Trabalhos Aprovados 2017

Ficha do Proponente

Proponente

    Arthur Fernandes Andrade Lins (UFPB)

Minicurrículo

    Professor de Montagem no curso de cinema da Universidade Federal da Paraíba, possui experiência na área de Comunicação, desenvolvendo atividades práticas e teóricas voltadas para o campo do audiovisual. Atua como diretor/roteirista/montador, tendo realizado filmes exibidos e premiados em importantes festivais nacionais. Mestre em Letras/UFPB com pesquisa sobre narratologia audiovisual e processos de adaptação no cinema contemporâneo. Coordena projeto de extensão em ‘Estética e Política’.

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema paraibano de ficção em diálogo com o cinema marginal

Resumo

    Partimos do pressuposto que o marco histórico que representa o filme ‘Aruanda´, de Linduarte Noronha (1960) na filmografia nacional, determinou o lugar do cinema paraibano sempre a partir de sua ‘tradição natural’ ao documentário. Pretendemos desmistificar essa concepção crítica em busca de um cinema de ficção que ironicamente pode ser historicizado a partir de outra obra menos conhecida do mesmo realizador, o seu filme ‘O salário da morte’ (1971).

Resumo expandido

    Para refletirmos sobre os caminhos históricos e estéticos do cinema paraibano de ficção e a sua repercussão crítica, precisamos antes retornarmos a um ponto crucial da filmografia paraibana: o documentário ‘Aruanda’ (1960), de Linduarte Noronha, fincou as bases do cinema paraibano dentro de uma tradição do documentário de viés sociológico e recebeu grande alcance crítico ao ser tomado como obra percussora do ‘Cinema Novo’. Não foram poucos os críticos que reconheceram o valor estético e social do filme paraibano e Glauber Rocha lhe dedica um artigo em sua ‘Revisão Crítica do Cinema Brasileiro’ (1963).

    O entusiasmo geral e a grande repercussão crítica que o filme recebe impulsiona um grupo de intelectuais paraibanos a realizarem dez anos depois um projeto ambicioso que iria se efetivar com a realização do primeiro longa-metragem de ficção paraibano, o filme ‘O salário da morte’, dirigido por Linduarte Noronha e produzido por Waldemar José Solha e José Bezerra filho. Como relata o historiador Wills Leal,

    “Assim começa ‘O salário da morte’, o primeiro longa-metragem (ficção) inteiramente rodado na Paraíba, com recursos técnicos, financeiros, artísticos e humanos eminentemente paraibanos. Uma realização que, com dezenas de outras partidas fora do eixo Rio-São Paulo, redundou em fragoroso fracasso comercial, solapando os sonhos de seus produtores de novos filmes e até mesmo da implantação de ‘indústria cinematográfica na Paraíba’” (SOLHA, 122, 2007).

    A partir de entrevistas e relatos dos produtores e críticos de cinema paraibano que viram o filme a época de seu lançamento, houve uma dificuldade geral do público e da crítica em se posicionar dentro de suas referências cinematográficas e históricas no contexto de sua exibição. Mesmo tendo em vista que o filme teve algumas boas repercussões críticas e que o fragoroso ‘fracasso’ foi sobretudo ‘comercial’, o projeto estético e narrativo do filme parece também ter naufragado a ponto de não haver uma continuidade histórica dentro do cinema paraibano de ficção nas décadas seguintes, anos 80 e 90, sobretudo.

    A partir do fim dos anos 90, o cinema paraibano parece ter retomado o seu fôlego ficcional e com a viragem para o cinema digital temos uma proliferação de obras com variados estilos e abordagens estéticas que remetem tanto a ‘tradição’ bem sucedida do documentário quanto ao ‘fracasso’ histórico representado pelo pioneirismo de ‘O salário da morte’ na busca de implementar ‘uma indústria cinematográfica’ na Paraíba. Pretendemos então retomar esse diálogo no ponto mesmo que ele se inicia, começo dos anos 70, e tecer alguns elos com os debates estéticos e os processos produtivos tão discutidos na contemporaneidade.

    Nossa hipótese é que a aliança entre o cinema paraibano e o ‘cinema novo’ no contexto dos debates acirrados do fim dos anos 60 e começo dos anos 70, dificultou a percepção crítica no contexto paraibano das possibilidades estéticas e da via das experimentações que configura um painel mais amplo que determinou o contexto do ‘Cinema Marginal’. Pois enquanto a ‘tradição’ do documentário paraibano pôde se inserir facilmente e se fortalecer a partir do projeto estético-politico-social do Cinema Novo, a sua via ficcional surge em uma crise sobre qual modelo de indústria seguir e qual aliança com o público é possível naquele momento, questões essas que estavam sendo debatidas e propostas pelos cineastas do cinema marginal em uma radicalidade que lhes permitiu resistir e existir em no cenário brasileiro de matriz mais independente.

    Essa aliança com o cinema marginal só foi efetivada a partir da retomada de um projeto estético de cinema ficcional na Paraíba, tendo os seus pontos de ancoragem mais visíveis e bem sucedidos esteticamente no curta-metragem ‘O cão sedento’, (2005) de Bruno de Sales, e no longa-metragem ‘Batguano’, (2014), de Tavinho Teixeira.

Bibliografia

    ANDRADE, Fabio. A verdade do falso. Revista Cinética. acesso em 10 de abril de 2017 http://revistacinetica.com.br/home/batguano-de-tavinho-teixeira-brasil-2014/
    FERREIRA, Jairo. Cinema de invenção. São Paulo, Max Limonad / Embrafilme, 1986. (2.ed.rev.ampl. São Paulo, Limiar, 2000.)
    LEAL, Wills. Cinema na Paraíba, Cinema da Paraíba. segundo volume. João Pessoa, PB, 2007.
    RAMOS, Fernão. Cinema Marginal (1968-1973): A representação em seu limite. editora brasiliense/embrafilme. São Paulo, SP. 1987.
    ROCHA, Glauber. Revisão crítica do cinema brasileiro. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1963. (2.ed.ampl. São Paulo, Cosac & Naify, 2003.)
    XAVIER, I. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo e cinema marginal. São Paulo: Cosac Naify, 2012.