Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Mauro Baptista (UNESPAR)

Minicurrículo

    Mauro Baptista Vedia (Doutor pela ECA/USP), é professor de Direção de Atores, Direção e Realização no curso de Cinema e Audiovisual da Universidade do Estado do Paraná. Cineasta, dramaturgo, diretor de teatro e ocasional ator, escreveu o livro O cinema de Quentin Tarantino (Papirus, 2010) e organizou, com Fernando Mascarello, o livro Cinema Mundial Contemporâneo. Como cineasta, realizou os longas-metragens Jardim Europa, o telefilme A performance e o doc ensaio Ariel, entre outros.

Ficha do Trabalho

Título

    Clint Eastwood e seu estilo como ator: ligações com o autor Eastwood

Formato

    Presencial

Resumo

    A comunicação propõe uma reflexão sobre Clint Eastwood como ator e as relações com seu estilo como cineasta. Destaca a enorme influência do Sistema de Constantin Stalisnavsy e sua aplicação nos Estados Unidos através do Método de Lee Strassberg. Eastwood se filia de interpretação contrária ao Método, que tem suas raízes no cinema clássico americano e na escola do russo Michael Tchekov e seu conceito de Gesto Psicológico. O estilo pós-clássico do Eastwood é cotejado com o estilo dele como autor.

Resumo expandido

    A comunicação propõe uma reflexão sobre o trabalho de Clint Eastwood como ator, seu estilo de interpretação, e as relações com seu estilo como diretor/ cineasta/autor. Assim, realiza um breve panorama das tendencias dominantes de pensamento na interpretação cinematográfica, com destaque para a influência do Sistema de Constantin Stalisnavsy e sua aplicação nos Estados Unidos, diferenciando os ensinamentos do mestre russo da primeira fase, quando se enfatizavam conceitos como “memória emocional” e “memória sensorial”, com a segunda fase, quando o próprio Stalisnavsky renega desses conceitos e sublinha que seu método é fundamentalmente um método de ações físicas. A primeira concepção do Sistema de Stalisnavsky foi implantada por Lee Strassberg e seu Método, na escola do Actor´s Studio. Isso levou a uma série de mal interpretações do Sistema que derivaram em críticas como a de David Mamet no livro True and False e de Harold Guskin em Como parar de atuar. Strassberg foi sem dúvida o herdeiro de Stalisnavsky mais conhecido, mas ouve também outros professores americanos de interpretação, também discípulos do mestre russo, como Stela Adler e Sanford Meisner e o ator russo Michael Tchekov, que questionaram conceitos da primeira fase do Sistema. Tchekov se distanciou cedo de seu mestre e criou um método próprio de atuação. Clint Eastwood surge nos anos sessenta e início dos anos setenta com um estilo de interpretação oposto ao estilo dominante na época, calcado no Método de Strassberg, e representado por atores como Robert De Niro, Faye Dunaway, Jane Fonda, Al Pacino. O estilo de Eastwood se baseava mais na presença física impassível na tela, mais no gesto físico do que na psicologização, na contenção estilística e na economia gestual e de movimentos. A comunicação analisa o trabalho de ator de Eastwood em seus filmes e também nas obras de Sérgio Leone, Don Siegel e Michael Cimino. Analisaremos a relação forte entre esse estilo “atoral” de Eastwood com seu estilo como cineasta, no que denominamos um estilo pós-clássico (adotando a terminologia de David Bordwell), visível em filmes de Easwood como Perversa Paixão (1971) e O Fora da Lei Josey Wales (1976) e os Os imperdoáveis (1992). O Eastwood diretor não pode ser considerado parte da Nova Hollywood: nos seus filmes não há a incorporação de traços de estilo do cinema moderno europeu a matriz clássica, como a reflexividade, por exemplo. Acreditamos que Eastwood como ator só pode ser compreendido na sua totalidade pelo estudo do Eastwood diretor. Sua performance cinematográfica se filia a forma de interpretar de atores do cinema clássico americano, como James Cagney ou Gary Cooper, a conceitos artísticos e nem sempre académicos, como estar em cena no tempo presente, a confiar no “instinto” e a não estudar a personagem psicologicamente, a usar o corpo de forma de estar em cena como parte de uma composição de quadro, incorporando o diretor. Para finalizar, lançamos a hipótese que une a forma de atuar de Eastwood com a escola do ator e professor russo Michael Tchekov, em particular com a teoria do Gesto Psicológico, um gesto global e adequado que define o personagem na sua essência e que conecta o eu interior do ator através do gesto; nos anos cinquenta, Clint foi aluno de George Shdanoff, parceiro de Michael Tchekov na escola que o ator e professor russo montou nos Estados Unidos a partir de 1938. Há, no estilo de interpretação de Eastwood, um gestual instintivo e essencial, que define o personagem (ver o exemplo de Gran Torino). É partindo desse gesto psicológico que Eastwood constrói suas personagens.

Bibliografia

    BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A Arte do Cinema: Uma introdução. Campinas, SP: Editora da Unicamp; São Paulo, SP: Editora da USP, 2013.
    BORDWELL, David. Figuras traçadas na luz. Campinas: Papirus, 2008
    BORDWELL, David. Sobre a história do estilo cinematográfico. São Paulo: Unicamp, 2013
    BOGART, Anne. A preparação do diretor; Martins Fontes, 2011.
    CHEKHOV, Michael. Para o ator. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
    GUSHKING, Harold. Parar de atuar. São Paulo: Editora Perspectiva, 2012.
    ————, David. Verdadero y falso: herejía y sentido común para el actor (trad. Joseph Costa). Barcelona, Alba Editorial, 2011.
    KNEBEL, Maria. Análise ação: prática das ideias teatrais de Stanislavsky. São Paulo: editora 34, 2016.
    OLIVEIRA JR., Luiz Carlos. A Mise en scène no cinema – do clássico ao cinema de fluxo. Campinas: Papirus, 2013
    ROUBINE, Jean Jacques. A arte do ator. Rio de Janeiro, Zahar, 2011.