Seminários Temáticos para o triênio 2020-2022

Cinemas pós-coloniais e periféricos

Resumo

    Nos últimos dois anos, o ST Cinemas Pós-Coloniais e Periféricos aprofundou a discussão acerca das heranças do colonialismo e seus desdobramentos ao redor do mundo. Através dos diversos filmes, bibliografias e debates trazidos pelos participantes do ST, destacamos a abordagem interseccional, as produções culturais periféricas que rompem com modelos institucionais de criação, os cinemas indígenas, o pensamento decolonial latino-americano, e também o cinema das margens, seja do ponto de vista do gênero, da raça ou da linguagem; seja pelo questionamento da relação entre centro – periferia, entre global – local, entre colônia – metrópole. No triênio 2020-2022, continuaremos a reflexão sobre a produção comum de grupos minoritários, coletivos ou movimentos sociais, bem como a revisão crítica das formas e linguagens contra-hegemônicas que potencializam o surgimento de artistas marginais ao mercado cinematográfico e da arte, consolidando novos agenciamentos da imagem.

Introdução

    Nos últimos dois anos, o ST Cinemas Pós-Coloniais e Periféricos consolidou e ampliou uma rede internacional de pesquisadores da imagem em movimento que deu origem ao grupo de trabalho homônimo do Encontro Anual da AIM, em Portugal. Essa rede conta com publicação anual a partir de trabalhos decorrentes de ambos encontros. A coleção Cinemas Pós-Coloniais e Periféricos já conta com três edições. Pretendemos reforçar a consolidação desta rede internacional e intercultural expandindo-a, a partir de epistemologias decoloniais e contra hegemônicas.
    Este Grupo de trabalho, em sua reproposição, organiza-se sob acentuada influência dos estudos decoloniais que avançam por toda América Latina, sobretudo a partir dos anos 2000, num forte contexto social e político de afirmação de nossas próprias matrizes de pensamento e visualidade, a fim de repensar a história, a memória e os desdobramentos do colonialismo face a um mundo cuja matriz colonial de poder (Quijano, 2006) parece querer exercer uma força que não é apenas retórica.
    Pensar o cinema e o audiovisual a partir de uma perspectiva decolonial significa repensar não apenas seus temas ou seus autores, mas suas dimensões simbólicas, técnicas e epistêmicas. Significa repensar estruturalmente o dispositivo e o aparato. Ao investigar relações éticas e estéticas forjadas na colonialidade, buscamos o diálogo com a produção de subjetividades dissidentes, e seus modos de ver e ser produzidos a partir de pontos de vista contra hegemônicos.
    Nesse sentido, buscamos o diálogo com matrizes do pensamento decolonial e descolonial, com o afrodiaspórico, com a matriz contracolonial, com as releituras produzidas pelos artistas pós-coloniais ou pós-independência africanos, assim como com o perspectivismo ameríndio – (Viveiros de Castro, 2015), pensamento brasileiro que põe em causa o entendimento da cultura, da visualidade e da representação a partir do diálogo entre a antropologia e epistemologias dos povos originários do continente.
    Ao mesmo tempo, os avanços do capitalismo global e do neoliberalismo tornam cada vez mais urgente e necessária a articulação do audiovisual a políticas da memória, no sentido da resistência de subjetividades e territórios (físicos e simbólicos) sob ameaça. Esse ST busca dialogar com essas questões, perguntando como podem ser lidas à luz, ou melhor dizendo, à sombra, de uma perspectiva contra hegemônica. Nesse sentido, o conceito de quilombo de Beatriz Nascimento (2006) pode nos indicar caminhos para imaginar algo como uma diáspora das imagens na contemporaneidade, bem como outras arquiteturas insurgentes para o que (ainda) chamamos de cinema.

Objetivo

    1) Refletir sobre a produção comum de grupos minoritários, coletivos ou movimentos sociais que rompem com modelos institucionais de criação: as produções indígenas, o audiovisual produzido nas diásporas; o cinema das margens, seja do ponto de vista de gênero, raça ou linguagem, seja pelo questionamento dos binômios centro – periferia, global – local, high tech – low tech, metrópole – colônia;
    2) Investir na revisão crítica das formas, linguagens e tecnologias que potencializam o surgimento de artistas marginais ao mercado cinematográfico e da arte, consolidando novos agenciamentos da imagem no sul global;
    3) Fortalecer a rede internacional e intercultural de pesquisa, expandindo-a a partir das teorias pós-coloniais, do pensamento decolonial latino-americano e das diversas abordagens anti-coloniais e contra-coloniais nos cinemas ao redor do mundo, em suas produções, discussões e tecnologias.

