Ficha do Proponente
Proponente
- Frederico Franco (UFRGS)
Minicurrículo
- Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais (PPGAV) da Universidade Federal do Rio Grande do Sol (UFRGS), com pesquisa voltada para as experiências marginais de Torquato Neto e Hélio Oiticica entre a poesia, o cinema experimental e as artes visuais.. Mestre em Cinema e Artes do Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR). Graduado em Realização Audiovisual pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS). Crítico de cinema desde 2020.
Ficha do Trabalho
Título
- Nosferato no Brasil: poema de figurantes, entre a curtição e a violência
Resumo
- O presente trabalho se trata de uma análise de Nosferato no Brasil, de Ivan Cardoso, como uma forma específica de cinema de poesia em um contexto de marginália e ditadura, destacando especificamente o papel dos figurantes no filme. O objetivo central, aqui, é compreender como esses corpos anônimos atravessados pela figura do vampiro, funcionam como um retrato específico da juventude brasileira dos anos de chumbo da ditadura militar, transitando entre a curtição individual e a cólera coletiva.
Resumo expandido
- Em 1971, o cineasta Ivan Cardoso organizou uma sessão privada para a exibição de suas mais novas produções audiovisuais, um evento que contou com a presença de importantes artistas e experimentadores culturais do Brasil. Entre os três filmes exibidos, estava Nosferato no Brasil, uma livre adaptação do clássico monstro vampiresco do expressionismo alemão dos anos 1920. Protagonizado por Torquato Neto, o curta-metragem é uma adaptação paródica do filme de F. W. Murnau, apresentando Nosferatu em uma pitoresca aventura por cenários tropicais do Rio de Janeiro.
Ivan Cardoso constrói uma obra lacunar e, de certo modo, pouco preocupada com desenvolvimentos narrativos complexos, apostando em qualidades desprendidas de arestas tradicionais e hegemônicas. A partir de imagens cotidianas, uma montagem errática e uma mise en scène ao melhor estilo amador, o diretor constrói uma variação do propósito do “cinema de poesia”, de Pier Paolo Pasolini (1982), adaptado ao contexto da contracultura brasileira – faz-se referência o movimento da poesia marginal, capaz de transformar situações banais em uma estranha colagem repleta de riso, choque e erotismo.
Após o lançamento do filme, o vampiro de Torquato Neto acabou se tornando um símbolo do movimento contracultural do país. Contudo, o objetivo deste trabalho é dar atenção aos personagens que estão à margem do protagonista: as figurantes. A partir das noções desenvolvidas por Didi-Huberman (2014), em texto sobre a obra de Pasolini, busca-se compreender de que modo essas personagens, mulheres anônimas e vítimas de Nosferatu, atuam enquanto figuras políticas dentro do contexto da marginália brasileira, figurando uma parcela da juventude do Brasil em uma relação paradoxal com a curtição e a violência do turbulento período enfrentado.
Em um primeiro momento, as jovens sem nome são filmadas em situações cotidianas, tirando proveito das praias cariocas e das belezas naturais; esse encanto com o banal é típico da atitude da curtição do “aqui e do agora”, como nota Favaretto (2019). A vida das figurantes, então, é atravessada pela presença insólita do vampiro que caminha à luz do dia – tornam-se, portanto, agentes passivos, vítimas de uma violência maior que não conseguem controlar. As cenas de ataque vampiresco apresentam uma espécie de ambivalência: enquanto seu sangue é sugado por Nosferatu, as mulheres expressam algo entre o prazer e a dor, entre sorrisos e medo, em uma tradicional dança que exprime de modo claro a dinâmica entre o vampiro e suas vítimas. Contudo, no decorrer do filme, é introduzida uma outra característica fundamental desse jogo vampiresco, segundo Cámara (2014): a ideia de contágio. As figurantes, interpretadas primeiramente como figuras assoladas por uma instância incontrolável, desenvolvem-se como algozes. Contaminadas pelo germe vampírico, as jovens, agora, vão em busca de homens anônimos para servirem como alimento para eles e para seu mestre, Nosferatu.
Essa complexa dinâmica entre gozo e violência evidencia que o filme-poema de Ivan Cardoso opera como uma construção simbólica de um período histórico permeado por instantes individuais de extremo prazer e por uma violenta repressão política. Por meio de tais pressupostos, esta comunicação propõe uma interpretação de Nosferato no Brasil como um “poema de figurantes”, uma obra sobre corpos anônimos, gestos inúteis e uma estranha violência prazerosa: uma composição contracultural que afirma o prazer e a invenção enquanto elementos de resistência política.
Bibliografia
- CÁMARA, Mario. Corpos pagãos: usos e figurações na cultura brasileira. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Pueblos expuestos, pueblos figurantes. 1ª ed. Buenos Aires: Manantial, 2014.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Remontagens do tempo sofrido: o Olho da História, II. 1ª ed. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
FAVARETTO, Celso. A contracultura entre a curtição e o experimental. 1ª ed. São Paulo: N-1 Edições, 2019.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org). 26 poetas hoje: antologia (1976). 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
HOLLANDA, Heloisa Buarque de. Impressões de viagem: CPC, vanguarda e desbunde: 1960/1970. 1ª ed. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004.
LEMINSKI, Paulo. Ensaios e anseios crípticos. 2ª ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2012.
PASOLINI, Pier Paolo. O cinema de poesia. In: PASOLINI, Pier Paolo. Empirismo hereje. 1ª ed. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982.
RANCIÈRE, Jacques. Figuras da história. 1ª ed. São Paulo: Editora Unesp, 2018.