década de 1980: a fantasia espacial, ou space opera (Sawyer, 2009, p.505). Primeiro por reiterar a característica do suburbanismo fantástico de importar elementos de outros gêneros para construir seu próprio arcabouço semântico e estético (Lauria, 2025, p.381), agora em um novo subgênero. Segundo por potencializar as implicações nostálgicas do subgênero ao se desenvolver dentro de uma franquia de grande base de fãs. Em outras palavras, crianças da década de 1980 que sonhavam em ser guerreiros Jedis, hoje, adultas, tem em Skeleton Crew uma narrativa que remonta a perspectiva infantil que tinham daquele mundo.
    Mais interessante, porém, é pensar nos desdobramentos semânticos e sintáticos produzidos por esse amálgama entre subgêneros. Isso porque o suburbanismo fantástico normalmente traz como cenário central, as small towns e subúrbios estadunidenses. Ao levar sua narrativa para o “planeta suburbano” de At Attin a série reproduz e normatiza características atribuídas a classe média suburbana dos Estados Unidos como a nuclearização familiar, a massificação pelo consumo, branquitude, o isolacionismo classista, os papéis de gênero, etc. A principal característica de At Attin, por exemplo, é o fato dela permanecer escondida e isolada de outros planetas da galáxia. Assim, sua designação dentro do lore da série como um “lendário planeta-tesouro” também traz inflexões sobre a ideia dos subúrbios como materialização do “Sonho Americano”.
    Diante de tais pontuações, Skeleton Crew revela-se como um importante objeto para pensar não apenas as questões nostálgicas e autorreferenciais da cultura midiática contemporânea dos Estados Unidos, como também a atualização do imaginário suburbano e da classe média do país.

Bibliografia

    ALTMAN, Rick. Film/Genre. London: British Film Institute, 1999.
    BAXANDALL, Rosalyn; EWEN, Elizabeth. Picture Windows: How the Suburbs Happened. New York: Basic Books, 2000
    BRITTON, Andrew. Blissing out: the politics of Reaganite entertainment, Movie 3(4), 1-52. 1986
    CROSS, Gary. Consumed nostalgia. Memory in the Age of Fast Capitalism. Columbia University Press, New York. 2015
    LAURIA, Pedro. O Subúrbio e o Suburbanismo Fantástico Hollywoodiano. Rio de Janeiro: Nau, 2025
    McFADZEAN, Angus. Suburban Fantastic Cinema: Growing Up in the Late Twentieth Century. Wallflower Press. Columbia Univesity, NY. 2019
    SAWYER, Andy. Space Opera. In: BOULD, Mark; BUTLER, Andrew M.; ROBERTS, Adam; VINT, Sherryl (eds.). The Routledge Companion to Science Fiction. Abingdon; New York: Routledge, 2009. p. 505-509.
    SIROTA, David. Back to Our Future: How the 1980s Explain the World We Live in Now—Our Culture, Our Politics, Our Everything. New York: Ballantine Books, 2011