Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Janaina Welle (Unicamp)

Minicurrículo

    Cientista Social (Unicamp) com mestrados em Antropologia Visual (Universidade de Barcelona) e Multimeios (Unicamp). Atualmente desenvolvendo sua pesquisa doutoral no programa de Ambiente e Sociedade (Unicamp) sobre memórias e representações da Amazônia pelo documentário brasileiro.

Ficha do Trabalho

Título

    Por um cinema que aumente o caudal dos rios

Formato

    Presencial

Resumo

    A presente comunicação visa refletir sobre as potencialidades do cinema documentário enquanto produtor de narrativas anti-extrativistas a partir da análise de seis documentários sobre a Usina Hidrelétrica de Belo Monte e seus impactos.

Resumo expandido

    Na Amazônia, o extrativismo de grande escala, e as obras de infraestrutura que o acompanham, deixam um árduo legado às populações da região e ao meio ambiente. O extrativismo retira do território e de suas populações não somente recursos naturais, mas também seus recursos vitais, comprometendo a manutenção de seus modos de vida e saberes. Além disso, as populações impactadas têm sido sistematicamente deixadas à margem dos processos de decisão sobre seus territórios. A retórica que endossa esse cenário é de uma pretensa vocação da Amazônia para o extrativismo, por sua abundância em recursos naturais e um suposto vazio demográfico. Desconsideram os milhares de anos de habitação humana no local. Afirmam, que para que o Brasil cresça, é preciso usufruir dos recursos naturais dentro da lógica do capital. Nesse sentido, o extrativismo intensivo se coloca como indispensável.
    Um claro exemplo do modus operandi do extrativismo é a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, na década de 2010. O projeto remonta ao período militar e se desenrolou em meio a múltiplas controversas. Seu processo de licenciamento deixou as demandas das populações afetadas à beira, na tentativa de que fossem submersas pelo reservatório, sendo assim esquecidas. Porém, os movimentos de resistência encontraram ecos em diversas plataformas. Entre eles, no cinema documentário, que ampliou o alcance de suas narrativas, levando para as telas suas angústias, denúncias e reivindicações. Alguns dos títulos sobre o tema que circularam em festivais de cinema foram “Às margens do Xingu, vozes não consideradas” (2011), de Damià Puig; “Belo Monte, anúncio de uma guerra” (2012), de André D’Elia; “Belo Monte: Depois da Inundação” (2016), de Todd Southgate; “O Jabuti e a Anta” (2016), de Eliza Capai; “A Última Volta do Xingu” (2015), de Kamikia Kisedjê e Wallace Nogueira e “Volta Grande” (2020), de Fábio Nascimento. Os filmes registraram principalmente o período de licenciamento da obra, entre 2010 e 2011, e a construção da Usina de Belo Monte, iniciada em 2011 e inaugurada em 2016.
    Esse conjunto de filmes acompanha o transcurso de quase uma década de Belo Monte na região, apresentando desde medos e expectativas para o futuro, assim como o desenrolar da construção e a situação das populações atingidas após o barramento do rio. É interessante perceber que os temores apresentados em “Às margens do Xingu, vozes não consideradas” e “Belo Monte, anúncio de uma guerra” se confirmaram em “Belo Monte: Depois da Inundação”, “O Jabuti e a Anta”, “A Última Volta do Xingu” e “Volta Grande”. A produção documental sobre Belo Monte compõe um relevante arquivo das percepções, temores e denúncias sobre as consequências da obra nos diferentes grupos impactados que têm reiteradamente negada a escuta, o direito a escolha (pela construção ou não das hidrelétricas), as benesses, a perpetuação de sua cultura e, dessa forma, a possibilidade de manutenção da vida enquanto tal. Nesse sentido, os documentários fazem com que suas versões da história tenham espaço, projeção e sejam ouvidas, ainda que pelos seus espectadores. Os filmes plasmam as transformações sociais e ambientais que a região vem sofrendo em decorrência da obra. Suas narrativas dão certa materialidade às violências lentas (NIXON, 2011) a que são submetidas as populações locais, a fauna e a flora pela construção da hidrelétrica. Dessa maneira, contribuem para a legitimação de seus discursos e para que os fluxos de vida possam seguir correndo pelas águas do Xingu.

    O presente trabalho foi realizado com apoio da CAPES, processo nº 88887.502941/2020-00 e faz parte do Projeto Temático SPEC (FAPESP), processo nº 2019/17113-9.

Bibliografia

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    DUTRA, Manuel Sena. A Natureza da Mídia. Os discursos da TV sobre a Amazônia, a biodiversidade, os povos da floresta. Annablume: São Paulo, 2009.
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    NIXON, R. Slow Violence and the Environmentalism of the Poor. Cambridge and London: Harvard University Press.