Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Victor Cardozo Barbosa (UNICAMP)

Minicurrículo

    Victor Cardozo Barbosa é mestrando do Programa de Pós-Graduação em Multimeios, no Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal de Sergipe em 2019 com a monografia intitulada “A Ironia Sacramental nos Melodramas de Douglas Sirk”.

Ficha do Trabalho

Título

    Os padrões de intenção incorporados ao ensaístico em Welles

Formato

    Presencial

Resumo

    Este trabalho propõe uma análise comparativa entre os filmes ensaísticos de Orson Welles, F for Fake (1972) e Filming Othello (1978), tendo como ponto de partida domínio do filme-ensaio (Teixeira, 2015) e a incorporação dos padrões de intenção (Baxandall, 2006) para compreender como ele se vale das possibilidades e fragmentos de sua própria obra anterior para reconfigurá-la no domínio ensaístico.

Resumo expandido

    O filme-ensaio constrói suas fundações sobre terreno pantanoso, perenemente privado de uma forma fixa e unívoca. O problema da expressão do pensamento, anunciado como vocação no horizonte do cinema por Astruc em seu célebre libelo pela caméra stylo (2012), é possivelmente sua força-motriz, mas não seu limite: não se trata apenas de que o pensamento do autor meramente encontre sua expressão pela forma mas que esse pensamento seja também desenvolvido através dela, atendendo à máxima godardiana de ser “uma forma que pensa”.
    Dentro da errática obra de Orson Welles, não é preciso ir muito longe para justificar o pertencimento de seus filmes mais inclinados à expressão de um pensamento pela forma, F for Fake (1973) e Filming Othello (1978), dentro da linhagem ensaística no cinema. Certamente não há dúvida de que ambos se dediquem a tal expressão com a coordenação de todos os recursos à disposição da forma cinematográfica, sobretudo a montagem. São ademais obras que não poderiam caber em outro lugar, uma vez que não se limitam a serem filmes de ficção, documentais ou experimentais embora incorporem fragmentos desses três domínios “clássicos” do cinema que antecedem o domínio do filme-ensaio (Teixeira, 2015). Sobretudo, ambos os filmes, ainda que cada um o faça de maneira distinta, caminham sob a estrela da “lei mais profunda” do ensaio (Adorno, 2012): a heresia. Cada um impõe para si mesmo regras que são prontamente descumpridas e cada domínio dado como reconhecível de início sofre a intrusão de um outro, tendo o raciocínio do autor como único fio de unidade.
    Pretende-se aqui uma análise comparativa de F for Fake e Filming Othello, tendo como ponto de partida a maneira como os padrões de intenção presentes no processo de criação de maneira geral (Baxandall, 2006) são incorporados dentro do percurso ensaístico que os constitui.
    No corpo a corpo com a obra fílmica, mesmo que se possa atribuir unidade dentro dessa pressuposta predominância do raciocínio do cineasta, o caminho no filme ensaio permanece, por definição errático: a digressão é uma recorrência fundamental. Mas suas duas maiores incursões sobre o domínio ensaístico não se contentam em transitar pelos temas que são escolhidos como mote e ponto de partida de cada um. São também oportunidades para retomar e refazer obras passadas (fragmentos de filmes inacabados e mesmo projetos nunca iniciados em F for Fake; o Othello de 51 e as incontáveis versões interditadas do mesmo em Filming Othello).
    A proposta de Welles é de não apenas explorar os temas, expressar o pensamento pela forma fílmica, mas oferecer também as metamorfoses desse pensamento pela forma, os rascunhos do ensaísta: trazer à tona os padrões de intenção de um processo de criação perene que pensa a si mesmo através da forma. Eles são dispostos como um trajeto em paralelo com o pensamento ensaístico que perpassa o filme. O cineasta ensaísta radicaliza a lógica da “forma que pensa” fazendo-a voltar-se para si mesma incessantemente ao mesmo tempo em que desenvolve a expressão de um pensamento. Em ambos os casos, Welles examina sua própria obra com um olhar de arqueólogo das contingências de seu processo de criação e dos caminhos não tomados, vendo as diversas camadas de tempo sobrepostas em sua vida e obra. No entanto, sua preocupação está muito mais em continuar se valendo de tais “camadas” como matéria prima para transfigurar efetivamente as obras e os tempos passados numa nova obra que faz coincidir o tempo presente do ato de criar com o tempo presente do olhar do espectador no seu momento de imersão no filme.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. O ensaio como forma. in ADORNO, Theodor W. Notas de literatura I. 2ª edição. São Paulo: Editora 34, 2012.
    ASTRUC, Alexandre. Nascimento de uma vanguarda: a caméra stylo. In ANDRADE, Bruno. BAPTISTA, Lucas, CARTAXO, Matheus, (eds). Foco – Revista de Cinema. Ed. #4. Julho 2012. Disponível em http://www.focorevistadecinema.com.br/FOCO4/stylo.htm Acesso em: 29 mai. 2022.
    BAXANDALL, Michael. Padrões de intenção: a explicação histórica dos quadros. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
    CORRIGAN, Timothy. The Essay Film: From Montaigne, After Marker. [s.l.]: Oxford University Press, USA, 2011.
    TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. O Ensaio no Cinema: Formação de um quarto domínio das imagens na cultura audiovisual contemporânea. 1ª edição. São Paulo: Hucitec, 2015.