Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    Natasha Romanzoti (UNICAMP)

Minicurrículo

    Natasha Romanzoti é jornalista, escritora, pesquisadora, especialista em roteiro de ficção audiovisual pelo Senac-SP, mestra em Multimeios pela Unicamp e doutoranda em Multimeios pela Unicamp, onde estuda atualmente a história e a cultura do roteiro no cinema brasileiro.

Ficha do Trabalho

Título

    O roteiro enquanto formato escrito no cinema brasileiro

Seminário

    Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual

Formato

    Presencial

Resumo

    Este trabalho pretende tecer algumas considerações sobre a cultura do roteiro enquanto formato escrito no cinema brasileiro de ficção através de levantamento bibliográfico e da análise de documentos que atravessam diferentes períodos da nossa cinematografia. O objetivo é mapear alguns dos modelos utilizados ao longo do tempo e levantar hipóteses sobre como as características formais dos roteiros podem se relacionar com o contexto cultural e de produção.

Resumo expandido

    Este trabalho pretende tecer algumas considerações sobre a cultura do roteiro enquanto formato escrito no cinema brasileiro de ficção a partir de levantamento bibliográfico sobre o tema e de uma breve análise de documentos históricos e exemplos de roteiros que atravessam diferentes períodos da cinematografia nacional, da década de 1920 até os dias de hoje. O objetivo é mapear a evolução e transformação dos modelos utilizados e levantar hipóteses sobre como as características formais desses documentos se relacionam com o contexto histórico, sociocultural e de produção audiovisual.
    É importante notar que, academicamente, a “questão do formato” é frequentemente associada a um contexto particular de produção audiovisual, notadamente uma noção de cinema enquanto indústria, o que supostamente gera uma necessidade de se padronizar a feitura de um filme, a começar pelo seu planejamento escrito. Para Steven Price, as “lentes da indústria” são fatores comuns nas análises de muitos autores, como Janet Staiger, de forma que eles sempre partem do princípio de que o roteiro é um documento industrial, “atribuindo características individuais de roteiros específicos ao seu lugar apropriado dentro dessa estrutura” (2013, p. 5). Isso, por si só, não é visto como um problema, embora Price sugira que tais contextos industriais possam impor limitações às propriedades do texto e até do formato.
    Levando em conta que o Brasil nunca possuiu uma ampla estrutura industrial para a produção de filmes, essas “lentes” se tornam ainda mais restritivas. Uma das hipóteses a serem exploradas nesta apresentação, assim, diz respeito aos fatores múltiplos que podem ter influenciado a cultura do roteiro enquanto formato escrito em diferentes períodos da nossa cinematografia, para além do contexto de produção. Por exemplo, fatores históricos, culturais, ideológicos e estéticos podem ser observados através de marcas formais em roteiros cinematográficos brasileiros.
    De maneira geral, a maioria dos roteiros escritos nas décadas de 1920 a 1960 apresenta modelos híbridos que devem muito a formatos conhecidos como “roteiro de continuidade” e “formato de áudio e vídeo” ou “formato europeu”. A partir da década de 1980, o modelo “master scenes” ou “americano” se torna gradualmente mais comum. Especialmente a partir dos anos 2000, uma maior padronização no formato é alcançada, relacionada em particular ao aumento de cursos, softwares e manuais de roteiro e ao surgimento de editais governamentais de incentivo ao cinema.
    Existem diversas hipóteses que explicam a predominância de um ou outro modelo com o passar do tempo, incluindo, entre outras coisas, o intercâmbio de conhecimento com profissionais estrangeiros e um desejo de profissionalizar a produção cinematográfica brasileira. Ao mesmo tempo, a presença abundante de idiossincrasias e pequenas variações em formato – mesmo em roteiros contemporâneos – parece revelar nuances ligadas a movimentos estético-artísticos, noções de autoria cinematográfica, mudanças legislativas e relações com outros meios como o rádio e a TV, além de contextualizar os documentos dentro de modelos de produção e financiamento específicos ao cenário brasileiro.
    De um dos primeiros roteiros brasileiros conhecidos, Gigi (1925), passando por chanchadas como O Homem do Sputnik (1959), obras autorais como Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e O bandido da luz vermelha (1968), clássicos como Central do Brasil (1998) e Cidade de Deus (2002) e chegando até No Coração do Mundo (2019), podemos observar como as características formais desses documentos indicam uma proximidade com seu tempo, com determinadas correntes estético-ideológicas e com modalidades de financiamento distintivas.
    Por fim, convém apontar que, embora apresentada aqui de forma preliminar, este tipo de pesquisa e de análise formal nos permitem vislumbrar o potencial dessa metodologia para avançarmos o conhecimento sobre a história e a cultura do roteiro e do cinema brasileiro como um todo.

Bibliografia

    CAMPOS, A. Como se escreve para o cinematógrafo. 2 artigos. Transcrição da revista A Fita, 1918, por Maria Rita Galvão.
    CANUTO MENDES DE ALMEIDA, J. Cinema contra cinema: bases geraes para um esboço de organisação do cinema educativo no Brasil. São Paulo: São Paulo Editora Limitada, 1931.
    CINEARTE. Rio de Janeiro: Sociedade Anônima O Malho, n. 3, ano I, 17 mar. 1926. 32 p.
    COMPARATO, D. Da criação ao roteiro: teoria e prática. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.
    HEFFNER, H. Contribuição a uma história do roteiro. Centro Cultural da Caixa Econômica Federal: Rio de Janeiro, 2012. p. 11-43 (Catálogo da Mostra Leopoldo Serran).
    MUNHOZ, M.; URBAN, R (orgs). Conversas sobre uma ficção viva. Curitiba: Imagens da Terra, 2013.
    PRICE, S. A history of the screenplay. Londres: Palgrave Macmillan, 2013.
    RAMOS, F.; SCHVARZMAN, S. (orgs.). Nova história do cinema brasileiro. São Paulo: Sesc São Paulo, 2018, vols. 1 e 2.
    REVISTA DA CINEMATECA BRASILEIRA. São Paulo: Cinemateca Brasileira, n. 2, 2013.