Ficha do Proponente
Proponente
- Benedito Ferreira dos Santos Neto (NIDAA)
Minicurrículo
- Benedito Ferreira é artista visual, diretor de arte e pesquisador. Doutor em Artes pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Integra o Núcleo de Investigação em Direção de Arte Audiovisual (UFPE/CNPq) e é autor de Agora e Pouco Antes: direção de arte e cinema brasileiro. Sua pesquisa investiga a multiplicidade das visualidades da cena, as poéticas artísticas e suas relações com a arte contemporânea.
Ficha do Trabalho
Título
- Habitar o plano-sequência: direção de arte como prática coreográfica
Seminário
- Estética e Teoria da Direção de Arte Audiovisual
Resumo
- Esta comunicação propõe uma reflexão sobre o plano-sequência como estratégia de afirmação da direção de arte em sua dimensão processual. A continuidade espaço-temporal convoca uma prática coreográfica, orientada pela permanência dos corpos, pela reiteração dos ambientes e pela atenção às minúcias da matéria. Em exemplos do cinema brasileiro desde 2001, o espaço cênico surge como construção em curso, revelada na duração e na experiência partilhada entre corpos, câmera e ambiente.
Resumo expandido
- A associação sedimentada entre direção de arte e composição do quadro fixo, ancorada na tradição da frontalidade, na perspectiva da caixa cênica italiana e nos efeitos ilusionistas do trompe-l’œil, revela os limites de uma compreensão que a reduz à organização da imagem. Trata-se de um regime de visualidade que privilegia a estabilidade e a ilusão de profundidade, subordinando o espaço a uma ordem pictórica. Em contraposição, o plano-sequência opera como dispositivo que desloca essa centralidade ao inscrever a cena na duração e na continuidade espaço-temporal. A direção de arte passa, então, a ser pensada como prática coreográfica, implicada na circulação dos corpos, na reiteração dos ambientes e na ativação das qualidades materiais do espaço, que se atualizam ao longo do tempo da cena.
Sem a possibilidade de fragmentação do espaço pelo corte, a cenografia deixa de operar como fundo ou “ambientação” e passa a atuar como arquitetura, como “esqueleto” da ação. A organização dos cenários e das paisagens, a disposição dos objetos cênicos, a definição dos percursos e a articulação entre áreas visíveis e fora de campo tornam-se decisivas para a sustentação dramática. Emerge uma direção de arte de natureza dançante, que extrapola a rigidez do quadro e se constitui em diálogo direto com o movimento dos corpos e da câmera, aspecto que integra a própria ontologia da função. Como componente coreográfico da encenação, a direção de arte concebe o espaço como campo ativo de relações que se atualizam ao longo da duração do plano.
Em diferentes momentos do cinema brasileiro, o plano-sequência revela o espaço como matéria viva da encenação, implicando diretamente a direção de arte. Ainda que o procedimento atravesse diversos momentos do cinema, a análise concentra-se em obras realizadas a partir de 2001, como Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001), Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002), O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006), Chega de Saudade (Laís Bodanzky, 2008), Marte Um (Gabriel Martins, 2022) e Cervejas no Escuro (Tiago A. Neves, 2023). Heterogêneas em suas propostas estéticas, as obras evidenciam como a continuidade espaço-temporal reforça a direção de arte como pensamento indissociável da encenação. Nelas, a cena deixa de ser construída apenas para ser vista e passa a ser habitada: o espaço cênico se define pela permanência dos personagens, pela reiteração dos ambientes e pela experiência do tempo compartilhado entre personagens e espectador.
Nessas condições, o que está em jogo não é apenas a composição de um quadro estável, mas a construção de um ambiente que precisa resistir ao tempo, aos movimentos da câmera e à circulação de corpos. Configura-se, assim, uma prática que se estende para além do visível imediato, articulando continuidades, bordas e fora de campo, afirmando-se como dimensão ativa da encenação. O plano-sequência implica ainda uma ética da atenção que atravessa diretamente o trabalho da direção de arte, ao expor as minúcias do espaço, as irregularidades da matéria e os tempos mortos da ação. A direção de arte passa a lidar com o espaço como processo, e não como imagem acabada, acolhendo o banal, o residual e o imperfeito como elementos constitutivos da experiência narrativa.
Bibliografia
- BORDWELL, David. Figuras Traçadas na luz: a encenação no cinema. Campinas: Papirus, 2008.
FERREIRA, Benedito. Agora e Pouco Antes: Direção de Arte e Cinema Brasileiro. Goiânia: Rebellium Coletiva, 2025.
LEPECKI, André. Of The Presence of The Body: essays on dance and performance theory. Middletown, Connecticut: Wesleyan University Press, 2004.
PINE, Adam; KUHLKE, Olaf (orgs.). Geographies of dance: body, movement, and corporeal negotiations. Lanham: Lexington Books, 2015.
YATES, Steve (org.). Poéticas del espacio. Barcelona: Gustavo Gili, 2002.