Seminários Temáticos para o triênio 2020-2022

Audiovisual e América Latina: estudos estético-historiográficos comparados

Resumo

    O objetivo do Seminário Temático é discutir questões narrativas, estéticas, estilísticas e historiográficas da produção audiovisual da América Latina, por meio de um viés comparativo de análise. Desdobram deste foco novas direções de estudos e recortes de investigação, na perspectiva de se ir além das tradicionais abordagens sobre cinematografias nacionais. Assim, o propósito deste ST é reunir pesquisadores que se debruçam sobre o audiovisual latino-americano, proporcionando um espaço que permita aprofundar e ampliar suas reflexões, além de contribuir para um processo de revisão e/ou (re)construção historiográfica. O que significa, entre outros pontos, estimular debates que inter-relacionam o audiovisual brasileiro ao de outros países da AL. Sublinhamos, porém, que não há obrigatoriedade de análises comparativas que envolvam o cinema brasileiro, pois o interesse maior é colocar em jogo demais filmografias e processos cinematográficos, com ênfase no referido recorte sóciogeográfico.

Introdução

    Os embates entre haver ou não uma cinematografia nacional, ganham, sabemos, mais complexidade no cinema contemporâneo, em função de um processo de produção que se articula internacionalmente. A despeito deste dado objetivo, as nacionalidades – incluindo os produtos culturais – permanecem. E, no contexto atual, ganham fôlego em um território que tem significado, não raro, posições fascistas de exclusão, ao limite dos assassinatos. O “outro” nacional, nesse caso, é o grande inimigo. Sob este diagnóstico um tanto genérico (pois não é o foco promover aqui essa discussão), sobrevivem os esforços de, sem se anular os imaginários e políticas que definem as nacionalidades, estimular, debater, analisar produtos e processos que contribuem, de modo substantivo, para maior tolerância, solidariedade e o reconhecimento da alteridade.
    Este mote é, em termos políticos, o que mobiliza a proposta deste ST que tem como “inspiração” os diversos movimentos que marcam a proposta da configuração de uma cinematografia latino-americana que revele os históricos e situações socioculturais e econômicas de cada país integrante desses loci imaginados. Afinal, compartilhamos um passado colonial, que diz respeito a territórios ocupados, riquezas naturais pilhadas e povos originários combatidos e massacrados; compartilhamos fenômenos econômicos e sociais semelhantes, como a tentativa de domínio por parte do imperialismo estadunidense e suas recorrentes interferências políticas; compartilhamos, em resumo, uma determinada situação dentro do capitalismo internacional, passado e recente. Mas também nos diferenciamos em diversos aspectos: no tamanho de nossas indústrias e mercados consumidores; nas línguas faladas – espanhol e português, mas também francês, quéchua, aimará, etc.; nas formas através das quais nossos povos responderam historicamente a cada contexto local assemelhados, com suas lutas políticas específicas; assim como em nossa heterogênea produção cultural, devedora, em larga medida, de nossa diversidade cultural, mas interessada em absorver e canibalizar influências estrangeiras.
    Portanto, a proposta deste ST pretende se viabilizar afirmando que o cinema e o audiovisual latino-americanos residem nessas interpenetrações reais, materiais e simbólicas que por vezes nos aproximam como povos e países e, por vezes, nos afastam. Trata-se de uma produção e processos culturais cujas tensões em se viabilizar colaboram no reconhecimento das múltiplas identidades que se apresentam, tantas vezes, como nossas identidades cruzadas. Comparar essas produções e processos é, a nosso ver, forjar um espaço amplo, aberto a trocas que não se mostram explícitas sem que se invista em novas abordagens. Um espaço que pode garantir as renovações e perspectivas singulares de estudos e investigações que ampliam os diálogos necessários para a compreensão e reconhecimento das potentes (a despeito de tantos dilaceramentos) cinematografias e audiovisualidades da América Latina.

Objetivo

    O objetivo do ST é discutir questões narrativas, estéticas, estilísticas e historiográficas em torno da produção audiovisual da América Latina, incluindo co-produções, por meio de um viés comparativo de análise. A perspectiva comparada visa estimular abordagens que tragam à tona revisões e (re)construções historiográficas; similaridades e diferenças de processos e produtos audiovisuais; além de uma pluralidade de visões que permitam extrapolar entendimentos sobre uma suposta linguagem e mesmo “identidade” latina. Destacamos, ainda, que a proposta pretende, em um de seus aspectos, ressaltar uma dimensão latino-americana da produção audiovisual brasileira, como forma de discutirmos as dificuldades de nos percebermos inseridos numa experiência subcontinental que, historicamente, afastou o Brasil de um processo histórico coletivo. O que não significa não reconhecer as especificidades da historiografia cinematográfica brasileira (ou de qualquer outra latino-americana).

