Trabalhos Aprovados 2021

Ficha do Proponente

Proponente

    Gisella Cardoso Franco (UFF)

Minicurrículo

    Gisella é graduada em Comunicação na UFF e tecnóloga em Cinema pela Estácio. É Gerente de Produção na H2O Films. Foi curadora e produtora de mostras de cinema nos CCBBs e na Caixa Cultural. De 2009 à 2012 foi Coordenadora de Difusão e Acesso da Secretaria de Estado de Cultura. Em 2013 foi Assessora de Curadoria e Programação do cinema do IMS. Foi Gerente de Projetos na República Pureza por mais de 4 anos, onde produziu diferentes projetos, como o programa “O País do Cinema“ (Canal Brasil).

Ficha do Trabalho

Título

    Inventar mundos: uma análise crítica do Programa Imagens em Movimento

Resumo

    O que o fazer cinema nas escolas públicas apontam sobre mundos inventados e desejados? A partir da pesquisa sobre o programa “Imagens em Movimento”, buscamos uma reflexão que contribua para o debate sobre cinema e educação. Novas subjetividades e possibilidades que surgem do movimento de realização desse projeto e desses filmes; evocando a experiência sensível do cinema em sua capacidade de ocupar e ressignificar espaços; a expressão da representatividade, da alteridade e da territorialidade.

Resumo expandido

    Se fazer cinema é inventar mundos, de que mundos se constitui o que fazemos, pensamos ou assistimos como cinema? A que mundos estes mesmos mundos gostariam de se dirigir como um desejo de investigação, de diálogo, de produção e apreensão? Que sonhos são construídos e traçados por esse outro que é o aluno? Como o cinema e o audiovisual podem fazer parte da leitura, percepção e interação dessa criança na escola e no mundo?
    O estudo do Imagens em Movimento, programa voltado para formação audiovisual de jovens estudantes realizado em escolas da rede pública, busca uma reflexão teórica que contribua para o debate sobre cinema e educação. Envolve pensar a experiência sensível do cinema em sua capacidade de ocupar e ressignificar espaços; pensar o processo de estruturação simbólica na educação e formação social de indivíduos. O foco dessa pesquisa, que hoje está em um estágio embrionário, partirá da análise das experiências práticas e de construções narrativas do programa Imagens em Movimento ao longo dos seus dez anos de realização, a partir de uma revisitação de filmes e exercícios, mas, sobretudo, através de uma colheita ativa de conversas, impressões e memórias de alunos e professores que participaram do projeto.
    Uma busca sobre como o cinema pode entrar na escola como um “outro”, provocando uma experiência à parte dela, como observou e propôs Alain Bergala. Segundo Bergala, “a arte não se ensina; mas se encontra, se experimenta e se transmite por outras vias além do discurso”. A arte é dobra, é aquilo que não se define e não se fecha, é um espaço para incertezas, mistérios e onde a criação e o mágico acontecem. Nos interessa buscar como esses grupos e pessoas perceberam a experiência de integrar esse programa, conectando-os com os caminhos e ideias dos filmes realizados. Pensar sobre como o conceito de lugar de fala já se colocava em prática há um tempo, antes mesmo dessa expressão estar tão no centro do debate como está hoje, através de uma produção que representou novos espaços de vozes, falas, escritas e existências.
    Os filmes realizados em escolas se expressam como respiro diante da falta de epistemologias pensáveis por esses grupos sociais e se tornam um contraponto à invisibilidade de olhares periféricos, suburbanos e oprimidos. Um novo espaço é conquistado por sujeitos que não costumam ter acesso à produção cinematográfica produzida pelo mercado e tampouco aos meios de se fazer um filme; nesse encontro, cria-se um olhar novo e por muitas vezes revolucionário. Um novo olhar que questiona o próprio significado da palavra “periférico”; que questiona o significado do lugar dessa periferia, nos lembrando o quanto esse conceito deve estar relacionado com a posição da pessoa que pensa. Afinal, periférico para quem?
    Sentimos que a experiência de realização de projetos como esse (pensando também em outros como o Inventar com a Diferença e o Cinead) apontam para outras potências e caminhos, para outras formas de se estar na escola, de se estar no mundo e de se estar em ambientes marcados pela violência e desigualdade que é tão comum no entorno de escolas públicas, em especial no território brasileiro e nos tantos meandros e cantos que podemos alcançar. Exatamente por isso, a experiência de projetos assim alcança uma função clínica, de cuidado, retomando uma ideia presente na obra de Deleuze que parece cada vez mais colocada em prática e que inevitavelmente se faz – ou deveria se fazer – presente num processo educativo.
    Pensar a experiência como aprendizado, capaz de evocar a representatividade, a alteridade e a territorialidade. Subjetividades e possibilidades que surgem na pulsão do movimento criativo desses filmes e projetos. Confrontados com a prática, com o que se colheu em dez anos de um projeto inserido no contexto de um país desigual mas ainda sonhador, o que esses conceitos têm hoje a nos dizer em termos de inquietações? O que o fazer e o pensar cinema nas escolas públicas apontam sobre mundos inventados e desejados?

Bibliografia

    1- BERGALA, Alain: A Hipótese-Cinema. Pequeno Tratado de Transmissão do Cinema Dentro e Fora da Escola. Rio de Janeiro: Booklink – Cineadlise-Fe/UFRJ, 2008.

    2- FRESQUET, Adriana: “Cinema e Educação. Reflexões e Experiências com Professores e Estudantes de Educação Básica, Dentro e “Fora” Da Escola”. Autêntica, 2013.
    3- FRESQUET, Adriana: “Cinema, Infância e Educação”, UFRJ, 2003.
    4- DELEUZE, Gilles: “Crítica e clínica”. São Paulo: Editora 34, 1997..
    5- MIGLIORIN, Cezar. Cinema e escola, sob o risco da democracia. In: FRESQUET, Adriana (Org.). Dossiê cinema e educação #1: uma relação sobre a hipótese de alteridade de Alain Bergala. Rio de Janeiro: UFRJ, 2011
    6- RIBEIRO, Djamila: “Lugar de Fala”. Coleção Feminismos Plurais, Edição Revista em Parceria com a Pólen Livros. 2017.
    7- SPIVAK, Gayatri: “Pode o subalterno falar?”, 2010 e 1985. Editora UFMG.
    8- SILVA, Cintia: “Arte Como Saúde: Crítica, Clínica e o Povo Que Falta”. Revista Viso. 2016. Universidade Federal de Ouro Preto.