Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Cristiane Moreira Ventura (IFG)

Minicurrículo

    Cristiane Moreira Ventura é professora no Instituto Federal de Goiás (IFG), Câmpus Cidade de Goiás, docente do Bacharelado em Cinema e Audiovisual, doutoranda em Performances Culturais (UFG), mestre em Estudos de Linguagens (CEFET-MG), bacharel em Letras (UFMG). Realizadora audiovisual, pesquisa e desenvolve trabalhos de cinema expandido e documentário.

Ficha do Trabalho

Título

    A poética do filme híbrido: métodos e ritualidades

Seminário

    Teoria de Cineastas

Formato

    Presencial

Resumo

    Investigamos o processo de criação e produção de filmes híbridos (documentários ficcionais), por meio de etnografias de sets de filmagens e entrevistas com diretores e sua equipe, objetivamos entender as ritualidades, as estratégias criativas adotadas pelos diretores. Partindo da ideia de que a realização cinematográfica produz e reproduz conhecimento, pretendemos compreender como o acúmulo das experiências, esboça um modus operandi comum ou uma autoria.

Resumo expandido

    Na última década, temos acompanhado a emergência de uma cinematografia brasileira, a qual se utiliza em sua estratégia de realização da performance do ator-personagem e suas histórias de vida na construção de uma narrativa híbrida, que numa perspectiva decolonial rompe com classificações fixas e binárias. Um filme pode ser ficção e documentário, há uma coexistência de gêneros habitando o mesmo corpo fílmico. Os filmes híbridos transgridem os parâmetros da colonialidade, transitam nas encruzilhadas instaurando práticas e entendimentos de um fazer cinematográfico em trânsito. Muitos desses filmes são construídos a partir de personagens reais que performam situações que lhe são próprias ou próximas ao seu cotidiano, juntamente com situações ficcionais. Tais procedimentos tem se tornado recorrente no cinema brasileiro independente e pós-industrial.
    Observando esse fenômeno, indagamos: a presença desses atores-personagens nos filmes provocariam uma série de transformações, tanto nos próprios atores-personagens, quanto nas estruturas narrativas, nos modos de produção cinematográfica e principalmente nas formas de realização do documentário contemporâneo? Assim, ao examinarmos a realização cinematográfica enquanto rito, com fins metodológicos, buscamos compreender tanto as transformações que envolvem o ator-personagem que se “inicia” no meio cinematográfico enquanto executa sua performance para a câmera, quanto às transformações provocadas pela presença do ator-personagem promovendo rupturas nas ritualidades da realização cinematográfica.
    Para compreendermos os métodos e processos de realização dos cineastas que se enveredam pela narrativa híbrida, realizamos uma série de entrevistas com diretores que criaram narrativas cinematográficas a partir de personagens e lugares reais, fabulando-os com elementos da ficcionalidade, entrevistando: Adirley Queiroz, André Novais, Affonso Uchoa, Bruno Risas, Juliana Antunes e Henrique Borela. Entrevistamos também os atores-personagens e membros da equipe técnica dos filmes de tais diretores. Com a finalidade de compreender a poética cinematográfica, realizamos etnografias de dois sets de filmagem, um curta-metragem ficcional intitulado “Bola da Vez” com roteiro e direção de Elder Patrick, e um longa-metragem híbrido intitulado “Cambaúba” com direção de Cris Ventura (autora desta pesquisa), ambos realizado na cidade de Goiás.

    Analisamos que parte desses processos de realização dependem do tipo de relação que se tem com quem é filmado, bem como com o território que se filma. Nossa pesquisa ainda em andamento, pretende ao final refletir em torno de algumas questões como: É possível esboçarmos um modus operandi comum de criação e produção desses filmes? Como é o trabalho do diretor na criação das automise-en-scène? Essas formas de realização seriam traços autorais de alguns diretores ou de uma comunidade cinematográfica? É possível aprender e ensinar essa forma de realização? Os editais de fomento podem levar em consideração as particularidades da realização híbrida?

Bibliografia

    ARAÚJO, A. A encenação performativa. In Sala Preta Revista de Artes Cênicas. n.8 São Paulo, 2009.
    AUMONT, Jacques. As teorias dos cineastas. Campinas, SP: Papirus, 2004.
    AUMONT, Jacques. O cinema e a encenação. Lisboa: Edições Texto & Grafia, 2008.
    GÉRARD, Valérie. Por afinidades: amizade e coexistência. Belo Horizonte: Quixote+Do, 2021.
    MAUSS, Marcel. Esboço de uma teoria geral da magia. In: Sociologia e Antropologia. São Paulo: Cosac & Naif, 1950, 2003.
    OLIVEIRA, André Novais. Roteiro e diário de um filme chamado Temporada. Belo Horizonte: Javali, 2021.
    PEREIRA, Carmela Morena Zigoni. Antropologia do set: corpos estendidos e conectivos na produção cinematográfica. Tese de doutorado, Universidade de Brasília, Departamento de Antropologia, 2013.
    PESSUTO, K.. O ‘espelho mágico’ do cinema iraniano: uma análise das performances dos “não” atores nos filmes de arte. Dissertação de mestrado, Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Artes, 2011.