Aspecto

    Os estudos comparativos, sabemos, têm significativa tradição em áreas como as Ciências Sociais, História e Letras e, mais recentemente, também os estudos de cinema e audiovisual têm se valido deste método. A singularidade da nossa proposta ao acionar o método comparativo está no imperativo da dimensão geográfica como norte definidor da investigação e, ainda, na maneira de encontrar similaridades e diferenças entre culturas latino-americanas que escapem de uma representação normativa de “pátria grande”. Portanto, acreditamos que, embora relativamente pouco comum nos estudos de cinema e audiovisual, especialmente no âmbito latino-americano, a análise comparativa entre dois ou mais produtos e/ou processos audiovisuais desta “sócio geografia”, pode ser um procedimento frutífero e promissor para a nossa área.
    Assim, se para o pesquisador Paulo Paranaguá, os estudos de cinema da América Latina, sobretudo sua historiografia, são fortemente marcados por um viés nacional, perseguiremos abordagens que os ampliem e enriqueçam. Este e outros autores notam que o audiovisual em nosso subcontinente é caracterizado pela hegemonia da produção estrangeira, sobretudo estadunidense, e por isso a história de nossas cinematografias teria sido marcada como uma constante pugna contra o audiovisual estrangeiro.
    Por outro lado, conforme assinala Jean-Claude Bernardet, ao propor estudos históricos especificamente para o cinema brasileiro, um bom entendimento sobre a história de tal cinematografia precisa necessariamente se defrontar não apenas com a hegemonia do cinema estrangeiro, mas com o Estado como agente e instituição social significativo. Buscamos expandir essa perspectiva a todas as cinematografias latino-americanas. No entanto, para além da inter-relação com o cinema estrangeiro hegemônico, postulamos que estudar comparativamente tais cinematografias entre si é um importante caminho para nosso campo. Sustentamos que os estudos comparados podem, inclusive, lançar novas luzes para o entendimento de cada cinematografia em particular.
    Portanto, a partir do referido método, enfatizamos as seguintes abordagens: 1) a análise comparada entre filmes hispano-americanos, destacando particularidades que ressaltam aspectos específicos ligados aos contextos locais e nacionais que, muitas vezes, são trabalhados de forma menos evidente sob a ideia mais abrangente de “filme latino-americano”; 2) a análise comparada entre filmes hispano-americanos e brasileiros, como forma de destacar uma leitura da cinematografia brasileira a partir de aproximações e afastamentos da produção subcontinental. Esta perspectiva possibilita iluminar aspectos históricos, econômicos, artísticos e culturais da produção brasileira, levando em conta uma experiência latino-americana durante muito tempo negligenciada pela nossa construção identitária; 3) a análise entre filmes latino-americanos e outras cinematografias mundiais, dando ênfase ao aspecto transnacional na especificidade da produção de nosso subcontinente – em suas dimensões econômicas, sociais, políticas, culturais e no bojo dos aspectos de produção, narrativo, estético, de circulação, exibição, recepção; 4) análise comparada de diversos processos relacionados ao campo do cinema na América Latina, como, por exemplo, o pensamento historiográfico, a crítica cinematográfica, as escolas de cinema, políticas públicas de fomento à produção audiovisual; políticas de preservação e construção de memória em torno ao cinema latino-americano; processos latino-americanos de espectatorialidade e consumo dessa produção; práticas de sociabilidade constituídas pelas experiências cinematográficas na América Latina, dentre outros.
    Por último, sem, é claro, qualquer pretensão de uma abrangência para além das possibilidades de um ST, interessa a essa proposta articular e consolidar redes de pesquisa que se viabilizem no território que o Seminário Temático trabalha, em processos que se desdobrem das abordagens e discussões que têm ocorrido no âmbito do Encontro da Socine. (Tais horizontes foram apontados – afinal, trata-se de uma reproposição – desde a última Socine, o que, a nosso ver, confirma uma escolha teórico-metodológica fértil que pode, ainda, revelar-se mais potente, com os devidos ajustes que já sinalizamos nessa proposta).

Bibliografia

    AGUILLERA, Yanet; CAMPOS, Marina da Costa (Orgs.) Imagem, memória e resistência. São Paulo: Discurso editorial, 2016.
    AVELLAR, José Carlos. A ponte clandestina – teorias de cinema na América Latina. Rio de Janeiro/ São Paulo: Ed. 34/ Edusp, 1995.
    AMÂNCIO, Tunico (Org.). Argentina-Brasil no cinema: diálogos. Niterói: Editora da UFF, 2014.
    BERNARDET, Jean-Claude. Cinema brasileiro: propostas para uma história. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
    CANCLINI, Nestor Garcia. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2003.
    CASTRO ROCALDE, Maricruz; McKEE IRWIN, Robert. El cine mexicano “se impone”: mercados internacionales y penetración cultural en la época dorada. Cidade do México: UNAM, 2011.
    GOMES, Paulo Emílio Sales. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.
    LUSNICH, Ana Laura; PEDRAS, Pablo; FLORES, Silvana (Org). Cine y revolución en América Latina: una perspectiva comparada de las cinematografías de la región. Buenos Aires: Imago Mundi, 2013.
    LUSNICH, Ana Laura; AISEMBERG, Alicia; CUARTEROLO, Andrea (Org). Pantallas transnacionales: el cine argentino y mexicano del período clásico. Buenos Aires: Imago Mundi, 2017.
    PARANAGUÁ, Paulo Antônio. Le cinéma en Amérique Latine: le miroir eclaté: historiographie et comparatisme. Paris: L’Harmattan, 2000.
    ________. Tradición y modernidad en el cine de América Latina. Madrid: FCE, 2003.
    SILVA, Denise Mota da. Vizinhos distantes: circulação cinematográfica no Mercosul. São Paulo: Annablume, 2007.VILLAROEL MÁRQUEZ, Mónica (Org.). Nuevas travesías por el cine chileno y latinoamericano. Santiago de Chile: Lom ediciones, 2015.
    TAVARES, Denise, ALTMAN, Eliska, PRIOSTE, Marcelo e BRAGANÇA, Maurício (orgs). Audiovisual e América Latina: estudos comparados. São Paulo: SOCINE, 2019.

Coordenadores

    Marina Soler Jorge
    Natacha Muriel Lopez Gallucci
    Fabián Rodrigo Magioli Núñez