Trabalhos Aprovados 2017

Ficha do Proponente

Proponente

    Letícia Xavier de Lemos Capanema (FIAMFAAM-SP)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e professora do curso de graduação em Rádio e TV, graduação tecnológica em Produção Audiovisual e pós graduação em Produção Executiva e Gestão de Televisão do FIAMFAAM Centro Universitário.

Ficha do Trabalho

Título

    Memória e narração na tradução televisiva de “Dois Irmãos”

Resumo

    Este trabalho busca examinar aspectos da adaptação televisiva do romance “Dois Irmãos” (Milton Hatoum, 2000), realizada por Luiz Fernando Carvalho (direção) e Maria Camargo (roteiro) e exibida pela Rede Globo em 2017. Em particular, coloca-se em relevo as relações entre memória e narração presentes no livro e traduzidas para a minissérie homônima. Para isso, realiza-se uma reflexão sobre a noção de adaptação enquanto tradução, no sentido da transposição criativa entre sistemas sígnicos.

Resumo expandido

    Propomos examinar alguns aspectos da adaptação televisiva de “Dois Irmãos”, particularmente aqueles que tocam a relação entre memória e narração presente no livro e traduzida para a minissérie. Nossa hipótese é que a versão televisiva de “Dois Irmãos”, ao privilegiar a transposição de sensibilidades em detrimento da noção de “fidelidade” às informações do livro, inscreve-se na perspectiva que compreende a adaptação enquanto tradução. Para verificar nossas suposições, num primeiro momento, buscaremos nos aprofundar no conceito de tradução, apoiando-nos nas reflexões de Robert Stam (2006) sobre os perigos da noção de “fidelidade” no processo adaptativo e na ideias de Julio Plaza (2013) sobre a tradução intersemiótica. Em seguida, apresentaremos o romance que deu origem à minissérie assim como a maneira pela qual memória e narração são nele desenhadas. Por fim, examinaremos certos artifícios utilizados pela minissérie para recriar o desenho dessa relação por meio da linguagem audiovisual. As associações entre memória e narração, mobilizadas pelo texto de Hatoum e pela tradução televisiva de Carvalho e Camargo, serão examinadas a partir das reflexões de Walter Benjamin (2008; 2012).
    Em linhas gerais, “Dois irmãos” conta a trágica saga de uma família de imigrantes libaneses instalados na cidade de Manaus, entre as décadas 1920 e 1980. Zana e Halim são pais de Rânia e dos gêmeos Yaqub e Omar. A vida da família e de seus empregados é afetada pela violenta rivalidade entre os gêmeos, desencadeada pela preferência quase incestuosa de Zana por Omar. A história é narrada por Nael, filho da criada da casa e, possivelmente, de um dos gêmeos. Suas lembranças e as histórias que ouviu, temperadas pelo ressentimento de filho bastardo e pela busca de sua paternidade, dão o tom da narração.
    São diversas as portas de acesso ao rico universo de “Dois Irmãos”. As inúmeras possibilidades de interpretação do romance parecem evocar a qualidade dos clássicos, essa capacidade de não cessar de dizer tudo aquilo que tem a dizer. De fato, “Dois Irmãos” aborda uma pluralidade de dramas: a rivalidade entre gêmeos, a tragédia familiar, o incesto, a chegada de imigrantes no Brasil, a catequização dos índios, o golpe militar de 1964, a emergência da zona franca de Manaus, entre outros. Contudo, mais do que uma tragédia universal ou um drama social e histórico, “Dois irmãos” é, acima de tudo, uma história sobre a memória.
    Embora seja possível descrever os temas e o enredo do romance, como traduzir a força insuperável do tempo e a finitude das coisas, traçadas pela memória e pelo esquecimento na narração de Nael? É nesse sentido que retomamos a ideia de que a versão televisiva do romance de Hatoum não se pretende uma mera adaptação do enredo do livro, mas configura-se como criação poética capaz de traduzir em imagem e som aquilo que no livro é pura sensibilidade: a ação do tempo e a necessidade de narrar o passado para ressignificar o presente.
    Sem abandonar o enredo e os temas que o perpassam, a tradução televisiva de “Dois Irmãos” é conduzida justamente pelo diálogo entre memória e narração. Segundo Carvalho, o olhar silencioso, ressentido e atento de Nael é “pura linguagem” (2017, p. 26) e é a partir do mergulho nesse olhar que é tecida a tradução poética do romance para o audiovisual.
    Para tratar das questões da memória e da narração colocadas pelo romance e traduzidas para a linguagem audiovisual pela minissérie, destacamos aspectos que nos parecem mais pertinentes. São eles: o uso da água como representação da memória e como elemento catalisador da lembrança; a ruína como alegoria da memória esculpida pelo tempo e pelo esquecimento; e o entrelaçamento entre memória individual e memória coletiva. Justamente, interessa-nos examinar a capacidade dessa obra televisiva de captar e traduzir a literariedade e a poesia de um romance (naquilo que nele é sensação e inacabamento), valendo-se de recursos da linguagem audiovisual, criando, assim, outra obra poética.

Bibliografia

    BENJAMIN, Walter. Obras Escolhidas I. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 2012.
    BENJAMIN, Walter. A tarefa do tradutor: quatro traduções para o português. Belo Horizonte: Fale/UFMG, 2008.
    CADERNO Globo – Edição 11. Assista a esse livro. São Paulo: Globo Universidade, 2017. Disponível em: app.cadernosglobo.com.br. Acessado em 5 de fevereiro de 2017.
    DOIS irmãos. Direção: Luiz Fernando Carvalho. Roteiro: Maria Camargo. Realização: Rede Globo, 2017.
    GAGNEBIN, Jeanne Marie. Limiar, aura e rememoração. Ensaios sobre Walter Benjamin. São Paulo: editora 34, 2014.
    GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e Narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2013.
    MILTON, Hatoum. Dois Irmãos. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
    PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2013.
    STAM, Robert. Teoria e prática da adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In: Ilha do Desterro A Journal of English Language, 2006