Trabalhos Aprovados 2022

Ficha do Proponente

Proponente

    BRUNO DE SOUSA ARAUJO (Unicamp)

Minicurrículo

    Graduado em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos, com ênfase em Som e Produção (2017). Codiretor de som dos curtas Trilhos (2017) e Rapaz em Amarelo (2018). Tem experiência na área de Artes, com ênfase análise e processamento de filmes, bem como vivência em assistência de produção cultural. Possui interesse em historiografia do cinema e da cultura, cinema queer, estudos culturais e de gênero.

Ficha do Trabalho

Título

    Excessos e dissidências na trilogia do corpo de Jean Garrett

Formato

    Remoto

Resumo

    Por meio do estudo enviesado pelo excesso cinematográfico e os gêneros do corpo, esse trabalho visa identificar e analisar fissuras estéticas, narrativas e representacionais em uma trilogia de filmes da pornochanchada realizados por Jean Garrett, buscando compreender como as dimensões políticas do corpo, das sexualidades e dos gêneros articulam-se a regimes econômicos de imagem, tais como o excesso, o artifício e a sensorialidade.

Resumo expandido

    Inserida em um contexto de recrudescimento da repressão militar institucional pelo qual o país passava nos anos 1970 e aliada às transformações sociais e comportamentais daquela década, a Boca do Lixo foi um “ponto de referência da indústria cinematográfica nacional em São Paulo, onde se localizavam os escritórios de produtores, distribuidores e exibidores” (ABREU, 2012, p. 95). A região, localizada no cruzamento da rua Vitória com a Rua do Triunfo, no bairro da Santa Ifigênia, atraía produtoras de filmes por conta de sua localização estratégica, próxima da principal estação de trem da cidade à época, a Estação da Luz, o que facilitava o transporte de filmes e equipamentos. Na década de 1950 tornara-se uma zona de prostituição. A partir dos anos 1960, o meretrício e o tráfico de drogas passam a coabitar com a produção de filmes. A produção cinematográfica da rua do Triunfo era autossuficiente e visava produzir filmes simples e de baixo custo que obtivessem retorno financeiro rápido. Unindo humor e erotismo às questões de costumes em voga na época, os realizadores do movimento souberam aproveitar a onda de contestação e o zeitgeist contracultural, que assistiu à emergência da luta de movimentos feministas, de liberação homossexual e por direitos civis da população negra. É neste contexto que nasce a pornochanchada, o equivalente brasileiro do fenômeno do sexploitation que acontecia em algumas partes do mundo, sobretudo nos EUA e na Europa.
    Desse contexto, despontaram alguns realizadores que receberam certo reconhecimento perante público e crítica. Jean Garrett foi um deles. Ele ficou conhecido por ter sido um dos diretores daquele período que soube articular formalismo cinematográfico, mise-en-scènes recheadas de artifícios e afetação camp e enredos eróticos e investigativos acerca das motivações psicológicas de seus personagens que agradavam público e certa parcela da crítica na mesma medida.
    Retomando a produção desse significativo realizador atrelada a uma abordagem das narrativas de excesso e das sensações (CÁNEPA; OLIVEIRA JÚNIOR), este trabalho visa investigar a apropriação que uma trilogia de filmes faz dos gêneros do corpo, como definidos por Linda Williams (1991, p. 3): o melodrama, o horror e a pornografia. São os filmes Amadas e Violentadas (1975), Mulher, Mulher (1970) e A mulher que inventou o amor (1980) que suscitam as questões mais pertinentes às abordagens deste trabalho, uma vez que estão imbuídos de tensões dicotômicas entre censura institucional e uma maior permissividade de costumes da época, muito em decorrência das mudanças sociais que ocorriam naquele momento.
    O trabalho objetiva analisar essa trilogia de filmes através do prisma da estética das torções (BESSA, 2017). Essa abordagem diz respeito a “filmes que desestabilizaram visualmente os pilares morais da sexualidade heteronormativa e falocêntrica, das bases que norteiam a instituição familiar e as respectivas performances de gênero (…)” (Ibid. p. 295), ou seja, obras que promovem uma virada em torno de si mesmas ao promoverem um deslizamento de temas como dissidência sexual e desobediência de gênero à sua própria maneira e de acordo com as limitações de seu próprio tempo, sem a necessidade de enunciar essas questões de forma mais incisiva.
    O estudo pretende apurar como questões de relações de poder e marcadores da diferença, sobretudo o gênero e a sexualidade, se apresentam numa determinada filmografia brasileira entre as décadas de 1970 e 1980. A partir da abordagem de filmes eróticos realizados durante a Ditadura Militar e tidos como conservadores e de má qualidade pela crítica especializada da época, propõe-se destrinchar como estes filmes se inserem na produção pornochanchadeira do período, observando as ambivalências estéticas e políticas implicadas nos mesmos.

Bibliografia

    ABREU, Nuno Cesar. Boca do Lixo: cinema e classes populares. Campinas: Unicamp, 2. ed. 2015.
    BESSA, Karla – “Como cheguei a ser o que sou”? Uma estética da torção em filmes das décadas de 60 e 70. In: Revista Estudos Feministas. Jan-Apr 2017.
    CÁNEPA, Laura. Pornochanchada do avesso: o caso das mulheres monstruosas em filmes de horror da Boca do Lixo. Revista da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação | E-compós, Brasília, v.12, n.1, jan./abr. 2009.
    OLIVEIRA JÚNIOR, L. C. Masculinidades excessivas e ambivalentes na pornochanchada dos anos 1980. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal Fluminense. 2019.
    WILLIAMS, Linda. Film Bodies: Gender, Genre, and Excess. In: Film Quarterly, Vol. 44, No. 4. Published by: University of California Press. pp. 2-13. 1991.