Trabalhos Aprovados 2017

Ficha do Proponente

Proponente

    André Guimarães Brasil (UFMG)

Minicurrículo

    Professor do Departamento de Comunicação da UFMG, André Brasil desenvolve pesquisas no domínio do cinema com atenção à produção por diretores e coletivos indígenas. É doutor em Comunicação pela UFRJ, tendo realizado pós-doutorado junto ao Centro de Mídia, Cultura e História da NYU. Participa do Grupo Poéticas da Experiência e da equipe de editores da Revista Devires – Cinema e Humanidades. Atualmente, integra o Comitê Pedagógico de Formação Transversal em Saberes Tradicionais da UFMG.

Ficha do Trabalho

Título

    De um mito a outro: Pasolini entre os Tikmu’un

Seminário

    O comum e o cinema

Resumo

    Imaginemos uma visita de Pasolini, não mais a Àfrica, a Índia ou a Palestina, mas às aldeias tikmu’un (maxakali). O que pensaria diante deste outro cinema, deste cinema do outro (capaz de assumir perspectivas das alteridades com as quais se relaciona): cinema-morcego, cinema-gavião, cinema-lagarta, cinema-mandioca. Especificamente, como repensar a aposta pasoliniana elaborada em suas Notas para uma Oréstia africana, diante destas imagens que parecem vindas do sonho, nascidas do interior do mito?

Resumo expandido

    Diante das narrativas, cantos e imagens dos Tikmu’un (Maxakali), César Guimarães (2017) nos pergunta: “pode uma imagem vir como um sonho vem? Poderia uma imagem vir em sonho e agir no real (…)?” De modo inaudito, essa pergunta faz vizinhança a uma formulação distante, por Pier Paolo Pasolini, quando define os traços do que seria uma Subjetiva Indireta Livre: ela implica elaboração estilística, permitindo “encontrar nos meios técnicos do cinema as suas qualidades oníricas, bárbaras, irregulares, agressivas e visionárias” (PASOLINI, 1982, p. 146).
    A partir destas proposições, que por caminhos diferentes ligam as imagens do cinema àquelas do sonho e do mito, gostaríamos de repensar a aposta que fez Pasolini lançar-se em direção às realidades dos países do chamado Terceiro Mundo. Como reler este verso – “África, minha extrema alternativa!” – que encerra o poema “Fragmento à morte”, de 1961? Como rever hoje a reivindicação enunciada por Pasolini em suas Notas para uma Oréstia africana, a de uma transfiguração das divindades furiosas em deusas da poesia?
    Comecemos por imaginar uma outra visita de Pasolini, não mais à Àfrica, à Índia, à Palestina ou ao Rio de Janeiro, mas às aldeias maxakali dispersas em uma desolada região do Norte de Minas. Imaginemos o que pensaria diante deste outro cinema, deste cinema do outro (no sentido de que seja capaz de assumir corpos e perspectivas das alteridades com as quais se relaciona): cinema-morcego, cinema-gavião, cinema-lagarta, cinema-lontra, cinema-mandioca. E a questão então será: como repensar a aposta pasoliniana diante destas imagens que parecem vindas do sonho, vindas em sonho, nascidas do interior do mito?
    Em Notas para uma Oréstia africana (1970) e em outras notas documentárias que fez na Índia e na Palestina, Pasolini realiza uma destas “breves viagens ao país do povo”, que para Rancière (1990), na literatura ou no cinema, “oferecem o inesperado espetáculo de outra humanidade, em suas várias figuras”. Trata-se ali de encontrar o mito, apostando em sua transfiguração poética. Nos filmes tikmu’un, especialmente nestes que se realizam como parte dos rituais de iniciação das crianças (Tatakox), a cena parece ter-se invertido: não se trata agora de uma visita do cineasta a uma comunidade outra, sua presença estrangeira a provocar discreta ou intensa perturbação. Ao contrário, os cineastas tikmu’un acompanham, ou mesmo trazem consigo os visitantes – povos-espíritos – que chegam à aldeia: não raro, a câmera os aguardará ali, na região limítrofe onde, da floresta à aldeia, o invisível precipita-se no visível.
    A formalização destes filmes nos parece mais marcadamente inseparável da configuração estética do próprio evento filmado. Ali, não se trata de encontrar uma formalização estética, capaz de atualizar criticamente a experiência mítica (diante das urgências do presente e das contingências da história), tal como em Pasolini. Talvez, trate-se menos de convocar, observar, olhar o mito (para, quem sabe, reivindicar sua transfiguração em uma forma estética, apostando em uma política por vir) do que de olhar por meio do mito, por meio de suas próprias formas sensíveis.
    Participando fortemente da cena mítica e ritualística, tragado para seu interior, o cinema tikmu’un constitui-se como dispositivo cosmopolítico. Para além do humano, participa de um espaço intensivo, que abriga também os povos-espíritos. Nesse espaço da aliança e da vizinhança com o fora, cada sujeito são povos e cada povo, uma multiplicidade. Ali, homens, mulheres e crianças falam uns pelos outros e “os espíritos cantam pela boca dos homens”. (TUGNY, 2014) , o que nos leva a pensar em uma espécie de discurso indireto livre tornado forma de socialidade. O cinema é chamado a participar, como agência, desse modo de socialidade, integrando um xamanismo múltiplo. Vez ou outra, ele precisa diminuir o passo, recuar levemente, para filmar e comentar a cena, de modo a endereçar as imagens a outros povos.

Bibliografia

    ARAUJO, Mateus. Glauber Rocha e os Straub: diálogos de exilados. In: Gougain, E et al. (Orgs). Straub-Huillet. São Paulo: CCBB, 2012.
    GUIMARÃES, César. A estética que vem. In: Anais do XXVI Encontro Anual da Compós, São Paulo, jun. 2017.
    PASOLINI, P.P. Empirismo Hereje. Lisboa: Assírio e Alvim, 1982.
    RANCIÈRE, Jacques. Short Voyages to the land of the People. Stanford: Stantford Press, 2012.
    TUGNY, Rosângela de (org.); narradores, escritores e ilustradores tikmu’un da Terra Indígena de Água Boa. Cantos e Histórias do Gavião-Espírito. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2009.
    TUGNY, Rosângela. Filhos-imagens: cinema e ritual entre os Tikmũ’ũn. In: Revista Devires – Cinema e Humanidades, Belo Horizonte, UFMG, v.11, n.2, jul./dez.2014, p.154-179.
    VIVEIROS DE CASTRO. E. Perspectival Anthropology and the Method of Controlled Equivocation. In: Tipiti: Journal of the Society for the Anthropology of Lowland South America, 2004.