Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Pablo Gonçalo (UnB)

Minicurrículo

    Pablo Gonçalo é curador, crítico e professor de cinema.
    Entre 2014 e 2016 participou da comissão curatorial
    do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
    É professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de
    Brasília, UnB e autor do “O cinema como refúgio da escrita: roteiros e
    paisagens em Peter Handke e Wim Wenders” (Annablume, 2016) e Hollywood de papel: roteiros não filmados de Ben Hecht, Billy Wilder e Frances Marion (Zazie, 2022).

Ficha do Trabalho

Título

    Da fábrica de sonhos aos sonhos com a fábrica cinematográfica

Seminário

    Cinema Comparado

Formato

    Presencial

Resumo

    É possível comparar cinematografias que não aconteceram nas telas? A partir do contraste de papéis de roteiros não filmados de estúdios da Hollywood clássica com os roteiros inéditos de diretores centrais na história do cinema brasileiro, esta apresentação visa captar as diferenças de suas significações. Quais são as diferenças imaginários que eles revelam? Para que tipo de ficções históricas eles apontam? De um lado, temos estórias inativas; de outro, projetos interrompidos.

Resumo expandido

    A ficção possui um papel central no pensamento cinematográfico de Paulo Emílio Salles Gomes. Embora ela não esteja explícita na sua historiografia, a ficção e a constante incompletude, os seus ciclos interrompidos e as aberrações narrativas que ela cria, revelam-se como um dos índices mais peculiares do cinema brasileiro, e da sua trajetória no subdesenvolvimento.
    Paulo Emílio Salles Gomes elabora, ao longo da sua obra, um conflituoso diálogo entre as forças dessa dialética histórica e a realidade da cinematografia brasileira que analisa e se desenlaça diante de si. Seja na sua obra ensaística, ou na sua historiografia, Salles Gomes constata que não houve, até meados dos anos setenta, nenhum movimento cinematográfico, autor, obra ou contato com público que tenha conseguido estabelecer essas linhas dialéticas, tão bem captadas na literatura, por Antonio Candido, e nas artes brasileiras, por Lourival Gomes Machado.

    Paulo Emílio, ademais, é um dos primeiros pensadores do cinema brasileiro a elucidar o papel que as frustrações e as sensações de fracasso perpassam tantas carreiras. Atento aos desgastes históricos e às constantes lamentações das biografias que se lançam na realização cinematográfica brasileira, Paulo Emílio salienta essas incessantes decepções recaem numa sensação de impotência.
    Não seria o amargor desse fracasso um sintoma histórico a vincular as trajetórias e as carreiras, por exemplo, de Mário Peixoto e Vítor Lima Barreto? Nas cadeias de frustrações, a despeito de um efêmero e retumbante sucesso, que seus poucos filmes propiciaram, ambos tiveram nos roteiros não filmados uma tábua de salvação diante do ocaso de um conjunto de obra. Será que a história do cinema brasileiro precisa ser contada, apreendida e transmitida apenas por lançamentos, realizações e contatos imediatos com o público? Não haveria uma forma histórica diferente delineando-se em pontos soltos, não hegelianos, dispersos e desencontrados?
    A partir dessa provocação de Paulo Emílio Salles Gomes, esta apresentação visa comparar os diferentes papéis que roteiros não filmados possuem em cinematografias robustas, como o cinema da Hollywood clássica, e o cinema brasileiro até os anos sessenta. De um lado, o descarte de obras e roteiros – como acontecia nos principais estúdios de Hollywood, nos quais a não realização era vista como uma forma de investimento. Numa planilha da MGM de 1942, o produtor Dore Schary nomeia seus roteiros não realizados como estórias inativas. Como ocorre num excedente econômico de alta produção industrial, a fábrica dos sonhos de Hollywood é capaz de descartar narrativas imediatas para otimizar histórias futuras. A ficção – e o roteiro, nessa cinematografia consolidada, possui outro papel.
    A partir de pesquisa de roteiros inéditos escritos por cineastas cruciais do cinema brasileiro – como Mário Peixoto, Vítor Lima Barreto, Joaquim Pedro de Andrade e Rogério Sganzerla – esta apresentação salientará o potencial revelador que roteiros inéditos possuem em cinematografias maculadas pela interrupção. Nesse caso, a ficção não é apenas marcada pela inativação ou reativação de histórias potentes – como ocorre em Hollywood. As obras não filmadas, mas escritas, revelam traços estéticos potentes que só podem ser apreendidos, em conjunto, a partir de uma força histórica e especulativa. Pelo viés de uma historiografia dos roteiros não filmados, portanto, o que era considerado fracasso se transforma em potência histórica, apelando para outros, próximos futuros e novas possibilidades ficcionais, que embora velhas e arqueológicas, ainda estão por acontecer.

Bibliografia

    Bernardet, Jean-Claude. 1995. Historiografia Clássica do Cinema Brasileiro. São Paulo: Annablume.
    David Bordwell; Janet Staiger; Kristin Thompson. 1985. The Classical Hollywood Cinema: Film Style & Mode of Production to 1960 . New York: Columbia University Press.
    Flusser, Vilem. 2010. A escrita: há futuro para a escrita. São Paulo: Annablume.
    Gomes, Paulo Emíio Salles. 1994. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. São Paulo: Paz e Terra.
    Gomes, Paulo Emílio Salles. 1982. Crítica no Suplemento Literário, V.II. São Paulo : Paz e Terra.
    Gonçalo, Pablo: Hollywood de papel: roteiros não filmados de Ben Hecht, Billy Wilder e Frances Marion. Zazie, 2022
    Heffner, Hernani. 2012. “Contribuição a uma história do roteiro.” Em Leopldo Serran: esrcevendo com imagens, por Estevão Garcia, 11-43. Rio de Janeiro: Centro Cultural Caixa Econômica Federal

    Tieber, Claus. 2008. Schreiben für Hollywood: das Drehbuch im Studiosystem. Münster: LIT Verlag Münster.