Aspecto

    Os Estudos Culturais são uma importante corrente de pensamento da segunda metade do século XX que trouxe, para a centralidade do debate, a questão cultural como o lugar político de reivindicação principal. O legado dessa corrente trata, sobretudo, da quebra do pensamento hegêmonico eurocêntrico, tendo como fundamentais teóricos Homi Bhabha, Gayatri Spivak, Edward Said. Os estudos de recepção, os estudos subalternos, os saberes periféricos foram alçados à legitimidade acadêmica numa primeira onda de contestação contra o cânone. Este Grupo de trabalho, em sua reproposição, organiza-se sob acentuada influência do pensamento decolonial, corrente teórica provocada pelos desdobramentos críticos acerca dos Estudos Culturais.
    Entendemos que vivemos um momento de inflexão tecnopolítica no plano nacional e internacional, onde novos contextos sociotécnicos emergem e trazem consigo novas dinâmicas de produção de subjetividades, reconfigurando e tensionando formas de perpetuação estético-narrativas dos grupos que detém o capital cultural e a hegemonia dos meios de produção. Ao redor do mundo, uma cena artística independente e/ou periférica produz artistas criadores de imagens fora dos grandes centros urbanos, à margem das grandes metrópoles culturais e de origens sociais diversas. Esse movimento não apenas provoca intervenções no sistema de produção, circulação e distribuição de imagens, mas dá a ver um gesto político de “autodefinição” (Lorde, 2009) e, a partir daí, a experimentação de novas identidades, performatividades e sexualidades.
    As tecnologias e estéticas decorrentes do gesto político de “autodefinir-se” (ou de “auto-apresentação”/“auto-representação”) têm impulsionado a circulação de obras e artistas que, transpondo o lugar da representação para auto-etnografia, buscam, nos seus processos criativos, dar a ver filmes e narrativas nos quais estão auto-implicados. A questão parece deslocar-se do campo da representação para o campo das autobiografias, das auto-etnografias, das narrativas que partem das subjetividades para agenciamentos coletivos. Não se trata mais de “falar sobre”, mas sim de “falar com” ou mesmo speak nearby, para usar a expressão criada pela cineasta vietnamita Trinh T. Minh-ha.
    Na Europa e nos Estados Unidos, esse movimento é acompanhado pelo fortalecimento de vozes de grupos minoritários, em grande parte, imigrantes provenientes das ex-colônias, cujas potências artísticas vêm afirmando tecnologias e sensibilidades numa onda crescente de questionamento dos moldes imperiais e globais da vida contemporânea.
    Nos países africanos, nos quais a produção de imagens vem sendo usada usada como instrumento da dominação colonial, emerge um cinema anticolonial e de denúncia, que segue se expandindo em termos de gêneros e temas, ampliando o legado de realizadores como Flora Gomes, Safi Faye, Ousmane Sémbene, Med Hondo, Souleymane Cissé, Sarah Maldoror, entre outros.
    Na América Latina, território tradicionalmente resistente e produtor de narrativas audiovisuais contra hegemônicas – haja vista a vasta produção cinematográfica dos cinemas novos que irrompem a partir dos anos 1960, por exemplo – pensamentos e práticas decoloniais contemporâneas – que agora expandem-se no campo das artes – fomentam a atividade de cineastas indígenas, coletivos de cinema em favelas e periferias, cinemas queer, cinemas de mulheres, cinemas negros. Sob uma perspectiva que desobedece a colonização do pensamento, buscamos novos e potentes agenciamentos entre imagens, alteridades e modos de compreender o cinema em contraposição a modelos tradicionais que identificam o audiovisual e suas tecnologias como máquinas de perpetuação da dominação colonial – técnica e simbólica.
    Percebemos que a necessidade de revisão das estruturas coloniais de poder e dominação no campo do cinema e das artes visuais passa tanto pela validação de espaços marginalizados para a circulação de imagens e ideias, quanto pela infiltração de grupos marginalizados nos espaços canónicos tradicionais. Queremos, portanto, aproximar imagens dos circuitos do cinema e das artes visuais, produzindo intersecções entre modos de olhar e ser olhado em esquemas de produção e distribuição audiovisual alternativos e à margem da grande indústria (Steyerl, 2009). Interessa-nos, dessa forma, padrões inovadores de autoria e circulação de filmes coletivos, feitos também por grupos ativistas, coletivos de mulheres, associações e movimentos sociais minoritários, interessados em novas formas de produção de subjetividades e de afetos.
    Dentro deste panorama, iremos refletir quem são os artistas e grupos que estão surgindo no cinema contemporâneo impondo uma nova agenda para a produção e a circulação de imagens, buscando conhecer imagens dos cinemas e das artes visuais que invertam a perspectiva de um olhar suposto universal, dando origem a configurações outras do (in)visível, inventando formatos e criando novas possibilidades de relação entre imagens e alteridades.

Bibliografia

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Coordenadores

    Michelle Sales
    Paola Barreto Leblanc
    Cid Vasconcelos de Carvalho