Trabalhos Aprovados 2021

Ficha do Proponente

Proponente

    Denise Costa Lopes (PUC-Rio)

Minicurrículo

    Doutora em Artes Visuais pela EBA/UFRJ, com bolsa sanduíche na Unité de Arts da Université Lumière Lyon 2, mestre pelo Departamento de Cinema da UFF e bacharel em Comunicação pela ECO/UFRJ, é professora da PUC-Rio, desde 2010, nos cursos de Cinema e Arte & Design, onde leciona também os cursos de extensão de “Cinema e pintura” e de “Transcinema: cinema, pintura e arte contemporânea”. Sua pesquisa se concentra na transversalidade do cinema, em especial com a pintura e a arte contemporânea.

Ficha do Trabalho

Título

    Afroflix: Instauração de porta-existências como midiativismo

Seminário

    Cinemas pós-coloniais e periféricos

Resumo

    Para Souriau, o artista é um advogado de existências, que ao instaurar corpos pela arte torna-se seu porta-existência. A Afroflix, plataforma de exibição de filmes que possuem pelo menos um integrante negro, seria assim um portador de existências, onde a materialidade dos corpos em performance cria entre gesto e mise-en-scéne, presença e sentido, tensão que duplica e amplia a realidade, suscitando novas produções de significações e afetos, como na partilha do sensível, reivindicada por Rancière.

Resumo expandido

    Interessado em modos de existências transmodais, David Lapoujade se pergunta, a partir de Étienne Souriau, “como pode um ser, no limite da inexistência, conquistar uma existência mais ‘real’, consistente? Com que gesto?” (2017: 41) Que arte poderia aumentar essa realidade? Segundo ele, para Souriau, o artista, assim como o filósofo, é um advogado de existências fracas. Pois qual existência poderia ser mais frágil, mais próxima do nada, do que aquela alijada de seu próprio corpo? Instaurar um corpo pela arte seria, segundo Souriau, “se tornar advogado dessa existência, ser seu porta-voz, ou melhor seu porta-existência” (2017: 90).

    Sob essa ótica e por livre analogia, um vetor de porta-existências poderia ser encontrado na Afroflix, plataforma de exibição de filmes que possuem pelo menos um integrante negro na equipe. Rostos privilegiados por enquadramentos próximos e inusitados, emoldurados como quadros vivos expostos em galerias, presos aos frames assim como às situações instransponíveis de suas vidas, aparecem como marcas das produções coletivas midiativistas disponibilizadas no canal que instauram e empoderam essas identidades praticamente subtraídas de seus direitos de existir, tal como apontado por Lapoujade: “Sabemos que a melhor maneira de solapar uma existência é fazer de conta que ela não tem nenhuma realidade. Nem mesmo se dar ao trabalho de negar, apenas ignorar. Nesse sentido, fazer existir é sempre fazer existir contra uma ignorância ou um desprezo” (2017: 91-92).

    Formas amalgamadas de arte e vida, em especial nos vlogs do canal, promovem também uma melhor compreensão da coletividade filmada, onde a história de um interage com a do outro, criando um fluxo contínuo, onde não sabemos mais onde uma existência começa e outra termina. Como num jogo de aparição/desaparição afeito à própria dinâmica performática, os corpos assumem múltiplas existências, pois “não mais se trata de ser isto ou aquilo, mas sim de conquistar tantas novas maneiras de ser como se fossem tantas dimensões de si mesmo” (Lapoujade, 2017: 59), onde tudo é processo.

    As narrativas das personagens ganham função emancipatória. Afinal, ouvir as reivindicações desses corpos é “ver nessas existências aquilo que têm de inacabado, é forçosamente tomar o partido delas. É o que significa entrar no ponto de vista de uma maneira de existir, não apenas para ver por onde ela vê, mas para fazê-la existir de outra maneira” (Lapoujade, 2017: 90). É reconhecer seus locais de fala. Ouvi-los e vê-los no emaranhado de um pertencimento inaudito.

    Ao intervir na exposição dessas quase não-existências pela imagem em movimento, as obras exibidas criam entre gesto e mise-en-scéne, presença e sentido, um liminar tensional que duplica e amplia a realidade, suscitando novas produções de significações e afetos. A materialidade desses corpos excluídos em constante performance a tangenciar os nossos funciona como tradução da partilha do sensível reivindicada por Jacques Rancière a promover arquissemelhanças e a diminuir as distâncias do cinema.

    A transmutação das imagens na tela podem ser lidas ainda como as sonhadas por Hans Ulrich Gumbrecht. Para quem a experiência estética, entendida como momentos de intensidade e de experiência vivida, possibilita simultaneamente efeitos de sentido e presença e pode ajudar a recuperar a dimensão espacial e corpórea da existência e devolver a sensação de estar-no-mundo, no sentido de fazer “parte de um mundo físico de coisas” (2010: 146).

    Ao performar a vida, tornando visíveis estéticas que potencializam virtualidades, filmes, vlogs, séries e clipes da Afroflix conferem uma nova visibilidade a essas existências de forma a tirá-las de seus anonimatos, de suas não-existências, configurando uma nova política afetiva das imagens a partir de uma lógica multimodal, coletivista e viral. Investigar essa produção a partir dos conceitos aqui descritos parece importante para entendermos o tipo de envolvimento criado e seus possíveis desdobramentos.

Bibliografia

    Braigui, A., Lessa, C., Câmara, M. (Orgs.) (2018). Interfaces do midiativismo: do conceito à prática. Belo Horizonte: CEFET-MG.
    Brasil, A. (2011). A performance: entre o vivido e o imaginado. Porto Alegre, UFRGS: Compós.
    Hooks, B. (2019). Anseios, raça, gênero e políticas culturais. São Paulo: Editora Elefante.
    Gumbrecht, H.U. (2010). Produção de presença: O que o sentido não consegue transmitir. Rio de Janeiro: Contraponto, Editora PUC-Rio.
    Lapoujade, D. (2017). As existências mínimas. São Paulo: n-1 edições.
    Rancière, J. (2012a). As distâncias do cinema. Rio de Janeiro: Contraponto.
    _________. (2012b). O destino das imagens. Rio de Janeiro: Contraponto.
    Ribeiro, D. (2017). O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento.