Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Lyana Guimarães Martins (UFRJ)

Minicurrículo

    Montadora e diretora. Doutoranda em Comunicação e Cultura, linha de pesquisa Tecnologias da Comunicação e Estéticas, no PPGCOM / UFRJ.

Ficha do Trabalho

Título

    A incerteza como potência no cinema de Peter Mettler

Formato

    Remoto

Resumo

    A partir do documentário Picture of Light (1994), do diretor Peter Mettler, procura-se refletir sobre as potências das incertezas da percepção e da imagem técnica na criação cinematográfica. Se ao longo da história tais incertezas foram negadas ou evitadas por filósofos, cientistas e até mesmo por artistas, em Mettler percebe-se o contrário. Em diálogo com Arlindo Machado, Jonathan Crary e Rudolf Arnheim, discute-se como perceção e imagem podem ser entendidas como um lugar de invenção.

Resumo expandido

    No documentário Picture of Light (1994), o diretor suíço-canadense Peter Mettler se propõe uma jornada rumo ao extremo norte do Canadá com o objetivo de registrar as luzes da aurora boreal. Mas logo no início do filme, pode-se perceber que esse é apenas o pano de fundo de uma busca sobre os limites da percepção e da imagem técnica. Seria a imagem cinematográfica capaz de dar conta de uma experiência real? E a nossa percepção? São perguntas que o filme nos convida a pensar. Através das suas contruções de visuais e sonoras, somos instigados a duvidar das imagens e da nossa própria percepção, apontando a incerteza de ambas.

    Com Jonathan Crary e Michel Foucault, entendemos que a percepção não envolve apenas questões fisiológicas, mas também forças de diversas ordens. Ela é uma construção e, como tal, não pode ser infalível. Afinal, a ideia de infalibilidade passa por uma ausência de enganos, de erros, como se fosse possível existir uma forma correta, universal e garantida de se perceber. Ao nos estimular como produtores de imagens em Picture of Light, Mettler nos faz com que nos demos conta dessa falibilidade da percepção. Porém, trata-se de um questionamento diferente do pensamento cartesiano: mais do que uma negação ou uma recusa da falibilidade humana, a consciência das limitações e variações perceptivas é um lugar de possibilidades, de experimentação, uma potência criativa.

    Em vez de uma busca por uma suposta verdade, essa não confiança na percepção que Mettler sugere é uma forma de abertura. É a incerteza não como um problema a ser evitado, mas como algo a ser estimulado e investigado. Assim, não importa exatamente o que se vê, mas como se vê. É nesse sentido que Mettler propõe um método de trabalho que ele chama de defaut mode off. Trata-se de uma forma de filmar que se caracteriza por um certo “controle descontrolado”, isto é, que tem uma base de preparação, de pensamento, de conceito, mas que também está aberta à imprevisibilidade, às relações com o entorno – lugares, pessoas, animais, objetos.

    Para Jerry White (2006, p. 13), essa prática documental experiencial é “um método mais aberto à espontaneidade, mais intimamente ligado à experiência”, o que é bastante evidente em Picture of Light. Não por acaso, Mettler (2011, p. 37) considera a câmera de cinema como um instrumento musical em um show de jazz: há uma partitura sob a qual o músico cria e improvisa. Assim, retornamos à ideia que trouxemos no início: a incerteza não como um problema a ser evitado, mas como uma potência. O resultado são imagens que mais evocam do que representam: elas não são uma ilusão de uma experiência do real, mas uma impressão de uma experiência de um mundo vivido e imaginado pelo realizador e completado por aquele que assiste.

    Com Arlindo Machado, entendemos que se não podemos confiar na nossa perceção, tampouco podemos confiar nas máquinas produtoras de imagens técnicas. Não há certeza, não há garantia, tanto em uma quanto na outra. Tudo é fluido e maleável, um campo de possibilidades e subjetividades. Uma variedade que se dá por diversos fatores: culturais, psicológicos, fisiológicos, vivência pessoal, limitações e distorções técnicas. Assim, se existe alguma certeza é a de que nenhuma certeza existe. E esse é o combustível para a criação das imagens, sons e palavras no filme de Peter Mettler. Uma criação marcada pela curiosidade, pela atenção desinteressada, pela deriva, pelo improviso e pela intuição.

    Nesta pesquisa busca-se refletir sobre o processo criativo de Peter Mettler, mais do que realizar uma análisa fílmica dos seus trabalhos. Para tanto, foi essencial participar de um workshop ministrado por ele na Escuela Internacional de San Antonio de los Baños, em Cuba, em novembro de 2019. Desta forma, une-se reflexão teórica com experiência prática para a construção do pensamento.

Bibliografia

    ARNHEIM, Rudolf. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005.
    CRARY, Jonathan. Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX. Rio de Janeiro: Contraponto, 2012.
    _______________. Suspensões da percepção. São Paulo: Cosac Naify, 2013.
    DASTON, Lorraine; GALISON, Peter. The Image of Objectivity. Representations, n. 40, p. 81–128, 1992.
    FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
    MACHADO, Arlindo. A Fotografia como Expressão do Conceito. Studium, n. 2, p. 5–23, 2000.
    METTLER, Peter. Music in Film: Film as Music. Cinémas, v. 3, n. 1, p. 34–42, 2011.
    SONTAG, Susan. Contra a interpretação e outros ensaios. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2020.
    TEIXEIRA, Francisco Elinaldo. Cinemas “não-narrativos”: experimental e documentário – passagens. São Paulo: Alameda, 2012.
    WHITE, Jerry. Of this place and elsewhere: the films and photography of Peter Mettler. Toronto: Toronto International Film Festival