Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Raquel Cristina Ribeiro Pedroso (UNESP/UNIFESP)

Minicurrículo

    Doutora em Letras Literatura e Vida Social pela Universidade Estadual Paulista – UNESP (CNPq), com pesquisa na área de Estudos Culturais direcionada ao diálogo entre audiovisual e literatura.

Ficha do Trabalho

Título

    NEGATIVIDADE E HUMORISMO EM “BRÁS CUBAS”, DE JÚLIO BRESSANE

Formato

    Remoto

Resumo

    o presente trabalho propõe-se a promover um diálogo acerca da manifestação da negatividade, do humorismo e da composição poética da imagem elaborada por Júlio Bressane para o longa “Brás Cubas”, de 1985. Para tanto, pretende-se direcionar o olhar para os três planos que compreendem a negatividade, interligados nos modos: ético, temático e expressional, para alcançar motivos como a melancolia, o humorismo e a tessitura das imagens em cena.

Resumo expandido

    Considerando que o longa “Brás Cubas” (1985), de Júlio Bressane, tenha sido realizado a partir de uma transcriação das “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), de Machado de Assis, percebe-se a presença de motivos que materializam-se como melancolia, humorismo, ironia, negatividade e tantos outros dados da natureza humana elencados por Machado e traduzidos em cena por Bressane em meio a uma poética própria de um cinema de autor. Assim, o presente trabalho propõe-se a promover um diálogo acerca das manifestações da melancolia, do humorismo e da composição poética da imagem elaborada por Júlio Bressane; debruçando-se sobre os três planos que correspondem a negatividade, interligados nos modos: ético, temático e expressional.
    Com efeito, a negatividade encontra certa medida em categorias da vida cotidiana, na qual a natureza humana está sujeita a movimentos de dissonância da moralidade frente ao olhar do outro. Nesse sentido, Antonio Candido (2006) traduz a negatividade como uma postura de negação aos modelos instituídos e concepções hegemônicas, manifestando-se como uma atitude de insubmissão diante dos postulados artísticos e morais da modernidade. Para o crítico, o modo ético evidencia-se quando o espectador percebe que a arte nega a moralidade convencional. Nota-se o temático quando a arte é articulada sobre imagens e motivos que são o contrário, ou o avesso, das expectativas consideradas usuais. E o modo expressional manifesta-se na negação da lógica comum e do discurso completo.
    Em Brás Cubas Bressane apega-se à materialidade da linguagem transcriada e ao processo de recriação possível ao cinema pelo jogo de espelhos, que não se apega a duração temporal, mas, ao processo de composição da montagem. Em Fotodrama (2005, p. 11), Bressane ressalta que é nesse processo que se: […] desmascara a ilusão, mascarando outra ilusão, a do filme, que de fotograma a fotograma, grão a grão, em obsessão temporal infinita, nos acerca, com seus pontos de luz, de nosso corpo, deslocando-o”.
    A aparente desconexão entre as imagens ao longo do filme pode ser vista pelo ângulo do caótico ou do jocoso, assim como o fato de que desde as primeiras cenas o espectador encontra-se com um esqueleto, símbolo máximo da morte, na mesma unidade de recriação de uma música popular. Essa composição poética da imagem chama a atenção para o descompromisso com a coerência ou com o convencionalismo, dando sentido ao processo de negatividade e humorismo usados como estrutura de uma parte considerável da filmografia bressanina e, sobretudo, de Brás Cubas.

Bibliografia

    BERNADET, Jean Claude. Brás Cubas: reflexões sobre dois planos. Revista de Cinema, nº 34. Disponível em: http://imagemtempo.com.br/machadodeassis/artigo_jeanclaude.htm. Acesso em fevereiro de 2018.

    BRESSANE, Julio. Brás Cubas. Cinemancia. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

    BRESSANE, Julio. Brás Cubas. [Filme-vídeo]. Roteiro e direção de Julio Bressane. Embrafilme, Rio de Janeiro, Brasil, 1985. 1h33 min. color. son.

    CAMPOS, Haroldo de. Da tradução como criação e como crítica. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria e crítica literária. São Paulo: Perspectiva, 2013.

    CANDIDO, Antonio. Romantismo, negatividade, modernidade. Anuario del Colegio de Estudios Latinoamericanos. Universidad Nacional Autónoma de México. Vol. 01, 2006, p. 137-141.

    PIRANDELLO, Luigi. O Humorismo. Trad. Davi Macedo. São Paulo: Experimento, 1996.

    XAVIER, Ismail. O cinema marginal revisitado, ou o avesso dos anos 90. COHN, Sergio (org.). Cinema ensaios fundamentais. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2011.