Trabalhos Aprovados 2017

Ficha do Proponente

Proponente

    Fatimarlei Lunardelli (PUCRS e ABRACCINE)

Minicurrículo

    Jornalista formada pela UFRGS, Mestre e Doutora em cinema pela USP. Autora dos livros Ô Psit: O Cinema Popular dos Trapalhões (1996); Quando Éramos Jovens: A História do Clube de Cinema de Porto Alegre (2000) e A Crítica de Cinema em Porto Alegre na Década de 1960 (2008). Professora de teoria, crítica e análise fílmica atua como jornalista vinculada à ABRACCINE e ACCIRS, entidades representativas da crítica cinematográfica brasileira e do Rio Grande do Sul. Graduanda em Filosofia pela PUCRS.

Ficha do Trabalho

Título

    FILOSOFIA, ANDRÉ BAZIN E O MÉTODO DA CRÍTICA NOS ANOS 60

Resumo

    A recepção de filmes vivida como cinefilia intensa, a leitura dos Cahiers du Cinéma e a aproximação com a filosofia forjaram, na Porto Alegre dos anos 60, um olhar sobre o cinema que resultou em método de interpretação crítica. No contexto da modernidade das rupturas de linguagem, o embate entre o valor da imagem e o valor da realidade resultou na preferência pelo modelo narrativo clássico. Para os jovens críticos da época o valor estético do cinema ligava-se à tradição realista de André Bazin.

Resumo expandido

    A partir da teoria das mediações formulada por Jesus Martín-Barbero o cinema é analisado como prática social na Porto Alegre da primeira metade da década de 1960. Naquele momento deu-se uma discussão calorosa, atravessada pelo confronto de gerações de críticos e uma adesão apaixonada a determinados filmes e modos de fazer cinema, ao sabor da leitura dos Cahiers du Cinéma e das ideias de André Bazin. Alguns críticos que começaram profissionalmente naquele momento estão ainda hoje em atividade: Hélio Nascimento segue escrevendo coluna semanal no Jornal do Comércio de Porto Alegre; Luiz Carlos Merten é crítico no jornal O Estado de S. Paulo, Enéas de Souza integra a equipe editorial da revista de cinema Teorema e Hiron Goidanich é atuante na cena cineclubista porto-alegrense. E havia Jefferson Barros, falecido em 2000, que saiu de Porto Alegre nos anos 70 para trabalhar na revista Veja.
    Era uma época de apaixonada cinefilia que se expressava nos debates travados nas ruas da cidade, nas salas de cinema, nos cursos de história e linguagem ministrados pelos críticos e nos textos publicados. Havia a presença marcante da filosofia nas páginas dos jornais e na figura do professor e filósofo Gerd Bornheim, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, frequentador das sessões do Clube de Cinema de Porto Alegre. A entidade fundada em 1948 por um grupo de intelectuais era liderada pela figura catalisadora do crítico Paulo Fontoura Gastal, o P. F. Gastal, amigo de Paulo Emílio Salles Gomes que escrevia desde os anos 40 nos jornais Correio do Povo e Folha da Tarde.
    Daquela geração designada “nova crítica” ninguém queria fazer cinema, todos queriam ser profissionais da atividade de ver e escrever sobre filmes. Tomando como recorte as publicações do período: o livro Trajetórias do cinema moderno, escrito por Enéas de Souza, que era formado em filosofia, a revista Filme 66, com dois números editados no ano de 1966 e o Jornal de Cinema, lançado em 1967 pelo Clube de Cinema de Porto Alegre, é analisado o embate de ideias que resultou para aqueles sujeitos culturais um método de interpretação crítica. Tratava-se de identificar o diretor como verdadeiro autor, buscando nos filmes uma visão de mundo expressa, não no aspecto formal e encantatório, mas na obra como meio de entendimento do ser humano. Por isso o conceito de mise-en-scene, de compreensão do personagem inserido no contexto dramático, torna-se especialmente importante.
    Tomando a cultura como categoria central e o cinema como um processo de comunicação pelos marcos teóricos de Graeme Turner e Raymond Williams, a pesquisa aponta a circulação das ideias e a recepção dos filmes. No contexto das rupturas de linguagem propostas pelo cinema moderno, a Nouvelle Vague na França e o Cinema Novo no Brasil, aquela geração de críticos manifestou-se a favor da narrativa clássica em detrimento de um cinema mais simbólico e alegórico. Inscreviam-se, deste modo, na tradição realista e humanista de André Bazin, que classificou os cineastas em dois tipos: aqueles que valorizavam a imagem e os que davam predominância para a realidade.

Bibliografia

    BAZIN, André. O cinema da crueldade. SP : Martins Fontes, 1989.
    —– O cinema: ensaios. SP : Brasiliense, 1991.
    FILME 66. Porto Alegre: Federação Gaúcha de Cineclubes, n. 1, jan. 1966. 38p
    FILME 66. Porto Alegre: Federação Gaúcha de Cineclubes, n. 2, abr./jun. 1966. 66p
    GASTAL, Paulo Fontoura. Cadernos de cinema de P. F. Gastal. PoA : Unidade Editorial, 1996
    LUNARDELLI, Fatimarlei. Quando éramos jovens: História do Clube de Cinema de Porto Alegre. PoA : Unidade Editorial/Editora da UFRGS, 2000.
    —– A crítica de cinema em Porto Alegre na década de 1960. PoA : Secretaria Municipal da Cultura/Editora da UFRGS, 2008.
    JORNAL DE CINEMA. PoA : Clube de Cinema de Porto Alegre, n. 1, jun. 1967.
    MARTÍN-BARBERO, Jesus. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. RJ : UFRJ, 1997.
    SOUZA, Enéas de. Trajetórias do cinema moderno. PoA : A Nação/Instituto Estadual do Livro, 1974.
    TURNER, Graeme. Cinema como prática social. SP : Summus, 1997.
    WILLIAMS, Raymond. Cultura. RJ : Paz e Terra