Ficha do Proponente
Proponente
- LOUISE LIMA STORNI ROCHA (UERJ)
Minicurrículo
- Cientista social formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Doutoranda no Programa de Políticas Públicas e Formação Humana (PPFH) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com bolsa do Programa Nota 10 da FAPERJ. Mestra em Políticas Públicas e Direitos Humanos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Possui pós-graduação em Sociologia Urbana pela UERJ e especialização em Gênero e Sexualidade pelo Centro Latino-Americano em Sexualidade e Direitos Humanos (CLAM/UERJ).
Ficha do Trabalho
Título
- Aleijando a norma: desejo, corpo e política Crip-Queer
Resumo
- Este ensaio investiga a representação artística da deficiência a partir dos estudos críticos da deficiência, articulando-a às lutas políticas e à contestação de imagens estigmatizantes. Ao afirmar a autorrepresentação, as produções crip-queer no cinema e na performance colocam a deficiência em presença política, desejante e disruptiva, reconhecendo o corpo como força crítica capaz de deslocar subjetividades para além de dicotomias simplistas, como normalidade/deficiência e tragédia/superação.
Resumo expandido
- A representação artística da deficiência, no âmbito dos estudos críticos da deficiência, emerge das lutas políticas e da crítica às formas tradicionais de representação que produziram imagens moralizantes ou desumanizantes. Em contraposição, esses estudos afirmam a autorrepresentação como estratégia estética e política capaz de tensionar os regimes normativos de visibilidade.
Essa crítica ultrapassa a oposição entre imagens “positivas” e “negativas” e incide sobre os próprios modos de olhar. O olhar dirigido à deficiência é atravessado por ambivalências- curiosidade, fascínio, desconforto- que frequentemente resultam em olhares desviados ou interrompidos, inviabilizando o reconhecimento mútuo.
No cinema, Norden (1994) identifica a recorrência do que denomina “cinema do isolamento”, no qual personagens com deficiência são sistematicamente representados como figuras isoladas social, afetiva ou narrativamente. Garland-Thomson (1997) complementa essa análise ao mapear modos de olhar recorrentes: o maravilhoso, o sentimental, o exótico e o realista, destacando este último como o menos estigmatizante por sua proximidade com experiências vividas e narrativas autobiográficas.
Nesse contexto, ganha relevo a noção de estética da deficiência, segundo a qual a deficiência integra de forma constitutiva a tradição estética. Ao questionar a centralidade do corpo saudável como parâmetro exclusivo de beleza, harmonia e integridade, evidencia-se que a deficiência não esteve ausente da história da arte, mas teve sua influência frequentemente invisibilizada. Ao operar como estrutura crítica e como valor estético em si, a deficiência amplia os critérios artísticos, cuja rejeição tende a empobrecer as possibilidades de criação e julgamento estético, uma vez que muitas obras reconhecidas como esteticamente relevantes incorporam justamente formas de estranheza, ruptura e desvio (SIEBERS, 2010).
No audiovisual, essas disputas se materializam em diferentes núcleos narrativos, identificados por Ana Gilbert (2017) como: o núcleo médico, orientado pelo diagnóstico e pela intervenção; o núcleo da superação, ligado ao modelo social, mas frequentemente ainda normativo; e o núcleo da corporeidade, alinhado aos estudos críticos, que recoloca a materialidade dos corpos no centro da narrativa e afirma a deficiência como presença disruptiva.
Produções crip-queer, especialmente performances autobiográficas, articulam corpo, sexualidade e política como prática estética e ativista. Artistas norte americanos como Bob Flanagan e do coletivo Sins Invalid, exemplificam esse movimento ao colocar seus corpos no centro da criação.
No Brasil contemporâneo, artistas com deficiência que se autoidentificam como “defs, defiças, crips ou aleijados” vêm consolidando uma estética crip/aleijada nas artes cênicas e no audiovisual, visível em documentários como “Transo” e “Assexybilidade”, e na peça “Meu Corpo está aqui”, que produzem novas narrativas sobre desejo, prazer e autonomia.
Essas obras ao recusarem narrativas de superação ou tragédia e articularem seus corpos a outros marcadores sociais, reinscrevem a deficiência como presença desejante e irônica, desafiando os regimes normativos do olhar (Sandahl, 2003; Garland-Thomson, 1997; McRuer, 2024).
Esse gesto se articula ainda à ressignificação contemporânea da figura do monstro como potências políticas e epistemológicas. Em diálogo com formulações de autores como Preciado (2022) e Susan Sontag (1964), essas produções mobilizam o exagero, a ironia, o artifício e o erotismo como estratégias de enfrentamento.
Nessa direção, a representação artística da deficiência, quando orientada por uma estética crítica, não dilui a diferença em nome de uma inclusão abstrata. Ao contrário, aposta na potência material do incômodo e das fissuras, abrindo espaço para múltiplos modos de existência e subjetividades que escapam a lógicas binárias simplistas.
Bibliografia
- GARLAND-THOMSON, Rosemarie. Extraordinary bodies: figuring physical disability in American culture and literature. New York: Columbia University Press, 1997.
GILBERT, A. C. B.. (2017). Narrativas sobre síndrome de Down no Festival Internacional de Filmes sobre Deficiência Assim Vivemos. Interface – Comunicação, Saúde, Educação, 21(60), 111–121.
NORDEN, Martin F. The cinema of isolation: a history of physical disability in the movies. New Brunswick: Rutgers University Press, 1994.
PRECIADO, B. Paul. Eu sou o monstro que vos fala: Relatório para uma academia de psicanalistas.. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2022.
SANDAHL, Carrie. Queering the Crip or Cripping the Queer? Intersections of Queer and Crip Identities in Solo Autobiographical Performance. GLQ: A Journal of Lesbian and Gay Studies, v. 9, n. 1–2, p. 25–56, 2003.
SIEBERS, Tobin. Disability aesthetics. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2010;
SONTAG, Susan. Notas sobre o ‘Camp’.São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 271